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DE CABO A RABO

Celulares de Vorcaro mostram que, no Brasil, a podridão não tem partido

Publicado em 06/03/2026 4:26 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Mais do que a derrocada de um banco, o caso Daniel Vorcaro expõe um método: a combinação de dinheiro, influência, intimidação e trânsito livre entre os círculos mais sensíveis do poder brasileiro. No centro da crise do Banco Master — que já produziu prejuízos bilionários, prisões, suspeitas de suborno, espionagem clandestina e uma guerra silenciosa por controle de danos — estão mensagens extraídas dos celulares do próprio banqueiro, um acervo explosivo que atravessa gabinetes do Congresso, salas do Judiciário, gabinetes ministeriais, campanhas eleitorais e bastidores do mercado financeiro.

O que emerge desse material não é apenas o retrato de um empresário bem relacionado, mas o desenho de uma engrenagem que teria operado na fronteira entre a promiscuidade institucional e a captura do Estado, mobilizando aliados, cultivando interlocutores influentes e acionando mecanismos de proteção quando o cerco se fechou. A reportagem a seguir reconstrói essa rede, identifica seus personagens, confronta versões e mostra como um escândalo inicialmente financeiro se transformou num teste de estresse para as instituições da República — com potencial não apenas de redefinir responsabilidades criminais, mas de abalar reputações, alianças e zonas de poder que, até aqui, pareciam blindadas.

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Na tarde de terça-feira, 3, advogados de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, dirigiram-se à sede da Polícia Federal, em Brasília, para cumprir um procedimento técnico relacionado à investigação que envolve o banqueiro. Na ocasião, receberam um disco rígido contendo dezenas de terabytes de dados extraídos dos telefones de Vorcaro — material considerado central para as apurações sobre o que investigadores descrevem como uma das maiores fraudes financeiras já investigadas no país.

O procedimento que se seguiu chamou atenção. Antes de deixar o prédio, os advogados colocaram o equipamento em um envelope, lacraram o conteúdo e registraram o ato na presença de um tabelião. O objetivo declarado era garantir a integridade dos dados e demonstrar que ninguém teve acesso ao material após a entrega.

Nos bastidores de Brasília, porém, a cena ganhou outra leitura. Há meses circula, em gabinetes relevantes da Praça dos Três Poderes, a versão de que Vorcaro manteria um vasto acervo de mensagens, documentos e imagens capazes de provocar forte impacto político caso viessem a público. Pessoas próximas ao banqueiro afirmam que ele próprio teria alimentado essa narrativa. A existência de tal material, segundo essa interpretação, serviria como instrumento de defesa — capaz de dificultar eventuais medidas judiciais mais duras e até de influenciar o processo de liquidação do banco.

O cenário, no entanto, mudou abruptamente no dia seguinte.

Na manhã de quarta-feira, 4, Vorcaro foi preso em São Paulo após a Polícia Federal identificar indícios de que ele teria subornado dois funcionários do Banco Central — Paulo Sérgio Neves, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, chefe de departamento. A investigação também aponta para o desvio clandestino de cerca de 2 bilhões de reais para uma conta vinculada ao pai do empresário.

Segundo os investigadores, o banqueiro teria montado uma estrutura destinada não apenas a manipular informações sensíveis, mas também a vigiar, intimidar e pressionar adversários. A apuração indica ainda a cooptação de agentes públicos para atuar em benefício do grupo, o pagamento de propinas para obtenção de dados sigilosos e a utilização de intermediários para retaliar desafetos.

Entre os detidos na operação estão Fabiano Zettel, cunhado e considerado braço direito de Vorcaro; Marilson Roseno, policial aposentado que realizava atividades de vigilância para o grupo; e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como responsável por obter informações reservadas e executar ações estratégicas de interesse da organização.

De acordo com a Polícia Federal, Mourão teria acessado ilegalmente bases de dados de diferentes instituições, incluindo a própria PF, o Ministério Público e organismos internacionais como FBI e Interpol. Uma das ordens atribuídas a Vorcaro nas mensagens analisadas seria a agressão a um jornalista com simulação de assalto — versão contestada pela defesa, que afirma que os diálogos foram interpretados fora de contexto.

Para os investigadores, entretanto, o conjunto das evidências aponta para uma organização estruturada. No pedido de prisão, a PF descreveu o grupo como composto por “profissionais do crime” que atuariam de forma coordenada, captando servidores públicos de alto escalão e utilizando intimidação e violência para preservar seus interesses.

A investigação ganhou contornos ainda mais dramáticos com um episódio ocorrido na Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais. Mourão foi encontrado agonizando na cela onde estava detido. Segundo a versão oficial, ele teria tentado suicídio ao se enforcar com a própria camisa. Levado ao hospital, permanecia internado até a tarde de quinta-feira, 5, com protocolo de morte cerebral aberto.

Grande parte das evidências que levaram à nova prisão de Vorcaro foi localizada justamente nos aparelhos telefônicos apreendidos. A identificação dos interlocutores das mensagens permitiu reconstruir parte da rede de contatos do banqueiro.

