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Capitaneado por Trump, negacionismo climático ameaça o futuro

Publicado em 07/02/2025 3:45 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em carta oficial enviada à Secretaria-Geral da ONU, o governo de Donald Trump anunciou a suspensão do financiamento de US$ 4 bilhões ao Fundo Verde para o Clima, além de formalizar a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris. O gesto, confirmado pela ONU, marca um ponto de inflexão na política ambiental internacional e reforça o isolamento americano em meio a uma crise climática que exige respostas globais coordenadas.

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A decisão de Trump atinge diretamente a COP30, prevista para o final do ano em Belém, evento no qual o financiamento climático pelas nações ricas será o principal ponto de negociação. No Brasil, país-sede da conferência, a medida foi recebida como um golpe estratégico, afetando projetos em curso e minando esperanças de avanço. Dos US$ 6 bilhões prometidos pelos EUA ao Fundo Verde, apenas US$ 2 bilhões haviam sido efetivamente transferidos. Agora, o montante restante está cancelado.

O Fundo Verde para o Clima, criado em 2010, é uma peça central na arquitetura financeira internacional de combate às mudanças climáticas, destinando recursos dos países desenvolvidos para projetos sustentáveis em nações emergentes. Até o momento, foram mobilizados mais de US$ 16 bilhões no mundo, com o Brasil recebendo cerca de US$ 440 milhões em 13 projetos em andamento.

Impacto e reação internacional

O boicote americano não se limitou aos compromissos financeiros. Em outro movimento simbólico, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou que não participará da reunião do G20 na África do Sul, alegando insatisfação com a política de distribuição de terras do governo sul-africano. Rubio foi enfático ao criticar a agenda da presidência sul-africana, acusando-a de promover “diversidade, equidade e inclusão” sob a bandeira da sustentabilidade. “Meu trabalho é promover os interesses nacionais dos Estados Unidos, não desperdiçar o dinheiro do contribuinte ou mimar o antiamericanismo”, declarou Rubio em postagem na plataforma X (antigo Twitter).

Para diplomatas e analistas, a ausência dos EUA reflete a aversão do governo Trump a temas que envolvam cooperação multilateral e justiça climática. Na presidência rotativa do G20, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, enfatizou a importância de ações coordenadas para o financiamento climático, destacando a urgência de que os países ricos honrem seus compromissos. “Buscaremos um acordo para aumentar a qualidade e a quantidade dos fluxos de financiamento climático para as economias em desenvolvimento, conforme acordado em várias cúpulas climáticas da ONU”, disse Ramaphosa.

A ruptura com o Acordo de Paris e o cenário global

Na semana anterior, a ONU havia confirmado a notificação formal da retirada dos EUA do Acordo de Paris, efetiva a partir de 2026. Embora o prazo técnico conceda uma janela de reversão, o governo Trump já declarou que não cooperará mais com a entidade e interromperá todos os repasses financeiros relacionados ao clima. Para justificar suas decisões, Trump invocou argumentos econômicos, classificando o acordo como “um roubo” que prejudica a competitividade americana em benefício de países como a China.

No setor energético, Trump deu início a uma série de medidas que revogam políticas do governo Joe Biden, como a proibição de novas explorações de petróleo e gás. A exploração na região do Alasca, considerada ambientalmente sensível, será retomada sob o pretexto de uma emergência nacional de energia. “Não vamos sabotar nossa indústria, enquanto a China polui”, declarou Trump, em discurso inflamado contra a regulação ambiental.

Marina Silva rompe o silêncio diplomático

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, reagiu duramente à postura americana, rompendo o tom cauteloso que vinha sendo adotado pelo governo brasileiro. “Seus primeiros anúncios vão na contramão da defesa da transição energética, do combate às mudanças climáticas e da valorização de fontes renováveis na produção de energia”, afirmou Marina, ecoando as preocupações de diversos líderes internacionais. Para ela, a postura de Trump ameaça os esforços globais de redução das emissões, especialmente considerando que os EUA são o segundo maior emissor mundial de gases de efeito estufa.

