Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Especial

O AVANÇO

Evangélicos crescem e representam mais de um quarto da população

Publicado em 06/06/2025 12:27 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O Censo Demográfico de 2022 mostrou a consolidação das mudanças do perfil religioso do Brasil. O catolicismo apostólico romano, que em 2010 concentrava 65,1% (105,4 milhões) da população de 10 anos ou mais, passou a representar 56,7% (100,2 milhões) em 2022, uma redução de 8,4 pontos percentuais (p.p.). Por outro lado, observou-se o aumento de 5,2 p.p. na proporção de evangélicos, passando de 21,6% em 2010 (35 milhões) para 26,9% em 2022 (47,4 milhões). As informações são do Censo Demográfico 2022: Religiões: Resultados preliminares da amostra, divulgado hoje (06) pelo IBGE. Os dados também podem ser visualizados no Panorama do Censo 2022 e no Sidra.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

A proporção de pessoas que se declararam sem religião teve um aumento de 1,3 p.p. entre 2010 e 2022, passando de 7,9% para 9,3%. Também houve aumento nas religiões de umbanda e candomblé (de 0,3 % em 2010 para 1,0%, em 2022) e outras religiosidades (de 2,7% para 4,0%). Houve pequeno declínio na religião espírita (de 2,2% para 1,8%). As religiosidades de tradições indígenas representaram 0,1% das declarações.

“Os evangélicos estão se impondo mais na sociedade, colocando mais seus valores, suas ideias, sua fé”, afirma a pesquisadora da IBGE Maria Goreth Santos, analista responsável pelo tema.

“Em 150 anos de recenseamento de religião, muita coisa mudou no país e na sociedade como um todo”, comenta Goreth Santos, referindo-se ao primeiro Censo. “Em 1872, o recenseador deveria assinalar cada pessoa como ‘cathólico’ ou ‘acathólico’, conforme grafia da época; não havia outra opção de religiosidade”, explica Maria Goreth. “Além disso, a população escravizada era toda contada como católica, seguindo a declaração do senhor da casa”.

Hoje, as informações sobre religião no Brasil contemplam variados grupos e subgrupos. “As transformações sociais têm resultado em modificações na metodologia do Censo ao longo de todas essas décadas. Códigos, banco descritor, estrutura classificatória e incorporação de novas declarações religiosas foram sendo necessários para retratar a diversidade religiosa no Brasil da forma mais fidedigna possível”, afirma Maria Goreth.

O catolicismo foi a religião predominante em todas as grandes regiões do país, tendo sua maior concentração no Nordeste (63,9%), seguido da Região Sul (62,4%), e a menor proporção na Região Norte (50,5%). Já os evangélicos variam entre 36,8%, na Região Norte, e 22,5%, no Nordeste. A maior proporção dos que se declaram espíritas está na Região Sudeste, com 2,7%; para umbandistas e candomblecistas, nas regiões Sul (1,6%) e Sudeste (1,4%). Os que se declararam sem religião estão mais presentes na Região Sudeste, com 10,5 %, onde também é mais alta a proporção de outras religiosidades (4,9%).

Das 27 unidades da federação, 13 contam com proporção de católicos apostólicos romanos superior à média nacional (56,7%), na população com 10 anos ou mais de idade. A maior proporção foi registrada no Piauí (77,4%), que também é o estado com menor percentual de evangélicos (15,6%). As menores proporções de católicos apostólicos romanos foram encontradas em Roraima (37,9%), Rio de Janeiro (38,9) e Acre (38,9%).

Em relação aos evangélicos, a maior proporção foi registrada no Acre (44,4%), e a menor no Piauí (15,6%). A maior proporção de espíritas foi encontrada no Rio de Janeiro (3,5%), enquanto a maior proporção de praticantes de Umbanda e Candomblé foi registrada no Rio Grande do Sul (3,2%) – ambas as posições já haviam sido registradas em 2010. Roraima registrou a maior proporção de pessoas sem religião (16,9%), de outras religiosidades (7,8%) e de adeptos de tradições indígenas (1,7%).

Pessoas sem religião são 9,3% dos brasileiros

O Censo 2022 mostrou que a população que se declara sem religião continua aumentando, passando de 7,9% em 2010, para 9,3% em 2022, chegando a 16,4 milhões neste último Censo. A maioria são homens, que representam 56,2% ou 9,2 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade.