Mas investigadores e autoridades em Brasília acreditam que o material pode conter ainda mais informações sensíveis. Segundo uma fonte próxima ao empresário, os arquivos incluem registros de encontros, comentários sobre festas privadas e referências a parlamentares, ministros e integrantes do Judiciário — nem sempre em contextos institucionalmente adequados.

Desde o início do caso, trechos de conversas e documentos ligados ao banqueiro já provocaram turbulência política. Um episódio ocorrido em novembro alimentou parte das especulações. Durante uma busca realizada em uma residência de Vorcaro em Brasília, agentes encontraram um envelope identificado apenas com a palavra “Congresso”. Não se sabe até hoje o que havia dentro dele — se é que havia algum conteúdo —, mas logo após a apreensão o inquérito foi transferido da Justiça Federal do Distrito Federal para o Supremo Tribunal Federal.

O caso passou inicialmente à relatoria do ministro Dias Toffoli, que determinou sigilo absoluto sobre a investigação. Durante os cerca de dois meses e meio em que esteve à frente do processo, surgiram divergências entre o magistrado e a Polícia Federal sobre a condução das apurações. Posteriormente, Toffoli deixou o caso após vir à tona sua condição de sócio de uma empresa que mantivera relações comerciais com o grupo Master.

O processo foi então redistribuído ao ministro André Mendonça. A interlocutores próximos, ele indicou a intenção de conduzir a investigação com discrição e rapidez, buscando evitar interferências no ambiente político, especialmente em um período eleitoral.

Paralelamente às disputas judiciais, Vorcaro articulava uma estratégia para tentar alterar o destino do Banco Master. A proposta consistia em transformar o status da instituição de banco liquidado para banco em liquidação ordinária — mudança que permitiria a venda gradual dos ativos do conglomerado por valores de mercado. Com isso, segundo o plano, seria possível reduzir prejuízos não cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

A ideia foi apresentada a integrantes do governo e a representantes do sistema financeiro como uma solução de “ganha-ganha”: investidores que adquiriram papéis fora da cobertura do FGC seriam ressarcidos, enquanto grandes bancos — que desembolsaram mais de 50 bilhões de reais para compensar perdas decorrentes da quebra do Master — se livrariam de um concorrente considerado agressivo no mercado.

O plano, porém, enfrentou forte resistência.

Mais do que um rearranjo financeiro, interlocutores interpretaram a proposta como uma tentativa de mobilizar apoios políticos entre figuras eventualmente mencionadas nos materiais apreendidos. Entre os nomes citados nos bastidores está o do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), cujo irmão integra o conselho do fundo de previdência do Amapá, que investiu cerca de 400 milhões de reais em títulos do banco.

A apreensão em torno do caso ultrapassa divisões ideológicas. Parlamentares do Centrão, integrantes do governo federal, ministros do Judiciário e auxiliares próximos do presidente da República acompanham atentamente os desdobramentos das investigações.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, é autor de uma emenda que ampliava o limite de cobertura do FGC de 250 mil para 1 milhão de reais — mecanismo que acabou sendo utilizado como instrumento de alavancagem pelo Master. Já o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), enfrenta questionamentos devido à proximidade com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também preso. Lima firmou contratos relevantes com o governo da Bahia quando Costa era governador. O ministro também participou de uma reunião entre o presidente Lula e o banqueiro em 2024.

Diante da incerteza sobre o conteúdo completo dos arquivos apreendidos, magistrados e políticos têm procurado interlocutores para contextualizar encontros ou conversas anteriores com o empresário.

A estratégia defensiva de Vorcaro parecia, em grande medida, apoiada nos segredos armazenados em seus celulares. Contudo, poucas horas após os advogados retirarem o disco rígido da Polícia Federal na terça-feira, ocorreu um novo episódio incomum: os defensores foram intimados a devolver o material, o que foi prontamente cumprido.

A decisão reduz a possibilidade de que eventuais mensagens, vídeos ou imagens envolvendo autoridades circulem fora do controle judicial.

O ministro André Mendonça já sinalizou que, caso seja necessário compartilhar partes do conteúdo, isso ocorrerá apenas após a retirada de informações sem relação direta com o inquérito. Registros de festas privadas ou encontros sociais — ainda que potencialmente constrangedores para autoridades — não fazem parte, em princípio, do objeto central da investigação.

Se algum dia vierem à tona, tais episódios podem não alterar o rumo do processo judicial. Mas, no ambiente político, têm potencial para produzir outro tipo de impacto: o desgaste irreversível de reputações e carreiras.

Mensagens de Vorcaro ampliam alcance político do escândalo

O material extraído dos celulares de Vorcaro começa a produzir novos efeitos políticos e institucionais. Parte dessas mensagens, reunidas pela Polícia Federal durante a investigação que levou à prisão do empresário, foi encaminhada à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, ampliando o alcance das apurações sobre o Banco Master.

A remessa dos documentos foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pelo inquérito. A comissão investiga a atuação do banco no mercado de crédito consignado destinado a aposentados e pensionistas — um dos eixos centrais das suspeitas analisadas pelos parlamentares.