A ministra ressaltou ainda os impactos sistêmicos das políticas americanas: “Vejo com enorme preocupação o anúncio de que o presidente pretende acabar com o Green New Deal, tirar os EUA do Acordo de Paris, retomar a indústria automotiva sem dar prioridade para carros elétricos e valorizar o uso de combustíveis fósseis”, disse. Para Marina, o abandono das evidências científicas e a negação dos eventos climáticos extremos que assolam o próprio território americano configuram uma ameaça não apenas ambiental, mas também econômica e geopolítica. “Serão tempos desafiadores para o mundo inteiro”, concluiu.

O desafio de Belém

A COP30 será o teste definitivo para a diplomacia climática global. Com o financiamento climático sob ameaça e os EUA se distanciando da arena multilateral, caberá a países emergentes como o Brasil liderar as negociações. Segundo analistas, o papel de Belém será central para tentar preservar o espírito de cooperação internacional estabelecido no Acordo de Paris.

Para a ONU, no entanto, o contexto é desafiador. Como apontou o secretário-geral António Guterres, a escalada de medidas contrárias à proteção ambiental pode comprometer os esforços para limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Sem o apoio financeiro dos grandes emissores, o risco é que o Sul Global pague o preço mais alto pelas mudanças climáticas, perpetuando desigualdades econômicas e sociais.

O cenário reflete, nas palavras da socióloga alemã Ulrich Beck, autor da teoria da “sociedade de risco global”, o dilema contemporâneo: a crise climática não pode ser resolvida por nações individualmente. “Os desafios globais exigem respostas globais”, escreveu Beck. O isolamento americano, portanto, é mais do que uma decisão política; é um risco existencial.

Na ausência de uma liderança cooperativa, resta à sociedade civil global intensificar a pressão por uma mudança de rumo, antes que seja tarde demais.

Oceanos: o novo termômetro do colapso climático

A taxa de aquecimento das águas globais mais do que quadruplicou nas últimas quatro décadas, revelando uma ameaça silenciosa que, a cada dia, se torna mais impossível de ignorar. A publicação da revista científica Environmental Research Letters alerta que a temperatura média dos oceanos, que aumentava cerca de 0,06ºC por década nos anos 1980, agora registra um crescimento preocupante de 0,27ºC por década. O que está em jogo, segundo especialistas, não é apenas a elevação dos termômetros marinhos, mas o colapso de ecossistemas marinhos e a amplificação de eventos climáticos extremos em escala global.

“Se os oceanos fossem uma banheira de água, na década de 1980 a torneira quente estava correndo lentamente, aquecendo a água em uma fração de grau por década. Agora, a torneira corre muito mais rápido, e o aquecimento disparou”, afirmou Chris Merchant, professor da Universidade de Reading e autor do estudo. A metáfora é simples, mas o contexto é devastador: os oceanos absorvem mais de 90% do calor gerado pelo desequilíbrio energético da Terra, o que os torna protagonistas invisíveis no cenário das mudanças climáticas.

Esse desequilíbrio, de acordo com os cientistas, quase dobrou desde 2010. Um dos motivos principais é o aumento das emissões de gases de efeito estufa, que aprisionam o calor na atmosfera e limitam a quantidade de energia térmica que pode escapar para o espaço. O segundo fator é a diminuição da refletividade da Terra, fenômeno conhecido como albedo, causado pelo derretimento de gelo polar e mudanças no uso da terra.

Os efeitos são evidentes: durante 450 dias seguidos, em 2023 e no início de 2024, os oceanos registraram máximas históricas de temperatura. Parte desse aquecimento se deve ao El Niño, o fenômeno natural e cíclico de aquecimento das águas no Oceano Pacífico. No entanto, a comparação com o evento El Niño de 2015-2016, de características similares, revelou uma diferença alarmante. Desta vez, 44% do calor recorde não podem ser atribuídos a causas naturais, mas ao ritmo acelerado do aquecimento global induzido pelo homem.