A Região Sudeste, com 10,6% de sua população declarada como sem religião, foi a única com proporção acima da média do país, representando 7,9 milhões de pessoas. A menor proporção estava na Região Sul, 7,1%.

Entre as unidades da federação, as maiores proporções de pessoas sem religião estavam em Roraima e Rio de Janeiro (ambas com 16,9%); as menores estavam no Piauí (4,3%), Ceará (5,3%) e Minas Gerais (5,7%).

Evangélicos têm perfil mais jovem

Embora os católicos apostólicos romanos sejam a maioria em todos os grupos de idade, sua proporção variou entre 52,0%, no grupo de 10 a 14 anos de idade, a 72,0%, no grupo de 80 anos ou mais. Entre os evangélicos, a relação é inversa: a maior proporção (31,6%) se encontra no grupo mais jovem, de 10 a 14 anos, e o grupo de 80 anos ou mais representou a menor proporção, com 19,0%. O grupo sem religião atingiu sua proporção máxima na faixa entre 20 e 24 anos (14,3%) e a mínima entre a população com 80 anos ou mais de idade (4,1%).

Na desagregação da população por cor ou raça, o Censo 2022 revelou que, entre as pessoas brancas, 60,2% se identificavam como católicas apostólicas romanas, 23,5% se identificavam como evangélicas e 8,4%, como sem religião. Pessoas com cor ou raça indígena apresentaram a maior proporção de evangélicos (32,2%), enquanto pessoas amarelas apresentaram o menor (14,3%). As maiores proporções de espíritas (3,2%), outras religiosidades (13,6%) e sem religião (16,2%) se encontram entre pessoas de cor ou raça amarela.

Já na distribuição de cada grupo religioso por cor ou raça, verificou-se que o grupo espírita era composto em sua maioria por pessoas brancas (63,8%) e pardas (26,3%). Entre os evangélicos, a maioria era de cor ou raça parda (49,1%) e apenas 0,2% eram amarelas. Entre os umbandistas e candomblecistas, os maiores percentuais eram de brancos (42,7%) e pardos (26,3%). Entre a população de tradições indígenas, 74,5% eram de pessoas de cor ou raça indígena. Entre os sem religião, os maiores percentuais estavam entre pardos (45,1%) e brancos (39,2%).

Espíritas têm os melhores níveis de instrução

Entre as pessoas de 25 anos ou mais de idade, os espíritas apresentaram os menores percentuais de indivíduos sem instrução e com ensino fundamental incompleto (11,3%). É também o grupo com o maior percentual de nível superior completo (48,0%), uma diferença de 29,6 p.p. em relação ao total do país (18,4%). Já entre os católicos romanos, 38,0% são sem instrução e com ensino fundamental incompleto e apenas 18,0% têm nível superior completo. As pessoas de tradições indígenas têm os percentuais mais elevados para os sem instrução e com ensino fundamental incompleto (53,6%), uma diferença de 18,4 p.p. em relação ao total Brasil (35,6%) para o mesmo nível. Entre os evangélicos, a maior proporção é no nível médio e superior incompleto, com 35,2%, seguido por sem instrução e com ensino fundamental incompleto, com 34,9%.

Os espíritas também detinham as menores taxas de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais de idade, com 1,0%, seguidos pelos umbandistas/candomblecistas (2,5%) e outras religiosidades (3,0%). As taxas de analfabetismo mais altas se encontravam nos grupos de tradições indígenas (24,6%) e católicos apostólicos romanos (7,8%), ambas acima do índice nacional (7,0%). “No caso dos católicos, esse resultado relaciona-se ao já mencionado perfil etário mais envelhecido desse grupo. No caso das tradições indígenas, essa taxa de analfabetismo superior é esperada, considerando que 74,5% desse grupo é de pessoas de cor ou raça indígena, que, como um todo, já apresenta taxa de analfabetismo mais elevada”, explica o analista Bruno Mandelli Perez.

Censo 2022 traz novas informações sobre tradições indígenas

Nesta edição, o Censo aperfeiçoou sua forma de captação das respostas sobre religiosidade nas terras indígenas ou agrupamentos indígenas. Enquanto, para a população em geral, a pergunta sobre religião foi: “Qual é sua religião ou culto?”, nas Terras Indígenas e nos Setores Censitários de agrupamentos indígenas, a redação do quesito foi alterada para “Qual a sua crença, ritual indígena ou religião?”.