As conversas encontradas nos aparelhos de Vorcaro ajudam a mapear a rede de interlocução política e institucional construída pelo banqueiro. Em diálogos privados — alguns deles com sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff — ele menciona encontros e relações com figuras relevantes do cenário político e jurídico.

Entre os nomes citados ou presentes na lista de contatos do empresário aparecem o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro do STF Alexandre de Moraes, além dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Também surgem referências ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, ao deputado Aécio Neves (PSDB-MG) e ao ex-governador paulista João Doria.

A presença dessas autoridades nas conversas não implica, por si só, irregularidade. Ainda assim, o conjunto de mensagens reforça a dimensão política das relações cultivadas por Vorcaro e ajuda a explicar por que o caso passou a mobilizar diferentes setores da República.

Paralelamente às interações com figuras públicas, a investigação da Polícia Federal identificou indícios de que o banqueiro mantinha uma estrutura organizada de apoio. Segundo os investigadores, o grupo atuava de forma coordenada e com divisão de tarefas — característica que levou a PF a enquadrar o núcleo investigado como uma possível organização criminosa.

Entre os nomes citados nas apurações estão Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, Luiz Phillipi Mourão, apontado como responsável por monitorar adversários do banqueiro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva, que também integraria o círculo operacional do grupo.

As mensagens analisadas pelos investigadores também levantaram suspeitas sobre a atuação de dois ex-dirigentes do Banco Central: Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. A PF avalia se ambos prestavam algum tipo de consultoria informal ao empresário.

A defesa de Vorcaro reagiu às medidas judiciais. Em nota divulgada na quinta-feira, os advogados afirmaram que a prisão preventiva foi decretada sem que a defesa tivesse acesso prévio aos elementos que embasaram a decisão. Os representantes do banqueiro também pediram ao Supremo informações mais detalhadas sobre as mensagens mencionadas na investigação, incluindo as datas dos diálogos citados.

Um escândalo de dimensão institucional

Para especialistas, o caso do Banco Master revela um padrão de relações entre setor financeiro, poder político e instituições públicas que merece escrutínio aprofundado.

O professor Beto Vasques, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, avalia que o esquema atribuído a Vorcaro pode representar um dos episódios mais abrangentes de tráfico de influência já investigados no país.

Segundo ele, as suspeitas indicam uma rede que atravessou diferentes estruturas do Estado.

“Eu acho que estamos diante do maior esquema de tráfico de influência e corrupção institucional da história do Brasil. O rombo estimado já se aproxima de R$ 60 bilhões, o que mostra a dimensão do escândalo”, afirmou.

Para o pesquisador, a atuação do grupo investigado teria se estendido por diversos ambientes de poder — da política ao sistema financeiro, passando por setores do Judiciário e até por áreas da comunicação.

“É algo assustador. Um empresário que tinha trânsito nos três Poderes — e até em parte do jornalismo. Prefeitos, governadores e ministros aparecem nesse ecossistema de relações. O esquema foi penetrando em diferentes níveis da República”, disse Vasques.

Ele ressalta, no entanto, que o desfecho institucional do caso ainda está em aberto. Para o professor, a resposta do Estado dependerá da capacidade de as instituições conduzirem a apuração com independência e transparência.

“Essa resposta ainda está em disputa. Há instituições que querem esclarecer os fatos, mas também existem pressões para limitar o avanço das investigações. O que o país precisa agora é justamente de apuração rigorosa, controle e transparência.”

Com novas mensagens sendo analisadas e diferentes frentes investigativas em andamento — no Supremo, na Polícia Federal e no Congresso —, o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro segue em expansão, testando a capacidade das instituições brasileiras de lidar com um caso que, ao que tudo indica, ainda está longe de revelar todas as suas implicações.

Moraes citado

O material extraído dos aparelhos celulares contém referências ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Em diferentes trechos das conversas, o banqueiro menciona encontros informais com o magistrado e reuniões nas quais parlamentares estariam presentes.

Uma das mensagens, datada de 19 de abril de 2025, registra Vorcaro informando à então namorada, Martha Graeff, que iria se encontrar com Moraes durante um feriado.

Vorcaro: “Tô indo encontrar Alexandre Moraes aqui perto de casa.”
Martha Graeff: “Como assim amor?”
Martha Graeff: “Ele está em Campos????”
Martha Graeff: “Ou foi pra te ver?”
Vorcaro: “Ele tá passando feriado.”

Outro trecho, de 20 de março de 2025, menciona uma reunião em que outras figuras políticas também teriam participado.

Vorcaro: “Estou sim, acabou chegando Hugo e Ciro aqui pra falarem com Alexandre. Não deve demorar.”

As mensagens não trazem detalhes sobre o conteúdo dessas conversas ou sobre o contexto dos encontros mencionados.

Mensagens enviadas antes da prisão

Além das referências a reuniões, uma reportagem publicada pelo blog da jornalista Malu Gaspar, no jornal O Globo, revelou mensagens que teriam sido enviadas diretamente por Vorcaro ao ministro do STF no dia 17 de novembro de 2025, poucas horas antes da primeira prisão do empresário.

