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Especial
Mercado financeiro errou 95% das previsões desde 2021
Publicado em 31/01/2025 3:18 - Semana On
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O Banco Central anunciou na quarta-feira (29) o aumento da taxa básica de juros, a Selic, em 1 ponto percentual, passando de 12,25% para 13,25% ao ano. A decisão, embora esperada e previamente sinalizada na ata da última reunião de dezembro, reacende críticas sobre a eficácia e os possíveis efeitos nocivos de um ciclo prolongado de aperto monetário, especialmente em um cenário onde a inflação não parece justificar medidas tão severas.
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O aumento, aprovado por unanimidade pelos nove membros do Copom sob a liderança de Gabriel Galípolo, reflete, segundo o comunicado oficial, o “firme compromisso com a convergência da inflação à meta”. Contudo, a inflação registrada ao final de 2024 foi de 4,83% — apenas 0,33 ponto percentual acima da meta de 4,50%. Especialistas questionam: seria necessária tamanha rigidez diante de uma inflação controlada?
O economista e ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando de Paula, vê com preocupação a decisão. “Estamos falando de uma política que encarece o crédito e desaquece o consumo, mas a inflação atual não decorre de excesso de demanda. É resultado de choques de oferta, como os preços internacionais de alimentos e combustíveis, que já estão cedendo. O Banco Central está mirando no alvo errado”, afirma.
Haddad: “Remédio em excesso é contraproducente”
As críticas não partem apenas de especialistas do mercado financeiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também expôs seu descontentamento ao afirmar que a alta na Selic irá desacelerar o crescimento econômico de 3,5% para cerca de 2,5% em 2025. Em entrevista à Rede TV!, Haddad foi categórico: “Se você já está com uma taxa muito restritiva, às vezes o remédio em excesso é contraproducente. Todo remédio tem a dose certa”.
A crítica do ministro ecoa uma preocupação compartilhada por diversos setores produtivos, especialmente a indústria, que sofre com os custos elevados de financiamento. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a elevação da Selic compromete investimentos e pode agravar o desemprego, já que o setor produtivo tende a cortar gastos diante do crédito caro e da queda na demanda.
Além disso, há o risco de um efeito perverso: ao desacelerar o crescimento econômico, o governo pode ver suas receitas fiscais diminuírem, complicando ainda mais o cenário de ajuste nas contas públicas — o que, ironicamente, também é um dos pilares da política monetária.
Paradoxo dos juros altos: inflação já está em desaceleração
Uma das questões centrais é o descompasso entre a política adotada e os dados recentes. A inflação de 2024 fechou abaixo de 5%, em patamar significativamente inferior aos dois dígitos observados em 2016, quando a Selic estava no mesmo nível previsto para março deste ano: 14,25%. Segundo dados do IBGE, itens como alimentos e combustíveis, responsáveis pelos picos inflacionários anteriores, apresentaram desaceleração, favorecidos pela valorização do real e pela safra recorde esperada para este ano.
“O cenário mudou, mas a política monetária permanece ancorada no passado”, avalia Maria Lúcia Coelho, professora de economia da Universidade de São Paulo (USP). Ela destaca que, com a desaceleração do preço dos alimentos e a estabilização do dólar, o ritmo de aperto monetário deveria ser revisto. “A insistência em altas sucessivas de juros tende a ampliar a distância entre o planejamento econômico do governo e a realidade do setor produtivo”, alerta.
A questão social: quem paga a conta dos juros altos
Outro aspecto amplamente debatido é o impacto da Selic elevada no cotidiano da população, especialmente a parcela de baixa renda. Com o encarecimento do crédito, a inadimplência tende a aumentar, restringindo ainda mais o consumo. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), famílias endividadas já sentem o peso das altas taxas de financiamento em itens básicos, como alimentos e contas domésticas.
O presidente Lula também demonstrou preocupação com o tema, convocando uma força-tarefa para reduzir os preços dos alimentos, medida que visa amenizar o impacto da inflação nos setores mais pobres da sociedade. Mas, como apontam analistas, políticas de alívio pontuais podem ser insuficientes diante de uma Selic que limita a capacidade de consumo e investimento de forma sistêmica.
Ajuste fiscal e crescimento desacelerado
O governo enfrenta, simultaneamente, o desafio de equilibrar as contas públicas e fomentar o crescimento. Com um déficit primário de 0,09% do PIB registrado em 2024 — dentro da meta estabelecida —, o discurso oficial de Haddad tenta mostrar que há disciplina fiscal. Ainda assim, as críticas de parte do mercado financeiro sugerem desconfiança quanto à sustentabilidade dessa política.