Essa adaptação foi elaborada para o melhor entendimento desse grupo populacional específico, como explica Marta Antunes, coordenadora do Censo de Povos e Comunidades Tradicionais do IBGE. “As diversas expressões da religiosidade indígena foram reunidas em complexos rituais organizados por etnia ou povo praticante, permitindo assim um registro de crenças e rituais indígenas mais aprofundado”. Aí se incluem rituais de festas, danças e pinturas corporais de momentos rituais específicos, assim como rituais mais vinculados a um povo, como o ritual Yrerua, entre os Uru Eu Wau Wau, exemplifica Marta.

Mais detalhes sobre essa composição serão abordados nas divulgações definitivas dos resultados da amostra para os povos indígenas, prevista para o segundo semestre de 2025.

DESTAQUES DA PESQUISA

– De 2010 a 2022, de acordo com os dados do Censo Demográfico, houve redução do percentual de católicos apostólicos romanos (56,7%) e aumento de evangélicos (26,9%) e sem religião (9,3%). Em 2010, os católicos eram 65,1% da população de 10 anos ou mais, os evangélicos, 21,6%, enquanto os sem religião correspondiam a 7,9% dos declarantes.

– Entre os católicos, a diminuição foi de 8,4 pontos percentuais (p.p.) frente a 2010. Já a proporção de evangélicos e sem religião no país cresceu, respectivamente, 5,2 p.p. e 1,4 p.p.

– A religião espírita (1,8%) apresentou queda de 0,3 p.p. na comparação com 2010 (2,2%). Umbanda e candomblé, por outro lado, saíram de 0,3% em 2010 para 1,0% em 2022, um aumento de 0,7 p.p.

– Em 2022, o catolicismo liderou em todas as grandes regiões do país, com maior concentração no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%). Os evangélicos, por sua vez, estavam em maior proporção no Norte (36,8%) e no Centro-Oeste (31,4%).

– A maior concentração dos que se declararam espíritas era no Sudeste (2,7%), e os umbandistas e candomblecistas estavam mais presentes no Sul (1,6%) e no Sudeste (1,4%). O Sudeste (10,5%) também reunia a maior quantidade de pessoas sem religião.

–  Embora os católicos apostólicos romanos fossem maioria em todos os grupos de idade, a proporção desse grupo variou entre 52,0%, na faixa etária de 10 a 14 anos, a 72,0% na faixa etária de 80 anos ou mais.

– Em 2022, o catolicismo predominou em todas as categorias de cor ou raça, chegando a 60,2% entre as pessoas brancas. Pessoas de cor ou raça indígena apresentaram a maior proporção de evangélicos (32,2%). As maiores proporções de espíritas (3,2%), outras religiosidades (13,6%) e sem religião (16,2%) se encontravam entre pessoas de cor ou raça amarela.

– As tradições indígenas (24,6%) e os católicos (7,8%) foram os grupos religiosos que apresentaram as maiores taxas de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais. Já os grupos religiosos com as menores taxas de analfabetismo foram pessoas que se declararam espíritas (1,0%) e os umbandistas/candomblecistas (2,4%).

– Em 2022, os espíritas foram os que apresentaram a menor proporção de indivíduos sem instrução e com ensino fundamental incompleto (11,3%), e o maior percentual de nível superior completo (48,0%).

O avanço da influência religiosa e os riscos para a democracia brasileira

A cena política brasileira tem sido marcada, cada vez mais, pela presença ostensiva da religião — sobretudo do cristianismo evangélico pentecostal — como força modeladora de discursos, projetos de lei e estratégias eleitorais. A aliança entre lideranças religiosas e políticos da extrema direita vem alterando não só os rumos das eleições, mas também a própria lógica de funcionamento da democracia no país.

Não se trata de um fenômeno exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, pesquisa recente do Pew Research Center revelou que 80% da população adulta percebe um declínio da religião na vida pública, e metade considera isso negativo. O dado, por si só, já revela a tensão crescente em torno do lugar da religião na política — tensão que, por aqui, vem se aprofundando nos últimos anos.