De acordo com a publicação, às 7h19 da manhã, Vorcaro teria encaminhado uma mensagem via WhatsApp. O texto não aparece diretamente no aplicativo, pois foi enviado por meio de um link que redirecionava para o bloco de notas do celular do empresário.

No conteúdo registrado, o banqueiro relata negociações com investidores e demonstra preocupação com o vazamento de informações relacionadas ao caso envolvendo o Banco Master.

“Bom dia. Tudo bem? Estou tentando antecipar os investidores aqui e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte…”, escreveu.

No mesmo texto, Vorcaro menciona rumores de que o tema estaria começando a circular publicamente e cita questionamentos feitos por uma jornalista sobre o caso.

“…acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada… a turma do BRB me disse que está tendo um movimento de sacanagem do caso… se vazar algo será péssimo.”

Cerca de uma hora depois, às 8h16, Moraes teria respondido. Segundo a reportagem, porém, o conteúdo da mensagem não pôde ser recuperado porque foi enviado no modo de visualização única, recurso do aplicativo que apaga automaticamente o texto após ser aberto.

No período da tarde, às 17h22, Vorcaro enviou nova mensagem, novamente por meio de um link para o bloco de notas.

“Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação.”

Quatro minutos depois, voltou a escrever ao ministro:

“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

Ainda segundo a reportagem, Moraes respondeu novamente com mensagens de visualização única, cujo conteúdo também não pôde ser recuperado.

Mais tarde, às 19h58, o banqueiro voltou a perguntar se havia novidades. Às 20h48, enviou outro texto relatando a continuidade das negociações com investidores estrangeiros.

“Acho que pode inibir. Amanhã começam as batidas do Esteves. Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online.”

Menos de uma hora após essa troca de mensagens, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Banco Master — movimento que, segundo a reportagem, coincide com o que Vorcaro relatava nas conversas.

O desfecho da operação, no entanto, foi rápido. Na manhã seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição financeira. Meses depois, no início de fevereiro, a própria Fictor entrou com pedido de recuperação judicial.

Prisão em Guarulhos

Ainda na noite de 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Segundo os investigadores, havia suspeita de que o empresário tentava deixar o país em um avião particular com destino a Malta, na Europa.

Até o momento, o Supremo Tribunal Federal e o gabinete do ministro Alexandre de Moraes não se manifestaram publicamente sobre as mensagens que mencionam encontros ou comunicações entre o magistrado e o banqueiro investigado.

Tensão interna no STF

A revelação de supostas mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro provocou uma nova onda de inquietação dentro da corte. O episódio, segundo avaliações feitas reservadamente por magistrados e assessores ouvidos pela Folha de S.Paulo, interrompeu o clima de relativa distensão que começava a se consolidar após a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso envolvendo o Banco Master.

Nos bastidores do tribunal, a leitura predominante é de que o impacto político do episódio pode ser mais profundo do que a crise anterior. A diferença, na avaliação de integrantes do STF, reside no papel institucional ocupado por Moraes. Atual vice-presidente da corte e figura central nas decisões relacionadas à defesa da ordem democrática nos últimos anos, o ministro é visto por colegas como um dos pilares da atuação recente do tribunal.

Essa posição torna qualquer questionamento envolvendo seu nome particularmente sensível para a imagem da instituição.

De acordo com relatos de interlocutores do tribunal, o presidente do STF, Edson Fachin, já demonstrou desconforto diante das referências ao ministro nas mensagens encontradas no celular do banqueiro. O magistrado vinha sinalizando otimismo quanto à recomposição da credibilidade da corte após o afastamento de Toffoli do processo relacionado ao Banco Master — episódio que havia provocado forte desgaste interno.

Fachin chegou a mencionar, em conversas reservadas, a percepção de que o tribunal voltava a demonstrar unidade institucional, especialmente em debates recentes sobre temas administrativos, como os chamados penduricalhos salariais do Judiciário.

A nova controvérsia, porém, recoloca a presidência do STF em uma posição delicada.

Segundo auxiliares do tribunal, Fachin enfrenta agora um dilema institucional: uma eventual manifestação pública de apoio a Moraes poderia ser interpretada como gesto corporativista, destoando do discurso de reforço à ética e à transparência que o ministro tem buscado imprimir à sua gestão.

Por outro lado, o silêncio institucional também pode ser lido como fragilidade diante da crise.

Diante desse cenário, o presidente do Supremo deve iniciar uma rodada de consultas internas entre os ministros para avaliar possíveis respostas institucionais ao episódio.

Parte da corte reconhece, em conversas reservadas, que a tarefa de restaurar plenamente a confiança da sociedade no Judiciário — um tema frequentemente mencionado por Fachin em discursos públicos — tornou-se cada vez mais complexa. Nesse contexto, interlocutores do tribunal destacam a necessidade de articulação política cuidadosa com o Senado Federal, órgão responsável por eventuais processos de impeachment contra ministros do Supremo.

O receio é de que o episódio seja explorado politicamente por setores da oposição, especialmente por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre ministros do STF, há expectativa de que as mensagens atribuídas à troca entre Moraes e Vorcaro passem a ser utilizadas como argumento para questionar a atuação do magistrado em outros processos de alta sensibilidade política.

Entre esses casos estão investigações relacionadas à tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022 e procedimentos conduzidos durante o período em que Moraes presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Outro fator que ampliou o desconforto interno no tribunal envolve a atuação profissional da advogada Viviane Barci, esposa de Moraes. O escritório dela teria firmado com o Banco Master um contrato mensal de R$ 3,6 milhões para prestar serviços jurídicos à instituição financeira.

O próprio ministro já declarou publicamente que magistrados estão impedidos de julgar processos em que parentes atuem como advogados, regra prevista na legislação e nos códigos de ética da magistratura.

Segundo reportagem do jornal O Globo, registros encontrados no celular de Vorcaro indicariam a existência de nove mensagens trocadas entre o empresário e Moraes no dia 17 de novembro, data em que o banqueiro acabou preso. As comunicações teriam ocorrido entre 7h19 e 20h48, período em que Vorcaro relatava negociações para tentar evitar o colapso do Banco Master.

De acordo com a publicação, as respostas atribuídas ao ministro teriam sido enviadas por meio do recurso de visualização única do aplicativo de mensagens — mecanismo que impede a recuperação posterior do conteúdo.

Procurado, Moraes negou ter recebido as mensagens mencionadas na reportagem. Em nota, o ministro classificou a informação como uma tentativa de desinformação voltada a atingir o Supremo Tribunal Federal.

“Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”, afirmou.

A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, solicitou ao STF a abertura de investigação sobre os vazamentos de informações relacionadas ao caso. Os advogados também argumentam que trechos das conversas atribuídas ao empresário podem ter sido editados ou retirados de contexto.

Enquanto a veracidade e o alcance das mensagens seguem sob análise, o episódio já produziu um efeito imediato dentro da corte: reacendeu um debate sensível sobre transparência, responsabilidade institucional e os limites da exposição pública de ministros do Supremo em um momento de forte polarização política no país.

Ciro Nogueira em meio à crise

Entre os diálogos recuperados nos celulares de Daniel Vorcaro e analisados pela Polícia Federal, um conjunto de mensagens chama atenção pela referência direta a figuras influentes do Congresso. Em conversas privadas com sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff, o banqueiro descreve uma relação próxima com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos principais articuladores políticos do chamado Centrão.

Em um diálogo de maio de 2024, Vorcaro manifesta a intenção de apresentar Graeff ao parlamentar, a quem descreve em termos pessoais enfáticos.

“Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, escreveu o banqueiro ao mencionar o senador.

Ex-ministro da Casa Civil durante o governo Jair Bolsonaro, Nogueira consolidou-se como uma das figuras centrais do bloco político que tradicionalmente negocia apoio parlamentar em troca de espaço na estrutura do Estado. A presença de seu nome nas mensagens apreendidas adiciona um novo elemento ao mosaico de relações políticas reveladas pela investigação.

Três meses depois da conversa inicial, o senador volta a aparecer nos diálogos do empresário — desta vez em referência a uma iniciativa legislativa que, segundo Vorcaro, teria provocado forte reação no sistema financeiro.

“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro”, escreveu o banqueiro à namorada.

Na sequência, ele acrescenta que a proposta favoreceria instituições financeiras de médio porte e reduziria a influência dos grandes bancos.

“Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes. Está todo mundo louco.”

Graeff reage com entusiasmo à notícia, ao que Vorcaro responde com ironia:

“Kkk todo mundo me ligando. Sentiram o golpe.”

O comentário coincide com um episódio legislativo ocorrido naquele período. Durante o debate de uma proposta de emenda à Constituição relacionada à autonomia do Banco Central, Nogueira apresentou uma emenda que ampliaria o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor. A proposta acabou não avançando no Congresso.

O tema ganhou relevância meses depois, quando a liquidação do Banco Master, em novembro, e do Will Bank — instituição anteriormente ligada ao grupo — provocou perdas estimadas em cerca de R$ 47 bilhões ao FGC. O fundo, mantido pelo próprio sistema bancário, funciona como uma espécie de seguro destinado a ressarcir investidores em caso de quebra de instituições financeiras, dentro dos limites previstos.

As mensagens também indicam interações de caráter social. Em determinado momento, Vorcaro comenta com a namorada a intenção de comparecer ao casamento da filha do senador, Duda Nogueira, acompanhado dela.

Além dos trechos divulgados até agora, a Polícia Federal teria localizado outras conversas envolvendo o parlamentar. Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, mensagens enviadas pelo próprio senador a Vorcaro também fazem parte do material apreendido, embora ainda não tenham sido tornadas públicas.

Os investigadores também identificaram registros em que o banqueiro ordena pagamentos a uma pessoa identificada apenas como “Ciro”, sem menção ao sobrenome — elemento que ainda não teve esclarecimento definitivo nas apurações.

Procurado, o senador afirmou manter comunicação com um grande número de interlocutores por meio de aplicativos de mensagens, o que, segundo ele, não implica proximidade pessoal.

Em nota, Ciro Nogueira declarou que “mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas”, acrescentando que eventuais interações não caracterizam relação de proximidade. O parlamentar também afirmou que “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”.

Encontro com Lula no Planalto e presença de ministros

Entre os diálogos, também aparecem referências a um encontro do banqueiro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024. A reunião já havia sido revelada pela imprensa no início deste ano, mas as mensagens agora recuperadas oferecem um registro direto da percepção do próprio empresário sobre a conversa.

Em troca de mensagens com sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff, Vorcaro descreve o encontro de forma entusiasmada. Questionado sobre como havia sido a reunião, respondeu com frases curtas e enfáticas.

“Foi ótimo” e “Muito forte”, escreveu o banqueiro.

Na mesma conversa, ele afirma que o presidente teria convocado outras autoridades para participar da reunião.

“Ele chamou presidente do Banco Central que vai entrar” e “3 ministros”, acrescentou.

O encontro mencionado nas mensagens corresponde a uma reunião realizada no Planalto em dezembro de 2024, que não constava inicialmente da agenda oficial do presidente. A existência da reunião foi revelada posteriormente por veículos como Folha de S.Paulo e CNN Brasil.

De acordo com esses relatos, Vorcaro chegou ao Palácio do Planalto acompanhado de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda durante o governo Dilma Rousseff. Na ocasião, também estava presente Gabriel Galípolo, então indicado à presidência do Banco Central.

Segundo fontes ouvidas pelos veículos, o banqueiro teria apresentado ao presidente críticas à elevada concentração do mercado bancário no Brasil. Lula, de acordo com essas versões, respondeu que o tema deveria ser avaliado pelo Banco Central e solicitou que Galípolo examinasse a questão sob critérios técnicos.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República confirmou a ocorrência do encontro e apresentou uma versão institucional para a reunião. Segundo a Secom, o episódio ocorreu após uma audiência entre Mantega — acompanhado de Vorcaro — e o chefe de gabinete do presidente.

Ao final desse compromisso, ainda segundo o governo, o grupo pediu autorização para cumprimentar Lula. O presidente então os recebeu brevemente, na presença de alguns ministros.

Participaram do encontro os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Rui Costa (Casa Civil), além de Gabriel Galípolo. Durante a conversa, Vorcaro teria reiterado suas críticas à estrutura do setor bancário, argumentando que haveria excessiva concentração no mercado.

Conforme a versão oficial divulgada pela Presidência, Lula respondeu que eventuais questões relativas à competição no sistema financeiro deveriam ser tratadas pelas instâncias técnicas competentes, especialmente pelo Banco Central.

Presidentes da Câmara e do Senado

Entre os diálogos analisados aparecem referências a encontros com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado em momentos distintos de 2025.

Em uma conversa datada de 26 de fevereiro de 2025, Vorcaro relata à então namorada, Martha Graeff, que estava na capital federal participando de um jantar na residência oficial da Câmara dos Deputados. A mensagem foi enviada poucos dias após a eleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Casa.

No diálogo, o banqueiro descreve o compromisso de forma direta.

“Tô aqui em Brasília trabalhando amor”, escreveu.
“Tô num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários.”

O conteúdo da conversa não detalha a pauta da reunião nem o contexto em que o encontro teria ocorrido. As mensagens, porém, indicam que o banqueiro mantinha interlocução com o parlamentar em meio ao período de reorganização do comando da Câmara.

O nome de Motta aparece novamente em outro trecho das conversas, desta vez em março de 2025. Nesse registro, Vorcaro afirma ter participado de uma reunião com “Hugo e Ciro” para tratar de um encontro com “Alexandre” — menção que, segundo a interpretação dos investigadores, poderia referir-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. As mensagens não trazem detalhes adicionais sobre o conteúdo da conversa.

Outro episódio registrado nas conversas envolve o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Em agosto de 2025, Vorcaro afirma ter participado de um encontro na residência oficial da presidência da Casa.

No diálogo com Graeff, o banqueiro relata que o evento se estendeu até perto da meia-noite e sugere que novas reuniões estavam previstas.

A troca de mensagens indica ainda que sua presença teria ocorrido sem aviso prévio ao anfitrião.

Martha Graeff: “Você fez aquilo?”
Vorcaro: “O quê?”
Martha Graeff: “De aparecer sem ele saber.”
Vorcaro: “Sim kkk.”
Vorcaro: “Foi na residência oficial do Senado.”

As mensagens não esclarecem quem participava da reunião nem o motivo da visita à residência oficial.

Bolsonaro, o beócio

Entre os registros encontrados nos celulares também aparecem referências a um episódio envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em uma troca de mensagens com sua então namorada, Martha Graeff, o banqueiro manifesta irritação com uma publicação feita pelo ex-mandatário nas redes sociais em julho de 2024.

No diálogo datado de 13 de julho daquele ano, Vorcaro comenta o impacto que a postagem teria provocado.

“O pior de ontem foi o Bolsonaro postado. Recebi mais de mil msgs Instagram”, escreveu.

A manifestação mencionada pelo banqueiro estava relacionada a uma reportagem publicada pelo jornal O Globo. O texto tratava da suposta demissão de gerentes da Caixa Econômica Federal que teriam barrado uma operação envolvendo a compra de títulos ligados ao Banco Master.

Segundo as mensagens, a repercussão da postagem gerou preocupação no empresário, que descreveu o episódio de forma crítica em conversa privada.

“Idiota”, escreveu Vorcaro em referência ao ex-presidente.
“Depois todos os amigos, o próprio Ciro ligou. Mas não tinha como tirar.”

Na sequência, ele atribui a publicação a uma interpretação política equivocada por parte do ex-presidente.

“Cara é um beócio. Alguém falou que era coisa PT e ele postou.”

O termo utilizado por Vorcaro — “beócio” — é empregado na língua portuguesa para designar alguém considerado simplório, ignorante ou pouco instruído.

As mensagens não indicam qualquer interação direta entre o banqueiro e Bolsonaro sobre o episódio. Tampouco revelam se houve desdobramentos posteriores após a repercussão da postagem nas redes sociais.

O diálogo, no entanto, reforça o ambiente de tensão política que cercava as discussões públicas sobre o Banco Master naquele período, marcado por disputas narrativas e crescente atenção da imprensa e de autoridades sobre as operações da instituição financeira.

Aécio e Doria

Um dos episódios citados nas conversas envolve o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), presidente nacional do partido e ex-candidato à Presidência da República. Em mensagem enviada à então namorada, a influenciadora Martha Graeff, Vorcaro relata um encontro em que o empresário Álvaro Garnero teria relembrado uma suposta relação passada entre Graeff e o parlamentar.

Segundo o banqueiro, o episódio ocorreu durante uma conversa em grupo e acabou provocando constrangimento.

“Aí veio Álvaro Garnero e Aécio, e começaram contar um caso que envolvia você. Não paravam de falar seu nome. E que Aécio te namorava”, escreveu Vorcaro.

Na sequência, ele descreve a reação que teria tido diante da situação.

“Me deu embrulho no estômago e saí da mesa.”

O trecho da conversa não traz outros detalhes sobre o contexto do encontro nem indica qualquer relação do episódio com as investigações em curso. O registro, no entanto, ilustra o ambiente de sociabilidade em que o banqueiro transitava e as conexões que mantinha com personagens do meio político e empresarial.

Outro conjunto de mensagens aponta para uma interlocução diferente, desta vez com o ex-governador de São Paulo João Doria. Nos diálogos encontrados nos aparelhos de Vorcaro, Doria demonstra preocupação com a situação enfrentada pelo empresário e sugere uma conversa reservada.

João Doria: “Amigo Daniel, boa tarde. Estou preocupado com você. Tenho escutado coisas que vão precisar de reação sua.”
“Sempre com equilíbrio e ponderação. Mas jamais com o silêncio. Vamos agendar um café?”

Surpreso com a abordagem, Vorcaro pede esclarecimentos sobre o motivo da mensagem.

Daniel Vorcaro: “Com relação a quê?”

Doria então responde que gostaria de tratar de assuntos relacionados ao próprio banqueiro, a um interlocutor chamado Maurício e à instituição financeira.

João Doria: “A você, ao Maurício, ao banco. Reservadamente.”

Na sequência da conversa, Vorcaro sugere que a conversa ocorra por telefone.

Daniel Vorcaro: “Não entendi bem, quer me ligar?”
João Doria: “Ligo já.”

As mensagens não indicam se o encontro proposto chegou a ocorrer nem qual teria sido o conteúdo da conversa posterior. Ainda assim, o diálogo evidencia que o caso envolvendo o Banco Master já circulava nos bastidores políticos e empresariais antes de ganhar a dimensão pública que viria a seguir.

Com a continuidade da análise do material apreendido, investigadores tentam reconstruir a rede de relações mantidas por Vorcaro e identificar quais dessas interações tiveram impacto direto ou indireto nas operações financeiras e nas articulações que cercaram o banco nos meses que antecederam o colapso da instituição.

Nikolas de jatinho

As apurações também revelaram o uso de uma aeronave associada ao banqueiro durante uma agenda de mobilização eleitoral em 2022. Segundo informações reveladas pelo jornal O Globo, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o pastor e influenciador Guilherme Batista, ligado à Igreja Batista da Lagoinha, utilizaram em outubro daquele ano um jato executivo com prefixo PT-PVH, apontado como pertencente ao empresário.

A aeronave — um Embraer 505 Phenom 300 — foi empregada em deslocamentos da caravana “Juventude pelo Brasil”, iniciativa que percorreu diversas capitais do Nordeste em apoio à candidatura do então presidente Jair Bolsonaro durante a fase final da campanha eleitoral.

A agenda ocorreu entre 20 e 28 de outubro de 2022, poucos dias antes do segundo turno das eleições presidenciais. Durante o período, os organizadores buscaram realizar eventos em diferentes cidades para mobilizar eleitores jovens e grupos ligados ao segmento evangélico.

Além das capitais nordestinas, o avião também realizou voos para Brasília e para municípios de Minas Gerais, acompanhando o roteiro público da caravana.

De acordo com a reportagem, os deslocamentos foram reconstruídos a partir da análise dos sinais emitidos pelo transponder da aeronave — dispositivo que transmite dados de identificação e posição do avião durante o voo. O histórico de navegação, monitorado por plataformas de rastreamento aéreo disponíveis na internet, coincidiria com o itinerário divulgado da campanha.

Outra evidência mencionada foi uma fotografia publicada nas redes sociais pela influenciadora cristã Jey Reis, na qual Nikolas Ferreira e o pastor Guilherme Batista aparecem diante do jato utilizado na viagem.

O episódio ganhou novo significado após a abertura de investigações envolvendo o Banco Master. Em novembro de 2025, Vorcaro e outros investigados foram alvo da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal para apurar um suposto esquema de concessão de créditos fictícios pela instituição financeira.

Entre as frentes investigadas está também a tentativa de aquisição do banco pelo Banco Regional de Brasília (BRB), instituição pública vinculada ao governo do Distrito Federal. As suspeitas iniciais apontam que as irregularidades investigadas poderiam alcançar até R$ 17 bilhões.

Procurado, o deputado Nikolas Ferreira afirmou, em nota, que não sabia que a aeronave utilizada na agenda política pertencia a Daniel Vorcaro. Segundo o parlamentar, ele tomou conhecimento dessa informação apenas posteriormente, quando o nome do empresário passou a aparecer nas investigações.

“Minha presença no voo se deu exclusivamente em razão do convite para a agenda de campanha, sem qualquer vínculo pessoal, comercial ou institucional com o dono da aeronave”, declarou.

O deputado acrescentou que, à época dos deslocamentos, o nome de Vorcaro não era de conhecimento público e não havia informações que pudessem levantar suspeitas sobre eventual irregularidade.

“Mesmo que se buscasse identificar o proprietário da aeronave naquele momento, não existia qualquer elemento que indicasse situação irregular ou que justificasse questionamento”, afirmou.

18 deputados e ex-deputados bolsonaristas 

Os registros de conversas analisados pela PF mostram que Vorcaro mantinha contato no WhatsApp com ao menos 18 deputados federais bolsonaristas de diferentes partidos.

Os nomes aparecem na lista identificada durante a análise de dispositivos e aplicativos de mensagens do empresário. Não consta da relação nenhum parlamentar de esquerda ou ligados ao governo Lula.

O fato de os deputados estarem na lista de contatos de Vorcaro não significa que são alvo de investigação, mas revela a dimensão política da rede de relações mantida pelo ex-banqueiro, hoje no centro das apurações sobre o escândalo que envolve o Banco Master e preso por ordem do ministro André Mendonça, do STF.

A análise partidária dos 18 nomes revela o DNA bolsonarista da agenda de Vorcaro: o PL lidera com 5 representantes, seguido pelo PP com 4, o PSD com 3, enquanto Republicanos e Novo aparecem com 2 cada, e as legendas União Brasil e PSDB fecham a relação com 1 nome cada.

Lista de contatos de Vorcaro

  • Aguinaldo Ribeiro (PP-PB)
  • Altineu Côrtes (PL-RJ)
  • Arthur Lira (PP-AL)
  • Bilac Pinto (União Brasil-MG)
  • Diego Coronel (PSD-BA)
  • Doutor Luizinho (PP-RJ)
  • Fábio Mitidieri (PSD-SE)
  • Flávia Arruda (PL-DF)
  • Fausto Pinato (PP-SP)
  • Hugo Motta (Republicanos-PB)
  • João Carlos Bacelar (PL-BA)
  • Lucas Gonzalez (Novo-MG)
  • Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG)
  • Márcio Marinho (Republicanos-BA)
  • Nikolas Ferreira (PL-MG)
  • Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG)
  • Rodrigo Maia (PSD-RJ)
  • Vinicius Poit (Novo-SP)

O material veio à tona no âmbito da Operação Compliance Zero,investigação da PF que apura suspeitas de crimes contra o sistemafinanceiro, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça ligados ao Banco Master.

E então?

Mais do que a queda de um banco e a prisão de um empresário, o caso Daniel Vorcaro expõe uma zona cinzenta onde interesses privados, influência política e fragilidades institucionais parecem ter convivido com desconcertante naturalidade.

As mensagens recuperadas pelos investigadores não provam, por si só, irregularidades de todos os personagens citados — e a própria investigação ainda está em curso —, mas revelam algo talvez ainda mais perturbador: a facilidade com que um agente do sistema financeiro transitava entre ministros, parlamentares, dirigentes de órgãos reguladores, empresários e lideranças políticas de diferentes espectros ideológicos.

O escândalo, portanto, não se limita às suspeitas de fraude ou corrupção; ele lança luz sobre a permeabilidade das estruturas de poder a relações informais que, em determinados contextos, podem distorcer decisões públicas, enfraquecer mecanismos de controle e comprometer a confiança nas instituições.

Resta saber se as apurações em andamento conseguirão transformar esse vasto conjunto de indícios em responsabilização efetiva — ou se o episódio se somará à longa tradição brasileira de crises que expõem as engrenagens do poder apenas para, pouco tempo depois, vê-las voltar a operar na mesma penumbra de sempre.

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