Enquanto isso, Haddad defendeu maior “honestidade intelectual” ao analisar o cenário econômico atual, apontando para os déficits fiscais elevados dos governos anteriores. Segundo ele, o governo Lula está cumprindo seu papel ao conter os gastos e adequá-los ao novo arcabouço fiscal. No entanto, há consenso entre analistas de que uma política monetária menos agressiva poderia contribuir mais para o equilíbrio macroeconômico do que o aumento da Selic.
O aumento da Selic para 13,25% — e a possibilidade de novo aumento para 14,25% — evidencia a falta de sintonia entre o Banco Central e o restante da política econômica do governo. Enquanto a equipe de Haddad busca estimular o crescimento com ajuste fiscal e medidas para conter os preços dos alimentos, a Selic atua na direção contrária, sufocando o consumo e os investimentos.
O cenário de 2025, como reconheceu o próprio ministro, será desafiador. A questão é se o Banco Central estará disposto a flexibilizar sua abordagem diante da evidência de que, às vezes, o remédio pode mesmo ser pior do que a doença.
Esse descompasso entre a política monetária do Banco Central e os resultados econômicos reais não é um caso isolado. Nos últimos quatro anos, o mercado financeiro brasileiro errou em 95% de suas previsões econômicas, segundo levantamento do UOL. Esses erros sistemáticos levantam uma questão crucial: até que ponto o mercado e suas projeções devem continuar ditando o rumo de decisões estratégicas, como o aumento da taxa de juros, quando a realidade insiste em desmentir suas previsões?
Arautos do pessimismo
Esses erros sistemáticos promovidos pelo “mercado” vão além de uma simples falha técnica: eles expõem uma desconexão crônica entre a realidade econômica e os modelos analíticos usados pelos grandes players financeiros. As projeções de variáveis cruciais — Selic, câmbio, PIB e inflação — não só não se concretizaram, mas, em muitos casos, estiveram diametralmente opostas ao que a economia real apresentou.
De 2021 a 2024, o mercado financeiro foi marcado por erros grosseiros em suas previsões. Em 2024, por exemplo, esperava-se que a taxa Selic encerrasse o ano em 9%, mas ela fechou em 12,25%, uma diferença brutal com impactos significativos na economia real. O câmbio também foi um desastre de previsão: o dólar, estimado para R$ 5,00, disparou para R$ 6,18, uma alta de 27,3%. O Ibovespa, que deveria alcançar 140 mil pontos, terminou em queda, encerrando o ano em 120.283 pontos.
O padrão se repetiu em 2021, quando a inflação oficial (IPCA) explodiu para 10,06%, enquanto o mercado projetava tímidos 3,34%. E mesmo quando a realidade contrariava os relatórios, o discurso dominante do mercado continuava a ser amplamente legitimado pela mídia e pelos tomadores de decisão.
A explicação mais comum entre analistas é que a economia brasileira é volátil, sujeita a choques externos e à instabilidade política. Embora esse argumento tenha mérito, não explica a falha sistemática em prever a direção dos principais indicadores econômicos.
Uma hipótese cada vez mais debatida é a de que essas previsões não são apenas técnicas, mas também estratégicas. Bancos, consultorias e fundos de investimento, que dominam a produção dessas estimativas, possuem interesses específicos na forma como a economia se desenvolve. Uma projeção de inflação mais baixa, por exemplo, pode pressionar o Banco Central a reduzir os juros antes do tempo adequado, beneficiando investidores em busca de crédito barato.
O sociólogo Pierre Bourdieu já alertava para o poder simbólico do mercado financeiro: suas projeções não apenas descrevem cenários, mas ajudam a moldar decisões econômicas e políticas. Quando essas previsões estão erradas — ou deliberadamente enviesadas —, o custo não recai sobre os analistas que as elaboram, mas sobre trabalhadores, empresários e setores produtivos que dependem dessas informações para planejar investimentos.
A quem interessa os erros do mercado?
Quando o mercado financeiro falha, os prejuízos não são distribuídos de maneira equitativa. Pequenos empresários e investidores individuais sofrem diretamente as consequências. Em 2023, por exemplo, muitas empresas adiaram projetos devido às previsões de crescimento econômico fraco, estimado em 0,78%. No entanto, o PIB surpreendeu e cresceu 2,9%, revelando que a economia real seguiu um caminho muito diferente do previsto. Enquanto pequenos empresários enfrentavam dificuldades, grandes fundos de investimento, com acesso a informações privilegiadas, conseguiram se proteger e até lucrar com a volatilidade.