No Brasil, a presença da religião no discurso político se tornou mais visível a partir das eleições de 2010, quando temas como aborto e direitos LGBTQIA+ dominaram os debates, impulsionando uma inédita articulação entre católicos e evangélicos no Congresso. Foi também o momento em que institutos de pesquisa passaram a segmentar o eleitorado com base na identidade religiosa, sinalizando uma inflexão na leitura do comportamento político nacional.

Desde então, o campo religioso cristão, especialmente os evangélicos pentecostais, ganhou protagonismo político. Esse crescimento não aconteceu no vácuo. A expansão das igrejas evangélicas nas periferias urbanas desde os anos 1990 — registrada por estudos como o “Novo Nascimento”, do Instituto de Estudos da Religião (ISER) — já apontava a politização crescente dos templos e sua relação com a vida cotidiana dos fiéis.

Mas o salto foi qualitativo a partir da Assembleia Constituinte de 1986, quando setores evangélicos começaram a se organizar institucionalmente, impulsionados por duas frentes: o avanço das agendas progressistas — especialmente no campo dos direitos humanos — e a tentativa de conter a influência da Igreja Católica no novo ordenamento constitucional.

A instrumentalização da fé por políticos e líderes religiosos passou, então, a operar como linguagem comum entre os anseios populares e as promessas de retorno à ordem, segurança e unidade nacional. Esse uso da religião — com forte apelo moralizante — se tornou pilar de um novo conservadorismo, alimentado pelas crises econômicas, sociais e institucionais do país.

Na prática, a aliança entre parlamentares ultraconservadores e religiosos promoveu uma agenda que vai além da moral sexual ou familiar. Ela se estende à educação, à segurança pública e à estrutura do Estado, estabelecendo um discurso de combate à “ideologia de gênero”, à “ameaça comunista” e a qualquer iniciativa que confronte os valores ditos cristãos tradicionais.

Esse movimento encontrou sua maior expressão com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Com apoio maciço de segmentos evangélicos, especialmente os pentecostais, Bolsonaro consolidou uma versão brasileira da chamada “direita cristã”, semelhante à observada nos EUA, marcada por um discurso providencialista, antipluralista e, muitas vezes, abertamente antidemocrático.

A religião, nesse contexto, é usada não como expressão de fé pessoal ou como valor civilizatório plural, mas como arma política para demonizar adversários, silenciar dissidências e impor uma moralidade única à sociedade. Trata-se, segundo especialistas, de um uso fundamentalista da fé — uma distorção que transforma princípios religiosos em ferramentas de dominação política.

Ainda assim, é importante não reduzir o campo evangélico a um bloco monolítico. Há divergências internas, iniciativas progressistas e reações a essa lógica instrumental. “O que o pastor diz não se traduz automaticamente no voto do fiel”, dizem estudiosos do tema. As experiências individuais, os medos, os sonhos e as vivências urbanas também moldam o comportamento político dos evangélicos.

O perigo, no entanto, reside na fusão entre religião e política como estratégia sistemática da extrema direita para capturar o Estado e moldar a sociedade à imagem de uma fé particular — excluindo, censurando e reprimindo tudo o que não se encaixa nesse molde. Um cenário que ameaça não só o princípio constitucional da laicidade, mas o próprio espírito democrático de convivência na diferença.

A democracia, para sobreviver, precisará reafirmar seus fundamentos: pluralismo, liberdade religiosa e separação entre Igreja e Estado. E, acima de tudo, precisará evitar que a fé — legítima enquanto expressão individual — continue sendo instrumentalizada como retórica de poder para justificar retrocessos sociais, morais e institucionais.

Católicos e evangélicos se unem contra pautas progressistas

Apesar de diferenças teológicas e doutrinárias históricas, católicos e evangélicos no Brasil têm consolidado uma aliança política cada vez mais eficaz — e preocupante — no combate a pautas progressistas como a descriminalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos. O movimento, que se intensificou nos últimos anos, é apontado por especialistas como um marco do neoconservadorismo religioso brasileiro.

Para a socióloga Ana Carolina Marsicano, doutora pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), essa união entre diferentes tradições cristãs configura uma “aliança programática”, motivada não por afinidade teológica, mas por objetivos políticos comuns. “É uma aliança por um bem maior, na perspectiva deles, que é impedir o avanço das agendas do movimento feminista, LGBTQIA+, das cotas raciais e das políticas redistributivas”, afirma a pesquisadora.