O aquecimento dos oceanos é uma bomba-relógio climática

Não se trata apenas da elevação média das temperaturas marítimas, mas das consequências em cadeia que isso provoca. O aumento da temperatura da superfície do mar está diretamente relacionado ao derretimento das calotas polares e à elevação do nível dos oceanos, ameaçando cidades costeiras em todos os continentes. Ao mesmo tempo, ecossistemas como os recifes de corais, fundamentais para a biodiversidade marinha e segurança alimentar de milhões de pessoas, enfrentam riscos crescentes de extinção.

Além disso, o aquecimento oceânico intensifica tempestades tropicais e furacões, alimentando desastres climáticos mais severos e frequentes. Como afirma o filósofo e sociólogo francês Bruno Latour, no livro Facing Gaia (2017), “a crise climática não é apenas um problema ambiental; é uma redefinição do contrato entre o ser humano e a Terra”.

A aceleração do aquecimento é tão rápida que os próximos 20 anos podem superar os últimos 40. Essa constatação, feita pelos cientistas, sublinha a importância de ações políticas imediatas. Enquanto governos ao redor do mundo relutam em implementar cortes drásticos nas emissões de carbono, especialistas apontam para o conceito de carbon budget — a quantidade máxima de CO₂ que ainda podemos emitir antes de ultrapassarmos o limite crítico de aquecimento global de 1,5ºC. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), esse orçamento está se esgotando rapidamente.

As soluções, embora conhecidas, exigem vontade política e compromisso global. A transição para fontes de energia renovável, o abandono gradual dos combustíveis fósseis e o reflorestamento são peças centrais na estratégia para desacelerar o aquecimento dos oceanos. “A única forma de abrandar esse aquecimento é começar a fechar a torneira de água quente, cortando as emissões globais de carbono e avançando para o zero líquido”, destaca Merchant.

Mas a política global tem sido lenta em responder ao desafio

Nos Estados Unidos, a transição energética enfrenta resistência no Congresso, enquanto a União Europeia lida com pressões de setores industriais e agrícolas. Países emergentes, por sua vez, reivindicam justiça climática, argumentando que as nações ricas, principais responsáveis pelas emissões históricas, deveriam assumir a maior parte dos custos dessa transição.

O aquecimento dos oceanos é um alerta contundente do preço da inação. Como advertiu o cientista ambiental James Hansen, em uma de suas análises climáticas para a NASA, “os oceanos são os pulmões do planeta. Ignorar seus sinais de sofrimento é ignorar a própria sobrevivência da humanidade.” Com o mundo enfrentando ondas de calor sem precedentes, enchentes catastróficas e secas severas, a mudança não pode mais ser uma possibilidade distante: ela deve ser imediata, profunda e, acima de tudo, coletiva.

A cada grau adicional nos oceanos, a conta chega mais alta. E ela não será paga apenas por quem a ignorou, mas por todos nós, especialmente as futuras gerações que herdarão um planeta em estado de emergência. A ciência deixou claro: o tempo de abrir mão da letargia acabou. Se quisermos evitar os cenários mais desastrosos, não podemos esperar mais uma década.

Inflação alimentar e crise climática

Ir ao mercado em 2024 no Brasil foi mais do que um simples ritual de abastecimento; tornou-se uma experiência de indignação coletiva. Dos 168 itens relacionados à alimentação monitorados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 119 registraram alta nos preços, com destaque para produtos como abacate, frutas cítricas, café moído e o azeite de oliva. O aumento não é casual. Por trás das gôndolas de supermercados e das bancas das feiras, está a crise climática, amplificada pelo fenômeno El Niño e potencializada por um contexto internacional adverso.

A inflação acumulada no setor de “alimentação e bebidas” em 2024 foi de 6,44%, superando o índice geral, de 4,29%, segundo o IBGE. Em comparação, no ano anterior, a inflação alimentar foi de apenas 1%. O descompasso reflete uma combinação de eventos climáticos extremos e tensões globais, como a guerra na Ucrânia e na Palestina, além do impacto da alta do dólar.

O Brasil não enfrentou essa crise sozinho. A cadeia global de produção de alimentos foi atingida duramente, com regiões estratégicas experimentando condições climáticas hostis. No caso do café moído, por exemplo, o aumento acumulado de 33% em 2024 reflete as dificuldades enfrentadas tanto no Brasil quanto no Vietnã, os maiores produtores do grão. Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo enfrentaram ondas de calor e secas severas, enquanto o Vietnã alternou entre seca histórica e chuvas intensas. O resultado foi um preço recorde nos mercados internacionais, o mais alto em 50 anos.

O azeite de oliva, um item cada vez mais presente nas mesas brasileiras, também sofreu forte impacto. Em 2024, o produto registrou uma alta acumulada de 21,6%, após já ter subido 37,1% no ano anterior. A origem dessa crise está na Europa, onde as tradicionais regiões produtoras – Espanha, Itália, Grécia e Portugal – foram devastadas por temperaturas extremas. Em algumas áreas, os termômetros ultrapassaram os 40 °C, um cenário catastrófico até mesmo para as oliveiras, resistentes ao clima mediterrâneo. A queda na produção europeia fez os preços dispararem globalmente.

O fenômeno climático por trás da crise

O biênio 2023-2024 foi marcado pela atuação do El Niño, fenômeno que historicamente altera o regime de chuvas e as temperaturas no Brasil e no mundo. No Sul, as chuvas excessivas devastaram plantações no Rio Grande do Sul, enquanto o Norte e o Nordeste sofreram com secas prolongadas. O Centro-Oeste e o Sudeste experimentaram ondas de calor extremas. A grande diferença, desta vez, foi o papel amplificador das mudanças climáticas.

Estudos conduzidos pelo World Weather Attribution indicam que as chuvas intensas no Rio Grande do Sul foram duas vezes mais prováveis e até 9% mais intensas por conta do aquecimento global. A seca histórica na Amazônia, que se repetiu em 2024, foi 30 vezes mais provável. Já as ondas de calor que dominaram o país em 2023 foram 100 vezes mais prováveis devido às alterações climáticas causadas pelo homem.

Para Eduardo Assad, pesquisador da Fundação Getulio Vargas e ex-pesquisador da Embrapa, a aceleração das mudanças climáticas cria um cenário de incertezas na produção agrícola. “Desde que surgiu, há 10 mil anos, a agricultura é afetada por variações climáticas”, explica. “Mas o que estamos vendo hoje são alterações em um período extremamente curto. No passado, levava-se mil anos ou mais para mudanças desse tipo ocorrerem. Hoje, elas acontecem em 10 ou 20 anos.”

A causa dessa intensificação está bem estabelecida: o aumento das emissões de gases de efeito estufa, resultante da queima de combustíveis fósseis, desmatamento e práticas agrícolas insustentáveis. Assad, em uma metáfora alarmante, descreve a situação como um “caminhão em descida sem freios”. Para ele, sem uma rápida e efetiva ação global, a produção agrícola se tornará cada vez mais instável. “Em breve, teremos que nos contentar com comida feita em impressoras 3D.”

O aumento dos preços de alimentos associado ao aquecimento global já tem nome: heatflation. Um estudo publicado na revista Nature em março de 2024 mostrou que esse fenômeno pode elevar os preços em até 3% por ano até 2035, dependendo do ritmo do aquecimento. Para cada 1 °C de aumento na temperatura média mensal, a inflação alimentar cresce 0,2% no ano seguinte. Esses dados não consideram os impactos cumulativos de conflitos globais ou choques econômicos.

Dólar, conflitos globais e ineficiências internas: o outro lado da crise

Embora o clima tenha sido o protagonista da inflação alimentar em 2024, ele não foi o único responsável. O valor recorde do dólar incentivou a exportação de alimentos, diminuindo a oferta interna. Além disso, encareceu a importação de insumos, como fertilizantes e agrotóxicos. Conflitos internacionais, como as guerras na Ucrânia e na Palestina, afetaram o fornecimento de grãos e óleo vegetal.

Giampaolo Pellegrino, da Embrapa, destaca a falta de políticas de adaptação como um fator crucial para a vulnerabilidade atual. Ele defende a criação de estoques reguladores de alimentos, investimentos em infraestrutura logística e melhorias no manejo do solo para torná-lo mais resiliente aos extremos climáticos. “Podemos reduzir os impactos com alternativas práticas e eficientes. Não podemos ficar reféns do clima.”

O Brasil, como um dos maiores produtores agrícolas do mundo, enfrenta um dilema central: enquanto suas safras sofrem os impactos diretos das mudanças climáticas, a falta de políticas públicas robustas para mitigação e adaptação expõe o país a choques futuros. O caminho para evitar crises mais severas passa pela redução das emissões de gases de efeito estufa, mas também pela adoção de práticas agrícolas sustentáveis e pela modernização da infraestrutura produtiva.

O preço dos alimentos não está apenas subindo – ele sinaliza o custo crescente de um planeta em crise. Enquanto as soluções não saem do papel, o brasileiro paga a conta no mercado e na feira.

Relógio do Juízo Final avança

Em meio a uma convergência de crises — ambientais, militares, políticas e tecnológicas — o mundo se aproxima como nunca do seu limite. O avanço do Relógio do Juízo Final para 89 segundos antes da meia-noite não é apenas um sinal de alerta, mas um grito desesperado de cientistas para evitar o colapso global.

Quando o Boletim dos Cientistas Atômicos revelou, na terça-feira (28), que o Relógio do Juízo Final havia avançado para seu ponto mais crítico da história, muitos observaram a notícia com um misto de temor e resignação. Desde 1947, quando Albert Einstein e outros cientistas criaram o medidor simbólico, ele serviu como uma espécie de bússola ética e tecnológica para o destino da humanidade. O avanço para 89 segundos antes da meia-noite — em comparação aos 90 segundos registrados em 2023 — reflete não só o aumento de ameaças existenciais como conflitos armados e mudanças climáticas, mas também a crise das instituições internacionais em lidar com essas questões.

Esse novo ajuste, apontam os cientistas, não é apenas um reflexo do acúmulo histórico de tensões, mas uma advertência: estamos vivendo uma convergência única de riscos. A posse de Donald Trump, com seu histórico de desmonte das políticas climáticas, funciona como um lembrete de como lideranças populistas e irresponsáveis podem acelerar o colapso.

A marcha do Relógio

O Relógio do Juízo Final tem uma longa trajetória de idas e vindas, espelhando os grandes marcos históricos do século XX e XXI. Quando foi criado, em 1947, o relógio refletia os temores da era nuclear. Não era para menos: o final da Segunda Guerra Mundial havia sido marcado pelo uso das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, seguidas pelo início da corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética.

Em 1953, o mundo viu o Relógio avançar para 2 minutos antes da meia-noite, após os testes nucleares de ambas as superpotências. Naquele momento, o colapso nuclear parecia iminente, e a humanidade passou a viver sob a sombra do conceito de destruição mútua assegurada — a ideia de que qualquer guerra entre as superpotências levaria à aniquilação total.

Mas, curiosamente, o fim da Guerra Fria não trouxe o alívio esperado. Quando o Relógio chegou a 17 minutos antes da meia-noite, em 1991, com os acordos de desarmamento e a dissolução da União Soviética, muitos acreditaram que o século XXI seria marcado por uma era de paz e prosperidade. O avanço tecnológico e a globalização foram vistos como os motores dessa nova era. No entanto, o início do novo milênio mostrou que essas esperanças eram ingênuas. O terrorismo global, as mudanças climáticas, a ascensão de novas potências autoritárias e o desenvolvimento descontrolado da tecnologia reverteram rapidamente os ganhos anteriores.

Hoje, não apenas o risco de uma guerra nuclear voltou a ser uma realidade, mas ele é agravado por ameaças adicionais, como o colapso ambiental, pandemias globais e o avanço de tecnologias disruptivas, como a inteligência artificial. O Relógio reflete esse panorama, onde os riscos não são isolados, mas interconectados, alimentando-se uns dos outros.

O papel de Donald Trump

A posse recente de Donald Trump — um conhecido cético climático e defensor da indústria de combustíveis fósseis — adicionou um elemento de imprevisibilidade ao cenário global. Durante seu primeiro mandato, Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, enfraqueceu regulamentações ambientais e cortou o financiamento de agências dedicadas ao estudo das mudanças climáticas. Sob seu governo, as emissões de carbono nos Estados Unidos aumentaram, enquanto os esforços internacionais para conter o aquecimento global perderam força.

Agora, com sua volta ao cenário político, há temores de que ele repita — ou aprofunde — as mesmas políticas. “As mudanças climáticas são vistas como uma baixa prioridade nos Estados Unidos e em muitos outros países”, afirmam os cientistas. Isso é preocupante, pois o mundo já está testemunhando os efeitos devastadores da crise climática: secas prolongadas, inundações recordes, ciclones tropicais mais intensos e incêndios florestais sem precedentes. Um relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) estima que, se as emissões globais não forem drasticamente reduzidas até 2030, o planeta pode ultrapassar os 1,5°C de aquecimento, o que desencadearia eventos climáticos catastróficos.

Esse cenário agrava-se quando líderes nacionais colocam interesses econômicos imediatistas acima da proteção ambiental. Como destacou o sociólogo Ulrich Beck, em sua obra A Sociedade do Risco, vivemos em uma era onde o progresso tecnológico criou novos tipos de riscos globais — riscos que não podem ser contidos por fronteiras nacionais e que, muitas vezes, são invisíveis até que seja tarde demais.

O perigo de uma guerra nuclear

Além do clima, os cientistas destacam os riscos crescentes de uma guerra nuclear, especialmente no contexto da guerra na Ucrânia e da instabilidade no Oriente Médio. O conflito ucraniano não apenas envolve potências nucleares diretas, como a Rússia, mas também é um campo de testes para novas tecnologias militares, incluindo sistemas de inteligência artificial autônomos.

Esses sistemas, muitas vezes capazes de tomar decisões de forma independente, levantam sérias questões éticas e práticas. Até que ponto as máquinas terão autonomia para decidir sobre o uso de armas nucleares? E o que aconteceria se esses sistemas cometessem erros ou fossem manipulados por atores mal-intencionados?

“A guerra na Ucrânia pode se tornar nuclear a qualquer momento”, alertam os cientistas, ressaltando que tanto erros de cálculo quanto decisões impulsivas podem desencadear uma catástrofe. Situação semelhante ocorre no Oriente Médio, onde tensões históricas entre Israel, Irã e outros atores regionais mantêm a região sob constante risco de uma escalada.

O impacto invisível da desinformação e das novas tecnologias

Um dos aspectos mais alarmantes mencionados pelos cientistas é o papel da desinformação na amplificação dos riscos globais. “Os avanços na IA estão tornando mais fácil espalhar informações falsas pela internet e mais difícil detectá-las”, afirmam. Isso não é apenas uma questão de redes sociais, mas uma ameaça à própria capacidade de resposta das sociedades. Campanhas de desinformação podem minar a confiança nas instituições, deslegitimar eleições e polarizar populações, dificultando a implementação de políticas globais eficazes.

A filósofa alemã Hannah Arendt já advertia sobre os perigos da manipulação da verdade na esfera pública. Em seu ensaio Verdade e Política, ela argumenta que, quando a verdade objetiva é minada, a sociedade perde a capacidade de agir coletivamente, abrindo caminho para regimes autoritários e crises políticas.

Hoje, esse cenário é exacerbado por líderes políticos que não só toleram a desinformação, mas a promovem como uma estratégia de poder. A incapacidade de distinguir fato de ficção cria um terreno fértil para a disseminação de teorias da conspiração, muitas vezes impulsionadas por atores estatais em operações transfronteiriças de propaganda.

Uma última chance: cooperação ou colapso?

Os cientistas são enfáticos: ainda há tempo para reverter o avanço do Relógio do Juízo Final, mas ele está se esgotando rapidamente. Estados Unidos, China e Rússia — as três superpotências com o poder de destruir ou salvar a civilização — precisam iniciar negociações de boa-fé sobre desarmamento nuclear, mudanças climáticas e regulação tecnológica.

No entanto, como bem pontuou o filósofo Norberto Bobbio, “a democracia depende da disposição ao diálogo, e sem diálogo não há futuro”. O desafio é saber se os líderes mundiais terão a sabedoria e a coragem de ouvir o que o Relógio está tentando dizer antes que o ponteiro alcance a meia-noite.

O tempo está correndo.

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