Os erros também impactam diretamente a condução da política monetária. Quando o Banco Central baseia suas decisões em projeções inflacionárias erradas, ele pode elevar ou reduzir os juros em momentos inoportunos. Em 2024, por exemplo, a Selic subiu para 12,25%, muito acima do esperado, afetando setores como a construção civil e o consumo, enquanto a inflação foi mais controlada do que o previsto inicialmente.
Um mercado financeiro que não é neutro
Há uma falácia perigosa na forma como o mercado financeiro se apresenta: como um observador neutro e racional, cujas projeções seriam frutos de análises objetivas. No entanto, economistas críticos argumentam que o mercado age como um agente político. Max Weber, sociólogo alemão, já afirmava que o poder econômico não é neutro. Ele está inserido em instituições sociais e políticas e utiliza a autoridade científica como manto para encobrir interesses particulares.
No Brasil, isso se manifesta claramente nas pressões exercidas sobre governos. Durante os mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), o mercado previa colapsos econômicos devido ao aumento do gasto público e à valorização do salário mínimo. No entanto, o período foi marcado por crescimento econômico e redução da pobreza. A partir de 2015, com a crise econômica e política, as previsões catastróficas voltaram a dominar o discurso público, justificando políticas de austeridade, cortes de gastos e aumento dos juros.
Hoje não é diferente. Apesar dos bons índices econômicos como a geração de empregos recorde, o aumento da arrecadação e a economia aquecida o mercado atua como um arauto do apocalipse.
O custo social das previsões equivocadas
As consequências dessas previsões erradas não se limitam ao ambiente financeiro. Elas afetam diretamente o cotidiano da população. A Emenda Constitucional 95, que congelou os gastos públicos por 20 anos, foi uma resposta direta às pressões por “responsabilidade fiscal” promovidas pelo mercado. O resultado foi uma deterioração dos serviços públicos, aumento da desigualdade e precarização do trabalho.
Além disso, a perpetuação de altas taxas de juros, baseadas em projeções inflacionárias imprecisas, desestimula o investimento produtivo, restringe o crédito e aumenta a dívida pública. Quem se beneficia disso? Investidores que aplicam em títulos da dívida pública, enquanto o setor produtivo enfrenta dificuldades.
A hegemonia das previsões de mercado também é uma ameaça à democracia. Jürgen Habermas, filósofo alemão, alertou para o perigo da colonização do espaço público por interesses privados. Quando decisões econômicas cruciais, como a definição da taxa de juros e do orçamento público, são subordinadas aos desejos do mercado financeiro, a soberania popular é esvaziada.
No Brasil, isso ficou evidente durante o governo Dilma Rousseff, quando a pressão dos mercados contribuiu para a adoção de medidas impopulares. Mais recentemente, o governo Lula enfrentou reações negativas às propostas de aumento do salário mínimo e ampliação dos investimentos públicos, apresentadas como “riscos” à estabilidade financeira.
O que o Brasil precisa fazer para romper com essa dinâmica
Se há algo que os últimos quatro anos demonstram, é que confiar cegamente no mercado financeiro não é uma opção viável. O Brasil precisa adotar uma abordagem mais soberana e democrática na condução da política econômica:
Fortalecer o mercado interno: Investir em infraestrutura, educação e inovação para reduzir a dependência de capitais especulativos.
Transparência nas previsões: Exigir clareza nas metodologias usadas nas projeções econômicas e responsabilização em caso de erros recorrentes.
Política monetária orientada ao bem-estar social: As decisões do Banco Central devem estar alinhadas a objetivos como o pleno emprego e a redução da desigualdade, e não apenas à estabilidade inflacionária.
Menos mercado, mais economia real
O mercado financeiro construiu ao longo das últimas décadas a imagem de que sabe o que é melhor para o país. No entanto, o histórico de erros e os custos sociais gerados por suas projeções equivocadas mostram que essa visão é insustentável. Para prosperar, o Brasil precisa priorizar políticas econômicas que sirvam à maioria da população, não aos interesses de uma elite financeira. Afinal, como já demonstrou a história, o verdadeiro desenvolvimento vem da democracia econômica — e não de previsões falhas disfarçadas de ciência.
ERROS E ACERTOS NAS PREVISÕES ANTERIORES DO MERCADO FINANCEIRO
2024
2023
2022
2021
Gente que pensa o tema
Há um grupo relevante de pensadores, economistas e sociólogos, tanto no Brasil quanto no exterior, que se dedicam a criticar a influência excessiva do mercado financeiro nas políticas econômicas e no funcionamento das sociedades modernas. Entre os conceitos centrais desta crítica estão:
Financeirização: Transformação da economia global, em que os lucros do setor financeiro superam os lucros da produção real.
Acumulação por despossessão: Explicada por David Harvey, refere-se à forma como os mercados financeiros expropriam recursos públicos.
Críticas ao neoliberalismo: A maioria desses autores aponta os efeitos adversos das políticas neoliberais, como aumento da desigualdade e desestabilização econômica.
O papel do Estado: A necessidade de um Estado ativo, capaz de contrabalançar as falhas de mercado e promover o desenvolvimento social.
O ponto em comum entre esses pensadores é a visão de que o mercado financeiro, quando desregulado e colocado no centro das políticas econômicas, gera desigualdade, instabilidade e crises. No Brasil, essa influência é particularmente prejudicial, dado o histórico de instabilidade econômica e dependência externa. Portanto, as críticas sugerem não apenas reformas econômicas, mas uma reorientação política, onde o Estado recupere seu papel como agente de desenvolvimento e bem-estar social.
Veja a seguir alguns dos principais nomes críticos à ingerência do “mercado” na economia.
Luiz Gonzaga Belluzzo
Economista e professor, Belluzzo é uma das vozes mais críticas ao neoliberalismo no Brasil. Ele argumenta que a dependência do país dos mercados financeiros desvia recursos do investimento produtivo para a especulação. Belluzzo também destaca a importância de políticas públicas focadas na redução das desigualdades e no fortalecimento do mercado interno.
“A financeirização não é só um fenômeno econômico, mas uma mudança na forma como a sociedade organiza a criação e distribuição de riqueza. A especulação toma o lugar do investimento produtivo e o mercado financeiro, em vez de ser um meio, torna-se um fim em si mesmo.” (Entrevista à CartaCapital, 2020)
“O mercado financeiro não erra por ignorância, mas por estratégia. O erro serve a um propósito: pressionar políticas de ajuste fiscal e desmonte do Estado, que beneficiam os grandes investidores.” (Seminário de Política Econômica da UNICAMP, 2018)
Maria da Conceição Tavares
Economista, professora emérita da UFRJ, e uma das maiores referências em economia heterodoxa no Brasil. Tavares critica a financeirização da economia e o impacto das políticas de austeridade. Ela defende uma maior presença do Estado na condução do desenvolvimento e condena o papel hegemônico do mercado financeiro.
“A lógica do mercado financeiro é incompatível com o desenvolvimento de longo prazo. Ele exige lucros imediatos, enquanto o crescimento sustentável requer paciência e planejamento.” (Revista Economia e Sociedade, 2012)
“O mercado financeiro não quer estabilidade para o país; ele quer volatilidade controlada, pois é na instabilidade que se encontram as oportunidades de ganhos extraordinários.” (Palestra na UFRJ, 2014)
Marcio Pochmann
Economista, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Pochmann é conhecido por suas críticas à lógica financeira que orienta as decisões econômicas brasileiras. Ele argumenta que o mercado financeiro tem capturado a política econômica em detrimento de políticas sociais e de emprego.
“O mercado financeiro impõe uma armadilha à economia real. Ele exige juros altos para garantir a rentabilidade de seus ativos, mesmo que isso estrangule o investimento produtivo e o emprego.” (Seminário Internacional de Desenvolvimento, 2019)
“O erro nas previsões econômicas não é casual. Ele reflete uma visão ideológica que subordina o desenvolvimento social aos interesses do mercado.” (Entrevista ao Brasil de Fato, 2022)
José Luis Fiori
Cientista político e professor da UFRJ, Fiori se dedica a analisar como a globalização e o mercado financeiro internacional afetam a soberania econômica de países em desenvolvimento. Ele também destaca o papel das instituições financeiras internacionais na manutenção de uma hierarquia econômica global.
“A ideia de que o mercado financeiro age de forma neutra é um mito perigoso. Na verdade, ele é um ator político que usa suas projeções para pressionar governos e moldar políticas públicas.” (Artigo: “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações”, 2014)
Joseph Stiglitz (EUA)
Prêmio Nobel de Economia, Stiglitz é um dos principais críticos do neoliberalismo e das políticas do FMI. Ele argumenta que a desregulamentação dos mercados financeiros foi responsável por diversas crises econômicas. Stiglitz defende a intervenção estatal como uma forma de corrigir as falhas do mercado.
“Os mercados financeiros, quando deixados por conta própria, não apenas falham em alocar recursos de forma eficiente, mas também criam instabilidade econômica. É por isso que a intervenção governamental não é apenas desejável, mas necessária.” (Livro: “O Mal-Estar na Globalização”, 2002)
“O setor financeiro deveria ser um servo da economia real, mas tornou-se seu mestre. Isso cria uma situação em que o interesse privado de poucos se sobrepõe ao bem-estar de muitos.” (Palestra na Universidade de Columbia, 2015)
Thomas Piketty (França)
Economista autor de O Capital no Século XXI, Piketty argumenta que a financeirização exacerbou a concentração de riqueza nas mãos de poucos, aumentando as desigualdades sociais. Ele propõe reformas estruturais, como impostos progressivos sobre grandes fortunas.
“O crescimento da riqueza financeira não se traduz necessariamente em desenvolvimento econômico. Na maioria das vezes, ele resulta em concentração de renda e poder, ampliando as desigualdades.” (Livro: “O Capital no Século XXI”, 2013)
“Os mercados financeiros têm demonstrado uma incrível capacidade de criar crises recorrentes, mas poucas lições são aprendidas. Em grande parte, isso acontece porque os custos das crises são socializados, enquanto os lucros são privatizados.” (Artigo: “Reforma Financeira e Desigualdade”, 2017)
David Harvey (Reino Unido)
Geógrafo e teórico marxista, Harvey desenvolveu a teoria da “acumulação por despossessão”, que descreve como o mercado financeiro e a globalização neoliberal expropriam recursos públicos em benefício do capital privado. Ele também critica o papel do capital financeiro na geração de crises cíclicas.
“A acumulação por despossessão é o mecanismo pelo qual o mercado financeiro se apropria de recursos públicos e transfere riqueza para as elites. Isso explica por que políticas de austeridade são tão defendidas por esses setores.” (Livro: “O Novo Imperialismo”, 2005)
“O capital financeiro não está interessado na prosperidade generalizada. Ele prospera na desigualdade, pois é ela que mantém as oportunidades de lucro concentradas.” (Seminário Internacional de Geografia Crítica, 2012)
Ha-Joon Chang (Coreia do Sul)
Autor de Chutando a Escada, Chang critica a imposição de políticas neoliberais por instituições financeiras internacionais e países desenvolvidos. Ele defende que o desenvolvimento econômico sustentável só é possível com forte intervenção estatal e controle do mercado financeiro.
“Os países que hoje pregam a desregulamentação financeira usaram políticas protecionistas e controle estatal para se desenvolverem. Agora, impõem regras aos outros que não aplicam a si mesmos.” (Livro: “Chutando a Escada”, 2002)
“A fé cega no mercado financeiro é uma construção ideológica. Quando você olha para os dados, percebe que as economias que se desenvolveram de forma sustentável foram aquelas que limitaram o poder do setor financeiro.” (Entrevista ao The Guardian, 2014)
Yanis Varoufakis (Grécia)
Ex-ministro das Finanças da Grécia, Varoufakis é uma das vozes mais combativas contra o poder das instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Central Europeu. Ele argumenta que as políticas de austeridade impostas aos países endividados servem para beneficiar os grandes bancos, enquanto prejudicam a população.
“A crise financeira de 2008 foi um lembrete brutal de que os mercados não sabem se autorregular. No entanto, ao invés de reformar o sistema, resgatamos os bancos e deixamos a conta para a população.” (Livro: “O Minotauro Global”, 2011)
“Os mercados financeiros não gostam de democracia. Eles preferem governos fracos e submissos, que possam ser pressionados a adotar políticas favoráveis ao capital.” (Palestra na Universidade de Atenas, 2015)
Susan Strange (Reino Unido)
Politóloga e teórica das Relações Internacionais, Strange é conhecida por seu conceito de “poder estrutural” dos mercados financeiros. Ela argumenta que, com a globalização financeira, os Estados perderam parte de sua soberania para instituições financeiras globais.
“O poder estrutural do mercado financeiro é tão grande que os Estados, mesmo os mais fortes, muitas vezes se tornam reféns das decisões tomadas em Wall Street ou na City de Londres.” (Livro: “O Retiro do Estado”, 1996)
“A ideia de que o mercado é um mecanismo eficiente de alocação de recursos é uma ficção conveniente para aqueles que lucram com a especulação. Na prática, ele cria incerteza e desigualdade.” (Artigo: “A Nova Ordem Internacional”, 1994)
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