Marsicano estuda o tema há cinco anos e lançou, em 2024, a tese “Os leigos cristianizam o mundo”, que analisa como o catolicismo conservador influenciou políticas públicas nos governos de 2019 a 2022. O trabalho detalha a atuação política de figuras católicas no governo Bolsonaro e expõe uma camada menos visível — mas igualmente poderosa — do conservadorismo religioso no país.

Damares e Gandra: uma dobradinha estratégica

Durante o governo de Jair Bolsonaro, a aliança entre evangélicos e católicos foi materializada em cargos de alto escalão. A então ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves (Republicanos), representava o campo evangélico. Sua número dois, Angela Gandra — católica, advogada e filha do jurista Ives Gandra Martins — simbolizava o braço católico da operação. Gandra ocupou a Secretaria Nacional da Família e hoje atua na gestão de Ricardo Nunes (MDB), em São Paulo, como secretária de Relações Internacionais.

Para Marsicano, essa parceria foi essencial para o avanço da agenda ultraconservadora no país. “A dobradinha Damares e Angela Gandra foi fundamental para o avanço e a eficiência da política pró-vida e pró-família no governo Bolsonaro”, avalia.

Enquanto Damares tinha forte articulação legislativa e visibilidade midiática, Gandra atuava de forma mais discreta, mas com grande influência institucional e internacional. “Ela se articulava com organizações, acadêmicos e ativistas fora do Brasil e ampliava redes com frentes parlamentares pró-família em nível estadual e municipal”, explica a pesquisadora.

Catolicismo conservador ganha força e se renova

Ao contrário do que parte do debate público sugere, não são apenas os evangélicos que impulsionam a onda conservadora. Marsicano aponta que o catolicismo também passou por uma renovação interna, e sua ala mais conservadora se fortaleceu silenciosamente, com estratégias distintas das utilizadas por lideranças evangélicas midiáticas, como o pastor Silas Malafaia.

Segundo a socióloga, muitas análises se concentram apenas na atuação evangélica, o que gera uma falsa percepção de que o catolicismo seria neutro ou menos ativo. “Há uma perspectiva política que alimentou a ideia de que só os evangélicos representam uma ameaça à democracia. Isso é um erro de avaliação.”

A pesquisadora destaca figuras como a deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ), que combina fervor religioso com atuação militante agressiva no Congresso, como exemplos dessa nova face do catolicismo político. “O conservadorismo se beneficia dessa pluralidade de perfis. Tonietto atua na linha de frente, enquanto Angela Gandra atua nos bastidores institucionais. Ambas se somam e fortalecem a agenda comum.”

Uma cidadania sob disputa

No centro dessa aliança religiosa está a disputa por um modelo de sociedade e de cidadania. Segundo Marsicano, o neoconservadorismo religioso defende um ideal de família baseado na união heterossexual, indissolúvel e patriarcal — considerado “natural” por seus defensores. Qualquer questionamento a esse modelo seria visto como ameaça à ordem social.

Esse ideal tem implicações diretas na formulação de políticas públicas. Para setores católicos e evangélicos mais radicais, o fortalecimento da família tradicional substituiria a necessidade de políticas de assistência social. “Para eles, preservar a unidade familiar é suficiente, e investir em políticas sociais seria quase desnecessário ou mesmo prejudicial”, explica a socióloga.

Risco à democracia

A crescente influência desses grupos religiosos no Estado brasileiro reacende o debate sobre os limites entre fé e política. A laicidade — princípio constitucional que garante a separação entre Igreja e Estado — tem sido sistematicamente tensionada por discursos e práticas que buscam impor uma moralidade religiosa à sociedade como um todo.

Embora a fé religiosa seja um direito individual, sua instrumentalização política por grupos organizados representa um risco para o pluralismo democrático. A aliança entre católicos e evangélicos no campo conservador não é apenas reação a pautas progressistas, mas uma tentativa de moldar o país segundo um ideal religioso excludente, que silencia vozes divergentes e criminaliza diferenças.

Ao iluminar esse cenário, o trabalho de Ana Carolina Marsicano convida a sociedade a olhar com mais atenção para as novas formas de atuação política da religião — especialmente quando elas operam sob o véu da tradição, da moral e da família, mas com claros objetivos de poder.

O PECADO DA DECÊNCIA


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *