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Especial
Extrema direita trumpista quer domínio total sobre seus vizinhos
Publicado em 22/05/2026 2:13 - Victor Barone
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A possível reunião entre o senador Flávio Bolsonaro e Donald Trump, nos Estados Unidos, deixou de ser tratada nos bastidores de Brasília como uma simples agenda política internacional. Segundo apurações envolvendo setores da ABIN e do Itamaraty, a viagem passou a ser observada como um episódio potencialmente sensível para a soberania institucional brasileira diante da crescente internacionalização da extrema direita. O temor não reside apenas no encontro em si, mas no peso simbólico que uma eventual fotografia oficial, uma manifestação pública de apoio ou qualquer gesto de chancela política por parte da Casa Branca poderiam produzir no ambiente eleitoral brasileiro de 2026.
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Em um cenário global marcado pela articulação transnacional de lideranças ultraconservadoras, a aproximação entre o bolsonarismo e o trumpismo passou a ser interpretada por diplomatas e analistas como parte de uma reorganização ideológica continental mais ampla — capaz de atravessar fronteiras nacionais e influenciar disputas democráticas internas. Da pressão norte-americana sobre Cuba à criação de blocos hemisféricos alinhados a Washington; da radicalização política na Colômbia ao ultraliberalismo de Javier Milei na Argentina, emerge uma nova arquitetura de poder baseada em guerra cultural, desinformação digital, alianças conservadoras internacionais e crescente instrumentalização geopolítica da democracia.
Mais do que uma viagem diplomática, a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA tornou-se símbolo de um fenômeno maior: a transformação da América Latina em um dos principais territórios da disputa global entre projetos democráticos e a nova extrema direita internacional.
O que emerge na América Latina já não se parece com as antigas intervenções militares da Guerra Fria, mas com uma forma contemporânea de colonialismo 2.0, baseada em influência digital, alinhamento ideológico e pressão geopolítica permanente.
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A tentativa do senador Flávio Bolsonaro de construir uma agenda com o presidente norte-americano Donald Trump em Washington acendeu um sinal de alerta simultâneo na inteligência brasileira e na diplomacia do país. Segundo apuração do jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias, integrantes da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) e do Itamaraty avaliam que, dependendo da natureza institucional do encontro, do protocolo adotado pela Casa Branca e do eventual uso político da reunião, o gesto poderá ser interpretado como uma tentativa de interferência externa no processo eleitoral brasileiro de 2026.
A preocupação ganhou corpo após reportagem da Reuters revelar que Flávio Bolsonaro tenta viabilizar uma reunião com Trump nos Estados Unidos na próxima semana, em meio ao desgaste provocado pelas revelações envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o financiamento do filme “Dark Horse”. Nos bastidores do governo federal, o episódio deixou de ser tratado apenas como um movimento típico de pré-campanha e passou a ser analisado sob uma dimensão mais sensível: a da soberania institucional brasileira diante da crescente internacionalização da extrema direita.
No Palácio do Planalto, interlocutores ligados à articulação política do governo afirmam que há monitoramento atento da aproximação entre setores do bolsonarismo e integrantes da administração republicana norte-americana — especialmente do secretário de Estado Marco Rubio, visto por integrantes do governo brasileiro como um aliado ideológico da direita radical latino-americana.
A apreensão não decorre apenas da possibilidade de uma conversa entre lideranças políticas. Diplomatas ouvidos reservadamente pela reportagem afirmam que encontros entre pré-candidatos e chefes de Estado fazem parte da rotina das relações internacionais. O ponto crítico, segundo essa avaliação, reside na simbologia institucional e eleitoral que pode emergir do formato da agenda.
Entre os cenários considerados delicados pelo Itamaraty estão a realização de uma fotografia oficial na Casa Branca, manifestações públicas de apoio político, tratamento diplomático diferenciado ou qualquer sinalização capaz de ser explorada eleitoralmente no Brasil como uma espécie de “chancela internacional”. Na visão de diplomatas brasileiros, o problema começa quando uma agenda bilateral deixa de cumprir função diplomática e passa a operar como instrumento de pressão política doméstica ou mecanismo indireto de influência sobre o processo eleitoral de outro país.
A preocupação brasileira dialoga diretamente com um fenômeno internacional que se consolidou ao longo da última década: a articulação transnacional de movimentos de extrema direita. A ascensão de Trump nos Estados Unidos, de Viktor Orbán na Hungria, de Javier Milei na Argentina e de lideranças ultraconservadoras em diversos países europeus transformou a extrema direita contemporânea em uma rede política globalizada, marcada pela circulação internacional de estratégias digitais, narrativas antissistema e campanhas de desinformação.
O cientista político norte-americano Steven Levitsky, professor de Harvard e coautor de Como as Democracias Morrem, argumenta que democracias contemporâneas raramente entram em colapso por meio de golpes militares clássicos. Segundo ele, o processo atual ocorre, muitas vezes, pela erosão gradual das instituições democráticas a partir de lideranças eleitas que passam a tensionar os limites do sistema político. Em entrevista à revista New Yorker em 2018, Levitsky afirmou que “as democracias morrem lentamente, em etapas sucessivas”. A análise tornou-se uma das referências centrais para compreender os movimentos globais de erosão democrática observados após a ascensão de Trump e de outras lideranças populistas de extrema direita.
No caso brasileiro, a memória institucional do Estado ainda é fortemente atravessada pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas bolsonaristas atacaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Desde então, setores da inteligência brasileira passaram a incorporar com mais intensidade o debate sobre influência internacional, radicalização digital e redes transnacionais de desinformação.
Nos bastidores da ABIN, o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro é visto como especialmente sensível porque coincide com alertas já formalizados pela própria agência em relatórios públicos recentes. Em documento divulgado no fim do ano passado, a inteligência brasileira apontou a interferência externa como um dos riscos relevantes ao ambiente democrático nacional. O relatório menciona ameaças ligadas à manipulação do debate público, campanhas coordenadas de desinformação, instrumentalização política das redes sociais e tentativas de desestabilização institucional.
O tema ganhou centralidade em diversas democracias ocidentais após as denúncias de interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016. Naquele episódio, investigações conduzidas por agências de inteligência dos Estados Unidos concluíram que houve operações coordenadas de influência digital destinadas a favorecer Donald Trump e ampliar a polarização política no país. Desde então, o conceito de “ingerência híbrida” — combinação de operações digitais, desinformação, influência política e mobilização ideológica transnacional — passou a integrar o vocabulário estratégico de governos democráticos.
No Brasil, a discussão ganhou contornos ainda mais delicados diante da crescente aproximação ideológica entre o bolsonarismo e setores da direita trumpista. A relação entre Jair Bolsonaro e Donald Trump sempre ultrapassou o campo meramente diplomático. Durante o governo Bolsonaro, o alinhamento automático aos Estados Unidos foi tratado como eixo estruturante da política externa brasileira, rompendo parcialmente uma tradição histórica do Itamaraty baseada no multilateralismo, na autonomia diplomática e no princípio da não intervenção.
Historicamente, a diplomacia brasileira construiu sua identidade internacional justamente a partir da defesa da soberania nacional e do equilíbrio entre potências globais. Desde o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, consolidou-se no Itamaraty uma cultura institucional voltada à preservação da autonomia estratégica do país. A preocupação atual decorre exatamente da percepção de que disputas eleitorais brasileiras podem passar a ser atravessadas por atores estrangeiros de maneira cada vez mais explícita.
Reservadamente, integrantes do governo Lula afirmam que o temor de algum tipo de interferência internacional no ambiente político brasileiro jamais foi completamente descartado. Mesmo diante das relações diplomáticas formais entre Brasília e Washington, há avaliações dentro do núcleo político do governo de que setores da extrema direita internacional seguem tratando o Brasil como peça importante na disputa ideológica global entre projetos autoritários e democráticos.
No Itamaraty, diplomatas avaliam que o eventual encontro também teria potencial para funcionar como uma tentativa de deslocar o foco da crise política enfrentada pelo bolsonarismo após o vazamento de áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A leitura predominante é que uma imagem ao lado de Trump poderia servir como instrumento de reposicionamento político, mobilização de base eleitoral e reconstrução narrativa diante do desgaste recente.
Durante conversa com jornalistas na quinta-feira (21), Flávio Bolsonaro negou que tenha solicitado reunião com Trump. Em inglês, afirmou que “ninguém pediu nada” e declarou que questionamentos sobre a agenda deveriam ser direcionados à Casa Branca. Até o momento, o governo norte-americano não confirmou oficialmente a realização do encontro.
Mais do que uma agenda diplomática, o episódio expõe um dos principais dilemas das democracias contemporâneas: a crescente dissolução das fronteiras entre política doméstica e articulações internacionais ideológicas. Em um mundo hiperconectado, no qual campanhas digitais atravessam países em segundos e lideranças populistas constroem redes globais de influência, a soberania eleitoral passou a ser disputada também no campo simbólico, informacional e geopolítico.
Como observou a filósofa política Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, “o objetivo da propaganda moderna não é apenas persuadir, mas organizar”. Mais de sete décadas depois, a frase permanece atual diante de uma política internacional cada vez mais marcada pela instrumentalização das emoções coletivas, pela erosão da confiança institucional e pela internacionalização das guerras culturais.
Trump articula bloco regional contra protestos na Bolívia
A reação coordenada de governos alinhados a Donald Trump contra os protestos na Bolívia expôs, de forma inédita, o avanço de uma nova arquitetura política hemisférica liderada pela extrema direita continental. Sob a justificativa de “defesa da democracia” e “proteção da ordem constitucional”, países aliados aos Estados Unidos passaram a atuar conjuntamente para respaldar o governo do presidente boliviano Rodrigo Paz diante da onda de manifestações que tomou o país nos últimos meses.
O movimento ocorre poucos meses após a posse de Rodrigo Paz e do apoio explícito recebido de Trump, consolidando uma aproximação que, segundo analistas internacionais, vai além da diplomacia convencional e passa a integrar um projeto geopolítico mais amplo de reorganização ideológica do continente.
Em comunicado conjunto divulgado pelo Departamento de Estado norte-americano, os países integrantes do chamado “Escudo das Américas” — bloco regional criado sob liderança de Trump — condenaram os protestos bolivianos e alertaram que não irão tolerar tentativas de desestabilização do governo recém-eleito.
O documento foi assinado por Argentina, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos. A declaração afirma que os protestos e bloqueios de estradas “visam subverter a ordem constitucional” e acusa setores ligados ao narcotráfico e ao crime organizado de apoiar as mobilizações.
“Apoiamos o governo da Bolívia e apelamos aos manifestantes para que expressem suas preocupações pacificamente e respeitem as instituições democráticas”, diz o texto. Em outro trecho, o bloco afirma que “não pode permitir a derrubada de líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”.
A linguagem utilizada pelo comunicado chamou atenção de diplomatas latino-americanos e especialistas em relações internacionais por remeter diretamente à retórica da Guerra Fria e às antigas doutrinas hemisféricas de segurança patrocinadas por Washington ao longo do século XX. Embora o texto invoque a defesa da democracia, críticos apontam que o discurso também revela uma crescente tendência de internacionalização ideológica das disputas políticas latino-americanas sob liderança norte-americana.
O episódio reforça a consolidação de uma nova coalizão conservadora continental, articulada em torno do trumpismo e sustentada por governos ideologicamente alinhados à extrema direita global. Diferentemente das alianças tradicionais do passado, centradas exclusivamente em acordos militares ou econômicos, o atual arranjo possui forte dimensão cultural, digital e ideológica, operando sobre temas como combate ao “globalismo”, guerra cultural, imigração, segurança pública e enfrentamento às esquerdas latino-americanas.
Nos bastidores diplomáticos da região, o Escudo das Américas já vem sendo comparado a uma espécie de reedição contemporânea — ainda que adaptada aos tempos digitais — dos mecanismos hemisféricos de alinhamento político construídos pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. A diferença central é que, agora, a influência não se dá prioritariamente por intervenções militares clássicas, mas por redes de apoio político, articulação internacional da extrema direita, pressão diplomática, campanhas digitais e construção coordenada de narrativas.
A cientista política Anne Applebaum, autora de O Crepúsculo da Democracia, argumenta que movimentos autoritários contemporâneos operam cada vez mais em redes transnacionais de cooperação ideológica. Em artigo publicado na revista The Atlantic em 2021, Applebaum observou que “os autocratas modernos aprendem uns com os outros”. A frase tornou-se uma referência frequente para compreender a circulação internacional de estratégias políticas entre lideranças populistas e ultraconservadoras.
No caso boliviano, o apoio explícito de Trump ao governo Rodrigo Paz ocorre num contexto regional particularmente sensível. A Bolívia possui uma longa história de instabilidade institucional, marcada por golpes de Estado, disputas étnicas, conflitos sociais e forte polarização política. Desde a deposição de Evo Morales em 2019 — episódio classificado por diversos setores internacionais como golpe institucional — o país passou a ocupar posição estratégica nas disputas ideológicas do continente.
Além da dimensão política, a Bolívia também se tornou peça-chave na geopolítica global devido às suas vastas reservas de lítio, mineral considerado fundamental para a transição energética e para a indústria de baterias elétricas. Analistas internacionais observam que o controle político e econômico sobre países detentores de recursos estratégicos tende a ganhar importância crescente nas disputas entre potências e blocos ideológicos.
O sociólogo Boaventura de Sousa Santos afirma que democracias contemporâneas vivem uma tensão crescente entre soberania popular e influência de grandes interesses econômicos e geopolíticos globais. Em diversas conferências sobre América Latina, Boaventura argumentou que a região se tornou um “laboratório de disputas entre projetos democráticos e formas renovadas de colonialismo político e econômico”.
Nos meios diplomáticos sul-americanos, a principal preocupação não reside apenas na crise boliviana em si, mas no precedente político estabelecido pelo Escudo das Américas. Pela primeira vez desde o fim dos grandes ciclos militares do século XX, um grupo de países latino-americanos atua publicamente, em alinhamento direto com Washington, para enquadrar protestos internos de um país vizinho dentro de uma lógica hemisférica de segurança política.
A retórica adotada pelo bloco também evidencia uma mudança importante no vocabulário político da extrema direita internacional. Termos historicamente associados à defesa democrática — como “instituições”, “ordem constitucional” e “proteção da democracia” — passaram a ser apropriados por governos ultraconservadores como forma de legitimar endurecimentos institucionais e ampliar mecanismos de controle político.
O filósofo francês Michel Foucault observava que o poder moderno não atua apenas pela repressão direta, mas também pela produção de discursos de verdade capazes de legitimar práticas de controle. Em Vigiar e Punir, Foucault demonstrou como instituições políticas frequentemente utilizam a linguagem da ordem e da segurança para justificar formas mais sofisticadas de disciplina social.
Na Bolívia, o cenário permanece instável. Protestos continuam bloqueando estradas e afetando o abastecimento em diversas regiões do país. O governo Rodrigo Paz afirma que enfrenta tentativas organizadas de desestabilização, enquanto movimentos sociais denunciam repressão, criminalização das manifestações e aprofundamento das desigualdades econômicas.
A crise boliviana revela, assim, algo maior do que um conflito doméstico. Ela se tornou um retrato da crescente reorganização ideológica do continente americano sob influência do trumpismo e da extrema direita global. Mais do que alianças diplomáticas ocasionais, o que emerge na região é uma tentativa de construção de um novo eixo político hemisférico, baseado na articulação internacional de governos conservadores, na militarização simbólica do debate público e na transformação das disputas democráticas em confrontos geopolíticos permanentes.
Num continente historicamente marcado por intervenções externas, golpes patrocinados durante a Guerra Fria e disputas pela soberania política, o avanço dessa nova lógica hemisférica reacende uma pergunta antiga na América Latina: até onde vai a cooperação internacional e onde começa a ingerência política sobre os destinos democráticos da região?
Trump amplia retórica contra Cuba
A escalada verbal e militar promovida pelo governo de Donald Trump contra Cuba também reforçou temores de uma nova fase de intervencionismo norte-americano na América Latina. Em declarações feitas na Casa Branca, Trump afirmou que poderá ser o presidente responsável por finalmente “fazer algo” contra a ilha socialista, enquanto o secretário de Estado Marco Rubio reforçou que Washington considera Cuba uma ameaça à segurança nacional dos EUA.
A tensão ganhou dimensão ainda mais grave após o envio do porta-aviões USS Nimitz ao Mar do Caribe e do anúncio de acusações criminais contra Raúl Castro, responsabilizado por promotores federais norte-americanos pelo abatimento, em 1996, de duas aeronaves civis ligadas a grupos de exilados cubanos radicados nos Estados Unidos.
Embora a Casa Branca afirme preferir uma solução diplomática, o discurso adotado por Trump e Rubio passou a ser interpretado internacionalmente como uma combinação clássica de pressão militar, intimidação política e construção narrativa destinada a legitimar uma eventual ação mais agressiva contra Havana.
“Outros presidentes analisaram isso por 50, 60 anos, pensando em fazer algo”, declarou Trump no Salão Oval. “Parece que serei eu quem o fará.”
A frase provocou forte repercussão internacional não apenas pelo conteúdo explícito da ameaça, mas pelo simbolismo histórico que carrega. Desde a Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro, Cuba ocupa posição central na geopolítica hemisférica dos Estados Unidos. Ao longo de mais de seis décadas, sucessivos governos norte-americanos mantiveram bloqueios econômicos, operações de inteligência, sabotagens, tentativas de assassinato, ações clandestinas e estratégias de isolamento político contra a ilha.
A atual escalada ocorre num contexto internacional particularmente delicado: o fortalecimento de alianças conservadoras hemisféricas, a reorganização da extrema direita global e o reposicionamento dos Estados Unidos diante da crescente influência de China e Rússia na América Latina.
Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos e um dos principais expoentes da ala ultraconservadora republicana, afirmou que Cuba mantém laços com adversários estratégicos de Washington e representa risco permanente à segurança nacional norte-americana. Embora tenha afirmado que a preferência de Trump continua sendo uma “solução negociada e pacífica”, Rubio deixou claro que a Casa Branca considera outras alternativas.
“O presidente sempre tem a opção de fazer o que for preciso para apoiar e proteger os interesses nacionais”, afirmou.
A linguagem empregada pelo governo norte-americano remete diretamente à tradição histórica da Doutrina Monroe, formulada em 1823 sob o princípio de que a América Latina estaria sob esfera exclusiva de influência dos Estados Unidos. Ao longo do século XX, essa lógica serviu de base para dezenas de intervenções militares, operações da CIA e golpes apoiados por Washington em países latino-americanos.
De Golpe de Estado no Chile em 1973 à invasão do Panamá em 1989, passando pelo apoio às ditaduras militares no Cone Sul e pelas operações da chamada Operação Condor, a política hemisférica norte-americana frequentemente utilizou o discurso da segurança continental para justificar ações de força contra governos considerados hostis aos interesses de Washington.
O historiador Greg Grandin, professor da Universidade Yale e autor de Empire’s Workshop, argumenta que a América Latina funcionou historicamente como “laboratório” das estratégias intervencionistas dos Estados Unidos. Segundo Grandin, muitas práticas de segurança nacional posteriormente exportadas para outras regiões do mundo foram inicialmente testadas no continente latino-americano.
A atual movimentação militar no Caribe intensificou comparações com episódios críticos da Guerra Fria, especialmente a Crise dos Mísseis de 1962, quando o mundo esteve à beira de um confronto nuclear entre Estados Unidos e União Soviética após a instalação de mísseis soviéticos em território cubano.
Embora o cenário contemporâneo seja distinto, analistas internacionais observam que a lógica geopolítica permanece semelhante: impedir que governos considerados adversários fortaleçam alianças estratégicas fora da órbita de influência norte-americana.
O envio do USS Nimitz ao Caribe foi oficialmente apresentado pelo Comando Sul dos EUA como parte de exercícios marítimos com parceiros regionais iniciados em março. Ainda assim, a coincidência entre a movimentação militar, as acusações contra Raúl Castro e as declarações de Trump elevou significativamente a tensão diplomática.
O governo de Miguel Díaz-Canel reagiu duramente. Díaz-Canel classificou as acusações contra Raúl Castro como uma “manobra política” destinada a criar justificativa internacional para uma eventual agressão militar contra Cuba.
Nos bastidores diplomáticos latino-americanos, o episódio passou a ser interpretado como mais um capítulo da crescente radicalização da política externa trumpista para o hemisfério ocidental. A aproximação entre Washington e governos alinhados à extrema direita regional vem consolidando uma nova arquitetura de pressão política continental, sustentada pela retórica anticomunista, pelo combate ao chamado “globalismo” e pela militarização crescente das disputas ideológicas.
A cientista política Anne Applebaum observa que movimentos autoritários contemporâneos frequentemente operam por meio da criação permanente de inimigos internos e externos. Em O Crepúsculo da Democracia, Applebaum argumenta que lideranças populistas necessitam manter sociedades em estado constante de polarização para sustentar mobilização política contínua.
No caso cubano, o discurso de ameaça externa também possui forte utilidade doméstica para Trump. Historicamente, a pauta anticastrista exerce influência significativa sobre setores conservadores da Flórida, especialmente entre eleitores cubano-americanos e venezuelanos radicados em Miami — base eleitoral estratégica para o trumpismo.
Ao mesmo tempo, a retórica contra Havana ajuda a fortalecer a construção de um eixo ideológico hemisférico alinhado à extrema direita continental. Nos últimos meses, Washington intensificou articulações políticas com governos conservadores latino-americanos dentro do chamado “Escudo das Américas”, bloco que vem sendo apontado por analistas como uma nova plataforma geopolítica de alinhamento hemisférico sob liderança trumpista.
O caso também revela uma mudança importante na dinâmica contemporânea do poder internacional. Diferentemente das intervenções clássicas do século XX, as novas formas de pressão política combinam sanções econômicas, operações de informação, judicialização internacional, isolamento diplomático, retórica de segurança nacional e demonstrações militares de força.
O filósofo italiano Antonio Gramsci afirmava que hegemonia política não se constrói apenas pela força, mas pela capacidade de produzir consenso e moldar narrativas. No cenário atual, a disputa pela América Latina parece ocorrer simultaneamente nos campos militar, econômico, diplomático e simbólico.
Enquanto isso, em Havana, cresce o temor de que a ilha volte a ocupar o centro de uma disputa geopolítica hemisférica de grandes proporções. Mais de seis décadas após a Revolução Cubana transformar o Caribe num dos epicentros da Guerra Fria, Cuba volta a ser tratada por Washington não apenas como adversário regional, mas como peça estratégica na reorganização ideológica das Américas sob influência da extrema direita global.
A retórica da segurança continental retorna, assim, ao centro do debate hemisférico — agora adaptada ao século XXI, às guerras híbridas, às redes digitais e às novas coalizões internacionais do conservadorismo radical.
Colômbia à beira do caos
A Colômbia entrou na campanha presidencial mais violenta das últimas décadas sob o peso simultâneo da polarização política, da retomada do conflito armado e da crescente radicalização ideológica impulsionada pela nova onda conservadora internacional alinhada ao trumpismo. A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 31 de maio, o país revive cenas que muitos colombianos acreditavam pertencer ao passado: atentados, assassinatos políticos, emboscadas armadas e a militarização crescente do debate eleitoral.
O episódio mais recente ocorreu nesta terça-feira, quando a comitiva do senador governista Alexander Lopez foi atacada numa rodovia da região sudoeste da Colômbia, área historicamente marcada pela presença de grupos armados e narcotráfico. O presidente Gustavo Petro afirmou que houve tentativa de sequestro e atribuiu a ação a “um grupo armado de narcotraficantes”.
O atentado ocorre poucos dias após o assassinato de um dos principais candidatos à presidência e de uma sequência de explosões no sul do país que deixaram dezenas de mortos. O cenário transformou a atual disputa eleitoral na campanha mais sangrenta desde os anos mais duros da guerra interna colombiana.
A violência recolocou no centro do debate nacional uma ferida histórica jamais completamente cicatrizada: o fracasso parcial do processo de pacificação iniciado com o acordo de paz firmado em 2016 entre o Estado colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. O tratado, celebrado internacionalmente como marco histórico, previa o desarmamento da guerrilha e sua reintegração à vida política institucional.
Entretanto, dissidências armadas das antigas Farc permaneceram ativas em diversas regiões do país, enquanto grupos paramilitares, facções narcotraficantes e guerrilhas como o Exército de Libertação Nacional continuaram disputando territórios estratégicos ligados ao tráfico internacional de drogas, mineração ilegal e rotas de contrabando.
Agora, em meio à eleição presidencial, a violência volta a operar como instrumento político e mecanismo de pressão institucional.
Na quarta-feira, o Estado-Maior Central — principal dissidência das Farc — e o ELN anunciaram cessar-fogos temporários antes da votação. Ainda assim, o temor de novos atentados domina o ambiente político colombiano.
O agravamento da crise passou a estruturar toda a campanha eleitoral. Os principais candidatos apresentam projetos radicalmente distintos sobre segurança pública, negociação política e enfrentamento aos grupos armados.
O senador de esquerda Iván Cepeda, apoiado por Gustavo Petro, defende a continuidade das negociações de paz e da estratégia conhecida como “Paz Total”, política adotada pelo atual governo para tentar desmobilizar organizações armadas através de acordos simultâneos.
No extremo oposto, o advogado conservador Abelardo de la Espriella defende endurecimento militar e retomada de operações ofensivas de grande escala contra guerrilhas e facções criminosas. Já a senadora conservadora Paloma Valencia exige ampliação imediata das ações militares e fortalecimento das forças de segurança.
“Exigimos ação imediata, apoio total às nossas Forças Armadas e à polícia, e resultados concretos”, declarou Valencia após os atentados recentes.
Embora o debate seja oficialmente centrado na segurança nacional, analistas políticos colombianos observam que a disputa também reflete uma reorganização ideológica mais ampla na América Latina, marcada pela crescente influência das redes políticas internacionais da extrema direita.
Nos bastidores diplomáticos regionais, cresce a percepção de que setores conservadores colombianos passaram a incorporar estratégias políticas e discursivas diretamente influenciadas pelo trumpismo norte-americano. Temas como “guerra contra o narcoterrorismo”, endurecimento policial, combate ao “socialismo latino-americano”, militarização das fronteiras e retórica antiglobalista passaram a ocupar espaço central na narrativa eleitoral da direita colombiana.
A aproximação entre lideranças conservadoras da Colômbia e figuras ligadas ao círculo político de Donald Trump ocorre num momento em que Washington reorganiza sua influência hemisférica através de alianças ideológicas regionais. Nos últimos meses, o trumpismo consolidou aproximações com governos e movimentos conservadores latino-americanos sob a lógica de uma frente continental contra a esquerda e contra projetos progressistas na região.
Analistas internacionais observam que a Colômbia ocupa posição estratégica nesse tabuleiro geopolítico. Historicamente principal aliado militar dos Estados Unidos na América do Sul, o país abriga bases de cooperação militar com Washington e desempenha papel central nas políticas hemisféricas de combate ao narcotráfico.
Ao mesmo tempo, a eleição colombiana passou a ser observada como um teste regional para o futuro político do progressismo latino-americano após a ascensão de governos de esquerda em países como Brasil, Chile e México.
A cientista política Pippa Norris, professora de Harvard, argumenta que democracias altamente polarizadas tendem a se tornar mais vulneráveis à violência política quando crises institucionais se combinam com desigualdade social, radicalização ideológica e erosão da confiança pública. Em estudos sobre extremismo contemporâneo, Norris aponta que discursos de “guerra cultural” frequentemente aprofundam divisões sociais e legitimam formas mais agressivas de mobilização política.
Na Colômbia, a radicalização eleitoral encontra terreno fértil numa sociedade historicamente marcada por conflitos armados, concentração fundiária, desigualdade extrema e fragilidade institucional em áreas rurais.
Segundo dados do Instituto Kroc da Universidade de Notre Dame — responsável pelo monitoramento internacional do acordo de paz colombiano — mais de 400 ex-combatentes das Farc foram assassinados desde a assinatura do tratado de 2016. Líderes comunitários, defensores de direitos humanos e ativistas sociais continuam entre os principais alvos da violência política no país.
A memória do narcoterrorismo das décadas de 1980 e 1990 também voltou ao imaginário coletivo colombiano. O assassinato do candidato presidencial Luis Carlos Galán pelo cartel de Medellín permanece como símbolo traumático da captura da política pela violência armada.
Hoje, embora o contexto seja diferente, especialistas alertam para o risco de uma nova deterioração democrática impulsionada pela convergência entre extremismo político, fragmentação social e disputa geopolítica internacional.
O sociólogo Manuel Castells afirma que sociedades contemporâneas vivem uma transformação profunda das formas de conflito político, cada vez mais atravessadas por redes digitais, polarização identitária e circulação transnacional de discursos radicais. Em Ruptura, Castells argumenta que a crise de legitimidade das democracias modernas cria ambiente propício para lideranças autoritárias que prometem restaurar ordem através da confrontação permanente.
Na Colômbia, o temor é que o ciclo eleitoral acabe aprofundando justamente esse processo.
As pesquisas do instituto Invamer apontam Iván Cepeda na liderança, com 44,3% das intenções de voto, seguido por Abelardo de la Espriella, com 21,5%, e Paloma Valencia, com 19,8%. Caso nenhum candidato ultrapasse 50% dos votos válidos, haverá segundo turno em 21 de junho.
Mas, para além dos números eleitorais, a principal disputa em curso parece envolver o próprio futuro da democracia colombiana. O país que durante décadas simbolizou os efeitos devastadores da guerra interna agora enfrenta um novo dilema histórico: impedir que o medo, a violência e a radicalização ideológica transformem novamente a política em território de conflito permanente.
Num continente cada vez mais atravessado pela internacionalização das disputas entre extrema direita e forças progressistas, a eleição colombiana tornou-se mais do que uma escolha doméstica. Ela passou a integrar o grande tabuleiro geopolítico das democracias latino-americanas sob pressão — um cenário em que segurança, polarização e influência internacional caminham lado a lado.
Argentina sob tutela ideológica
A deterioração econômica e institucional da Argentina sob o governo de Javier Milei começa a revelar os custos políticos e sociais de um projeto ultraliberal profundamente alinhado ao trumpismo internacional e cada vez mais conectado à nova arquitetura de influência geopolítica dos Estados Unidos sobre a América Latina. Enquanto universidades públicas entram em colapso financeiro, a indústria afunda, denúncias de corrupção atingem o núcleo do governo e a popularidade presidencial despenca, cresce também a percepção de que a Casa Rosada passou a operar não apenas como aliada ideológica de Washington, mas como peça estratégica da reorganização conservadora hemisférica liderada por Donald Trump.
No último dia 12, estudantes, professores, pesquisadores, reitores e trabalhadores universitários realizaram a quarta Marcha Nacional Universitária contra os cortes promovidos pelo governo Milei. As manifestações tomaram a Praça de Maio, em Buenos Aires, além de cidades como Córdoba, Mendoza e La Plata.
Organizado pela Federação Universitária Argentina (FUA), pela Frente Nacional de União Universitária e pelo Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), o protesto denuncia o congelamento orçamentário, a corrosão salarial provocada pela inflação e o descumprimento da Lei de Financiamento Universitário.
Segundo relatório da associação Justiça Distributiva, os gastos reais com ensino superior caíram 29% entre 2023 e 2025, atingindo o menor nível desde 2006. O orçamento de 2026 aprofunda o desmonte: universidades argentinas operam atualmente com apenas 0,4% do PIB, enquanto as transferências federais sofreram redução superior a 45% desde 2023.
A crise universitária tornou-se símbolo de algo maior: a implementação acelerada de um modelo econômico radical baseado em austeridade extrema, desregulamentação, abertura comercial agressiva e retração do Estado — fórmula diretamente inspirada no receituário neoliberal defendido por think tanks conservadores norte-americanos e incorporado ao ecossistema político do trumpismo internacional.
A afinidade entre Milei e Trump jamais foi apenas retórica. Desde a campanha presidencial argentina, Milei passou a ser tratado pela direita norte-americana como uma espécie de laboratório ideológico da nova extrema direita hemisférica. O argentino foi celebrado por figuras centrais do conservadorismo radical dos Estados Unidos, aproximou-se de setores ligados à Conservative Political Action Conference (CPAC) e consolidou laços com operadores políticos próximos ao trumpismo.
Nos bastidores diplomáticos sul-americanos, a leitura predominante é que Washington passou a enxergar Milei como aliado estratégico para reconfigurar o equilíbrio político regional após o retorno de governos progressistas em países como Brasil, Colômbia e México.
A atual ofensiva econômica argentina também coincide com a reorganização da influência norte-americana sobre o continente através de novos mecanismos de alinhamento político, financeiro e ideológico. Diferentemente das formas clássicas de intervenção do século XX, marcadas por golpes militares e operações clandestinas, a nova influência opera por meio de articulações financeiras, pressão econômica, guerra cultural digital e construção de redes políticas transnacionais da extrema direita.
Nesse contexto, a política econômica de Milei tornou-se vitrine internacional do ultraliberalismo radical defendido pelo trumpismo continental.
Mas os resultados começam a produzir desgaste crescente.
Após reduzir temporariamente a inflação mensal, o governo voltou a enfrentar aceleração dos preços no final de 2025 e início de 2026. Em março deste ano, a inflação voltou a atingir 3,4% ao mês. O próprio Milei reconheceu publicamente o agravamento da situação: “O dado é ruim”, afirmou em rede social.
Ao mesmo tempo, a atividade econômica argentina recuou 2,6% em fevereiro, enquanto a produção industrial acumulou queda de 8,7% nos últimos 12 meses.
O economista Paulo Gala, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), avalia que o modelo de Milei possui graves limitações estruturais. Segundo ele, o simples enxugamento do Estado não resolve a fragilidade monetária e produtiva argentina.
“As pessoas não confiam mais no peso. Elas dolarizam os contratos, um pouco parecido com o que aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, qualquer coisa faz a inflação voltar a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”, afirmou Gala.
O economista alerta ainda para o risco de desindustrialização acelerada do país, agravada pela abertura comercial radical promovida pelo governo.
“Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade e ganhos tecnológicos. Essa abertura comercial violenta destrói o pouco que restou de indústria na Argentina”, afirmou.
A crítica dialoga com um debate histórico sobre dependência econômica latino-americana. Desde os trabalhos do economista Raúl Prebisch e da CEPAL, intelectuais latino-americanos alertam para o risco de reprimarização das economias da região, transformadas em exportadoras de commodities enquanto perdem capacidade industrial e autonomia tecnológica.
Hoje, analistas enxergam na política de Milei uma reedição contemporânea desse processo.
Paralelamente ao agravamento econômico, denúncias de corrupção passaram a atingir diretamente o núcleo do governo. O chefe de gabinete Manuel Adorni tornou-se alvo de investigações sobre suposto enriquecimento ilícito envolvendo viagens de luxo e aquisição de imóveis incompatíveis com sua renda declarada.
As denúncias atingem precisamente o principal eixo discursivo de Milei: o combate à corrupção e à chamada “casta política”. Segundo pesquisa da consultoria Zentrix, 66,6% dos argentinos acreditam que a promessa anticorrupção do governo foi rompida.
O cientista político Leandro Gabiati afirmou à Agência Brasil que a pauta anticorrupção era central para a legitimidade política do governo.
“Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, isso afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”, explicou.
As pesquisas refletem esse desgaste. Levantamento da Atlas Intel apontou reprovação de 63% ao governo Milei no final de abril, com aprovação de apenas 35%.
Em meio à crise, a Casa Rosada intensificou confrontos com a imprensa. No final de abril, o governo proibiu a entrada de jornalistas na sede do Executivo argentino, restringindo o trabalho de cerca de 60 profissionais. A medida provocou denúncias de violação à liberdade de imprensa e reacendeu preocupações sobre tendências autoritárias do governo.
A hostilidade contra universidades, imprensa, sindicatos e movimentos sociais segue um padrão observado em diversos governos alinhados ao trumpismo internacional. Trata-se de uma estratégia política baseada na deslegitimação sistemática das instituições mediadoras da democracia liberal.
O filósofo Umberto Eco observava que movimentos autoritários frequentemente constroem sua força política através da criação permanente de inimigos internos — intelectuais, jornalistas, universidades, artistas ou minorias sociais — apresentados como obstáculos à “verdadeira vontade popular”.
Na Argentina, o conflito universitário tornou-se especialmente simbólico porque a educação pública ocupa papel central na identidade democrática do país desde a Reforma Universitária de Córdoba, em 1918, um dos marcos históricos do pensamento reformista latino-americano.
Agora, esse legado passa a colidir frontalmente com o projeto ultraliberal mileísta.
Ao mesmo tempo, a crescente proximidade entre Milei e o trumpismo também amplia preocupações sobre o grau de influência norte-americana na política argentina contemporânea. Analistas internacionais observam que a Argentina passou a funcionar como uma espécie de plataforma regional para experiências políticas da extrema direita global.
O alinhamento automático de Milei aos interesses geopolíticos de Washington ficou ainda mais evidente diante das recentes crises hemisféricas. O governo argentino tornou-se um dos principais apoiadores das posições norte-americanas contra Cuba, Venezuela e governos progressistas da região, reforçando a nova coalizão continental conservadora articulada sob liderança trumpista.
Essa dinâmica reacende memórias históricas delicadas na América Latina.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos exerceram profunda influência sobre a política argentina, apoiando ditaduras militares, programas de segurança hemisférica e estratégias de combate às esquerdas latino-americanas. Hoje, embora os métodos sejam diferentes, críticos observam que a lógica de alinhamento geopolítico permanece viva — agora sob a forma de influência ideológica, financeira e comunicacional.
O sociólogo Boaventura de Sousa Santos argumenta que democracias periféricas contemporâneas vivem sob crescente tensão entre soberania nacional e dependência internacional. Em análises sobre América Latina, Boaventura alerta para o avanço de formas renovadas de colonialismo político mediadas por mercados financeiros, plataformas digitais e alianças ideológicas globais.
Na Argentina de Milei, essa tensão tornou-se cada vez mais visível.
Enquanto universidades protestam contra cortes históricos, a indústria recua, a inflação ressurge e denúncias corroem o discurso anticasta, a Casa Rosada aprofunda sua inserção numa rede internacional da extrema direita que ultrapassa fronteiras nacionais.
Mais do que uma crise econômica, a Argentina parece atravessar hoje uma disputa profunda sobre soberania, democracia e projeto de país — num continente cada vez mais pressionado pelas novas formas de ingerência política internacional articuladas sob a sombra do trumpismo hemisférico.
E agora?
Ao longo das últimas décadas, a América Latina aprendeu — muitas vezes de forma traumática — que a erosão democrática raramente começa por tanques nas ruas ou rupturas institucionais explícitas. Ela costuma emergir de maneira gradual, simbólica e difusa: pela captura das narrativas públicas, pela radicalização permanente do debate político, pela normalização da interferência externa e pela transformação das democracias em arenas de guerra ideológica contínua.
A possível aproximação entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump, observada com preocupação por setores da inteligência e da diplomacia brasileira, não representa apenas um episódio isolado da política nacional, mas um sinal de uma engrenagem internacional muito mais ampla. O que se consolida no continente é uma rede transnacional de poder baseada em alianças ideológicas, operações digitais, instrumentalização do medo, guerras culturais e crescente pressão sobre instituições democráticas.
Da Bolívia à Colômbia, de Cuba à Argentina, a retórica da “defesa da liberdade” vem sendo acompanhada pelo avanço de mecanismos cada vez mais sofisticados de controle político, polarização social e alinhamento geopolítico hemisférico. Nesse contexto, a principal disputa do século XXI talvez já não seja apenas entre direita e esquerda, mas entre sociedades capazes de preservar sua soberania democrática e projetos políticos que operam internacionalmente para reorganizar o poder a partir da erosão das próprias bases institucionais da democracia.
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