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Especial

MASSA DE MANOBRA

O analfabetismo funcional como combustível do autoritarismo

Publicado em 16/05/2025 5:23 - Semana On e Agência Brasil

Divulgação Semana On - IA

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Três em cada dez brasileiros com idade entre 15 e 64 anos não sabem ler e escrever ou sabem muito pouco a ponto de não conseguir compreender pequenas frases ou identificar números de telefones ou preços. São os chamados analfabetos funcionais. Esse grupo corresponde a 29% da população.

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Os dados são do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado no último dia 5, e acendem um alerta sobre a necessidade e importância de políticas públicas voltadas para reduzir essa desigualdade entre a população.

O Inaf traz ainda outro dado preocupante. Entre os jovens, o analfabetismo funcional aumentou. Enquanto em 2018, 14% dos jovens de 15 a 29 anos estavam na condição de analfabetos funcionais, em 2024, esse índice subiu para 16%. Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, o aumento pode ter ocorrido por causa da pandemia, período em que as escolas fecharam e muitos jovens ficaram sem aulas.

O indicador classifica as pessoas conforme o nível de alfabetismo com base em um teste aplicado a uma amostra representativa da população. Os níveis mais baixos, analfabeto e rudimentar, correspondem juntos ao analfabetismo funcional. O nível elementar é, sozinho, o alfabetismo elementar e, os níveis mais elevados, que são o intermediário e o proficiente correspondem ao alfabetismo consolidado.

Seguindo a classificação, a maior parcela da população, 36%, está no nível elementar, o que significa que compreende textos de extensão média, realizando pequenas inferências e resolve problemas envolvendo operações matemáticas básicas como soma, subtração, divisão e multiplicação.

Outras 35% estão no patamar do alfabetismo consolidado, mas apenas 10% de toda a população brasileira estão no topo, no nível proficiente.

Limitação grave

Segundo o coordenador da área de educação de jovens e adultos da Ação Educativa, uma das organizações responsáveis pelo indicador, Roberto Catelli, não ter domínio da leitura e escrita gera uma série de dificuldades e é “uma limitação muito grave”.

Ele defende que são necessárias políticas públicas para garantir maior igualdade entre a população.

“Um resultado melhor só pode ser alcançado com políticas públicas significativas no campo da educação e não só da educação, também na redução das desigualdades e nas condições de vida da população. Porque a gente vê que quando essa população continua nesse lugar, ela permanece numa exclusão que vai se mantendo e se reproduzindo ao longo dos anos”.

A pesquisa mostra ainda que mesmo entre as pessoas que estão trabalhando, a alfabetização é um problema: 27% dos trabalhadores do país são analfabetos funcionais, 34% atingem o nível elementar de alfabetismo e 40% têm níveis consolidados de alfabetismo.

Até mesmo entre aqueles com alto nível de escolaridade, com ensino superior ou mais, 12% são analfabetos funcionais. Outros 61% estão na outra ponta, no nível consolidado de alfabetização.

Desigualdades

Há também diferenças e desigualdades entre diferentes grupos da população. Entre os brancos, 28% são analfabetos funcionais e 41% estão no grupo de alfabetismo consolidado. Já entre a população negra, essas porcentagens são, respectivamente, 30% e 31%. Entre os amarelos e indígenas, 47% são analfabetos funcionais e a menor porcentagem, 19%, tem uma alfabetização consolidada.

Segundo a coordenadora do Observatório Fundação Itaú, Esmeralda Macana, entidade parceira na pesquisa, é preciso garantir educação de qualidade a toda a população para reverter esse quadro que considera preocupante. Ela defende ainda o aumento do ritmo e da abrangência das políticas públicas e ações:

“A gente vai precisar melhorar o ritmo de como estão acontecendo as coisas porque estamos já em um ambiente muito mais acelerado, em meio a tecnologias, à inteligência artificial”, diz. “E aumentar a qualidade. Precisamos garantir que as crianças, os jovens, os adolescentes que estão ainda, inclusive, no ensino fundamental, possam ter o aprendizado adequado para a sua idade e tudo aquilo que é esperado dentro da educação básica”, acrescenta.

Alunos mais pobres têm menor aprendizado em leitura

Os estudantes com menor nível socioeconômico (NSE) têm pior desempenho em leitura, e quase metade deles tem nível de aprendizado considerado “abaixo do básico”. No Brasil, enquanto 83,9% dos alunos do 4º ano do ensino fundamental com renda mais alta têm acesso a um aprendizado adequado em leitura, apenas um a cada quatro (26,1%) estudantes mais pobres alcança esse aprendizado.

A conclusão é da análise dos microdados do Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS), feita pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede). A diferença entre os dois grupos no Brasil é de 58 pontos percentuais, e é a maior entre os países participantes da avaliação com esses dados disponíveis.

O PIRLS foi realizado no Brasil pela primeira vez em 2021, e teve resultados gerais publicados em 2023, junto a outros 65 países e regiões do mundo. Agora, os pesquisadores se debruçam sobre os dados para entender como as desigualdades do país afastam os estudantes de um desempenho adequado em leitura.Os dados do estudo evidenciam, de acordo com o Iede, a grande desigualdade educacional do Brasil e comprovam como a aprendizagem é afetada pela condição socioeconômica dos estudantes.

No Brasil, apenas 5% dos estudantes têm nível socioeconômico alto, e são eles os estudantes com melhor desempenho. De forma simplificada, isso significa que eles são de famílias com renda igual ou superior a R$ 15 mil por mês.

Já a maioria (64%) vive em condições socioeconômicas menos favorecidas, ou seja, de famílias com renda abaixo de R$ 4 mil por mês. Entre eles, estão os piores desempenhos em leitura. Outros 31% têm NSE médio.

De acordo com o Iede, a diferença entre os dois grupos no Brasil é a maior entre os países participantes que têm dados disponíveis para esta questão. Atrás do Brasil, em segundo lugar, estão os Emirados Árabes Unidos, com uma diferença de 52 pontos percentuais, seguidos por Hungria e a região francesa da Bélgica, com 51 pontos percentuais.

O exame é aplicado a cada cinco anos pela Associação Internacional para Avaliação do Desempenho Educacional (IEA), e o Brasil participou pela primeira vez do estudo no ciclo de 2021, com uma amostra de escolas que abrangeu todo o território nacional.

O Inep operacionalizou a avaliação em uma amostra de 187 escolas (públicas e privadas), distribuídas por todas as regiões do Brasil. Mais de 4.900 alunos do 4º ano do ensino fundamental foram avaliados. Considerando todas as nações participantes do estudo, foram avaliados cerca de 400 mil estudantes, em mais de 13 mil escolas de 57 países.

Nível adequado de aprendizagem

A análise considera como o nível adequado de aprendizado ao menos o nível intermediário, pois entende que é a partir dele que haverá habilidades suficientes para que os estudantes desenvolvam aprendizagens futuras e se desenvolvam.

Esse nível, no entanto, está distante dos estudantes mais pobres. Entre os alunos de menor nível socioeconômico, quase metade (49%) está no patamar de aprendizado abaixo do básico. Já entre os alunos de NSE médio e alto, esse percentual cai para 16%. Para o diretor-fundador do Iede Ernesto Martins Faria os resultados acendem um alerta:

“Não é que não exista um cenário de boa aprendizagem no Brasil, existe, só que é para poucos. Isso tem que incomodar muito a gente. Por que tem um grupo pequeno que consegue chegar a um nível de aprendizagem competitivo em nível internacional, e por que, quando a gente olha para os [estudantes] de baixa renda, a situação de aprendizagem é tão complicada, inclusive com muitos alunos não chegando ao nível básico da avaliação?”

Importância da leitura

Os resultados gerais da última edição do estudo foram divulgados em 2023 e mostraram, em média, que quase 40% dos estudantes brasileiros do 4º ano não dominam habilidades básicas de leitura, ou seja, apresentam dificuldades em recuperar e reproduzir parte da informação declarada no texto. Segundo Faria, a habilidade em leitura é a que vai gerar autonomia para os estudantes em diversas disciplinas.

“Quando a gente está falando de leitura, a gente não tá falando de uma disciplina específica. A gente tá falando de uma competência que é basilar, que é semelhante à matemática, à resolução de problemas. Então, a partir da leitura, você vai poder desenvolver várias competências. Isso vale para a língua portuguesa, mas vale para as ciências sociais, vale para as ciências naturais, vale para a criança poder viver bem em sociedade, se desenvolver”, diz.

O diretor-fundador do Iede diz que o objetivo de analisar detalhadamente os microdados é “dar visibilidade às desigualdades que existem, tanto no Brasil como em outros países. A gente não pode ter um olhar geral só para a média, que é a situação do país, mas [é preciso olhar] para como estão os vulneráveis, como estão os alunos desfavorecidos”.

Outras desigualdades

A análise do Iede mostra ainda que há diferença de proficiência em leitura entre os gêneros. As maiores diferenças estão entre os alunos com desempenho abaixo do básico. O percentual de alunos brasileiros do sexo masculino com desempenho abaixo do básico em leitura (44,1%) é superior ao das meninas (33,3%).

Entre os alunos com alto desempenho, a diferença é menor, mas ainda se mantém. Entre os meninos, 9,7% estão nesse grupo, já entre as meninas, 12,7% alcançam o nível de alto desempenho.

Os dados mostram também diferenças entre aqueles que tiveram contato com a leitura antes do ensino fundamental e aqueles que não tiveram esse contato. Segundo a análise, entre os que tiveram contato frequente com a leitura antes desta etapa, 49,7% alcançaram o patamar de aprendizado adequado. Já aqueles que disseram que tinham esse contato “às vezes”, a porcentagem cai para 36%.

Os pais e responsáveis terem o hábito de ler também influencia a habilidade de leitura das crianças. Entre aqueles cujos pais responderam “não gostar de ler”, o percentual de aprendizado adequado em leitura foi de 32,6%. Já os filhos de pais que dizem “gostar muito de ler”, 47,6% tiveram um aprendizado adequado em leitura.

Segundo Faria, os dados mostram a necessidade de o país ter mais políticas voltadas para a redução de desigualdades que visem, por exemplo, levar mais recursos para regiões mais vulneráveis e estimular que essas regiões tenham bons professores.

“O Brasil tem que dar cada vez mais intencionalidade para políticas que olham para a equidade”, defende. “Não só recursos, mas como a gente consegue que bons professores vão para áreas socioeconômicas mais vulneráveis e como garantir melhor infraestrutura em escolas que atendem alunos de baixo nível socioeconômico? [Precisamos] ter políticas educacionais que direcionem recursos visando a equidade”.

Analfabetismo digital e midiático

Em um cenário marcado pela explosão de fake news, discursos de ódio e manipulação midiática, o Brasil se vê diante de um problema estrutural que ultrapassa o analfabetismo formal e mergulha na esfera do analfabetismo funcional e midiático. Mais grave do que não saber ler, é saber ler sem entender — ou pior, entender o que se quer, ignorando o que é, de fato, realidade.

Os dados do Inaf mostram que quse 1/3 dos brasileiros não conseguem diferenciar fato de opinião, notícia de boato, informação de desinformação. Esse cenário não é apenas uma tragédia educacional. É uma ameaça direta à democracia. Como destacou a filósofa Marilena Chauí, “não há democracia sem cidadãos. E não há cidadãos sem educação crítica”. Quando parte da população é mantida na ignorância interpretativa, abre-se espaço para que discursos autoritários e populistas ocupem o vazio crítico com promessas fáceis, soluções mágicas e inimigos inventados.

Se o analfabetismo funcional já é um entrave à cidadania, o analfabetismo midiático, agravado pela lógica dos algoritmos das redes sociais, potencializa o risco. Como observou o sociólogo Zygmunt Bauman, “o excesso de informação não gera mais sabedoria, mas sim mais ruído”.

A bolha digital é o ambiente perfeito para que as crenças pessoais sejam reforçadas sem contestação. No ambiente do Whatsapp ou do Telegram, verdades deixam de ser aquilo que corresponde aos fatos para se tornarem aquilo que valida minha identidade de grupo. O fenômeno é descrito pela psicologia social como viés de confirmação: tendemos a aceitar apenas informações que confirmam aquilo em que já acreditamos.

E há mais. O “like” se tornou um combustível emocional que reforça a disseminação acrítica de conteúdos. Compartilha-se uma notícia falsa não necessariamente por acreditar nela, mas porque ela garante status simbólico, afeto e pertencimento em círculos sociais.

No Brasil, país atravessado por um preconceito estrutural histórico, é comum confundir burrice com a ausência de escolaridade formal ou com padrões de linguagem normatizados. Mas como bem destaca o texto que inspira esta reportagem, burrice não é não saber escrever certo ou não ter doutorado. Burrice é desprezar o conhecimento, odiar quem busca saber mais, alimentar o preconceito contra o saber científico, contra a dúvida metódica, contra o debate público saudável.

E é essa burrice prepotente que tem sido explorada por líderes autoritários no mundo inteiro. De Trump a Bolsonaro, passando por líderes ultradireitistas na Europa, o que se vende é uma narrativa anti-intelectual, anti-ciência, anti-pensamento crítico. Vende-se o orgulho da ignorância.

A alfabetização midiática como trincheira democrática

Diante desse quadro, o letramento midiático emerge como uma urgência civilizatória. Não se trata de censura ou de determinar o que é verdade ou mentira por decreto. Trata-se de oferecer às pessoas ferramentas para que elas mesmas possam fazer essa distinção com autonomia, responsabilidade e ética.

Segundo a UNESCO, a educação midiática e informacional é um direito humano fundamental e deve ser integrada desde o ensino básico. No entanto, o Brasil ainda engatinha nessa direção. Apesar de iniciativas pontuais em escolas públicas e ONGs, o tema permanece ausente de currículos formais, reforçando a lacuna entre o consumo acrítico de informações e o exercício da cidadania plena.

Se houvesse um manual de conduta para o ambiente digital, ele incluiria preceitos simples, mas fundamentais:

1 Não compartilhe sem checar a fonte;

2 Não divulgue notícias sem indicar a origem primária;

3 Desconfie de conteúdos apócrifos e sem autoria clara;

4 Lembre-se: informação precede opinião;

5 Reconheça publicamente seus erros ao disseminar fake news;

6 Valorize mais a qualidade da informação do que a velocidade ou o número de curtidas.

Da ignorância ao autoritarismo

A burrice prepotente não apenas convive com o indivíduo, mas mata o futuro. O fascismo do século XXI não precisa necessariamente de campos de concentração ou tanques nas ruas. Ele se alastra por correntes de zap, por vídeos virais, por fake news sofisticadas e bem embaladas.

Como advertiu Timothy Snyder, historiador de Yale, “a pós-verdade é o pré-fascismo” ([Snyder, T., Sobre a Tirania, 2017]). Quando aceitamos que cada grupo tem sua “verdade” sem necessidade de diálogo, o terreno está pronto para a eliminação do outro — e, com ele, da própria democracia.

Cabe ao Estado, às escolas, aos veículos de imprensa sérios, às universidades e à sociedade civil organizada assumir a responsabilidade de construir uma cultura de letramento midiático e funcional. Não para determinar o que é certo ou errado, mas para garantir que as pessoas tenham as ferramentas para pensar por conta própria — e para não serem massa de manobra de quem lucra com a desinformação.

A liberdade de expressão, como sempre lembrava Umberto Eco, “não é a liberdade de dizer qualquer bobagem sem consequências. É a liberdade de buscar a verdade com responsabilidade” ([Eco, U., A Vertigem das Listas, 2009]).

Em tempos de ultrapolarização burra, onde o “outro lado” é visto não como alguém com quem se debate, mas como inimigo a ser destruído, educar para a dúvida, para a escuta, para a convivência com a diferença é o maior ato de resistência democrática.

Porque, no fim, como sabiamente conclui o texto que originou esta reflexão: falta amor no mundo, mas falta também interpretação de texto. E, diante da dúvida, talvez seja mesmo mais ético compartilhar nudes do que espalhar ódio travestido de opinião.

O resultado da ignorância

A recente prisão da brasileira Vanessa dos Santos Lima, em Boston, acusada pela polícia local de “agitação política em área federal”, expõe muito mais do que uma aplicação severa da lei norte-americana. Expõe, sobretudo, os ventos de uma repressão seletiva que, sob o pretexto da ordem, mira imigrantes, dissidentes, minorias políticas, ecoando práticas conhecidas das polícias políticas dos regimes totalitários do século XX.

A máquina repressiva que hoje ressurge sob a estética trumpista guarda semelhanças inquietantes com a Gestapo, na Alemanha nazista, a KGB soviética ou mesmo o DOPS brasileiro durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Todos esses aparelhos partilhavam de um mesmo princípio: sufocar, pela força bruta ou pelo medo difuso, qualquer dissidência que ameaçasse o projeto de poder dominante.

Como bem alerta o historiador Timothy Snyder, em seu livro Sobre a tirania (Companhia das Letras, 2017), “a política da inevitabilidade gera complacência, enquanto a política da eternidade gera medo”. O que vemos hoje nos Estados Unidos trumpistas e no Brasil bolsonarista é uma combinação perversa dessas duas políticas: a banalização do autoritarismo como destino inevitável, ao lado da fabricação de inimigos internos — sejam eles imigrantes, professores, artistas, jornalistas ou cientistas.

Mas, como essas engrenagens se mantêm ativas em sociedades formalmente democráticas? Aqui entra o elemento mais silencioso — e fatal — de todos: o analfabetismo funcional.

Os dados do Inaf apontam não apenas a ineficiência histórica de políticas públicas de educação, mas, sobretudo, o sucesso de um projeto mais profundo e sinistro: manter a maioria da população incapaz de compreender criticamente o mundo que a cerca.

É essa incapacidade que alimenta o populismo autoritário. Cidadãos sem autonomia de pensamento tornam-se presas fáceis de discursos fáceis. Como bem descreve o filósofo Umberto Eco, em “O fascismo eterno” (1995), “para o fascismo, pensar é uma forma de desobediência”. Logo, manter as massas sem acesso ao pensamento crítico é uma estratégia de dominação tão eficaz quanto a censura explícita.

Esse cenário alimenta o que a socióloga Marilena Chauí denomina como “violência simbólica”, em que a opressão se dá não apenas pela repressão física, mas pela manipulação da linguagem, dos símbolos, das narrativas. A desinformação, as fake news, os discursos de ódio disfarçados de “liberdade de expressão” prosperam exatamente nesse solo árido de letramento crítico.

Durante a pandemia da Covid-19, vimos as consequências práticas desse fenômeno. A adesão de parcelas significativas da população brasileira — e mundial — a teorias conspiratórias, curas milagrosas e discursos negacionistas não foi um acidente. Foi o produto de décadas de abandono educacional, deliberadamente promovido por elites políticas e econômicas que compreendem muito bem que uma população sem capacidade de interpretar gráficos, estudos científicos ou discursos políticos não questiona, apenas obedece.

E quando obedece, aceita prisões arbitrárias, normaliza o uso político das polícias, e, mais grave ainda, vota em quem promete a “limpeza” do país — seja ela de imigrantes, de opositores, de artistas ou de qualquer um que ouse discordar do novo padrão moral imposto.

Como nos alertava o filósofo Karl Popper, em A sociedade aberta e seus inimigos (1945): “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Mas como vigiar e defender a liberdade se parte considerável da população sequer compreende o que está em jogo? Se não entende o funcionamento das instituições, o peso da Constituição, ou mesmo as implicações de suas escolhas políticas?

A democracia, sem letramento crítico, é apenas uma casca vazia, pronta para ser ocupada por regimes que mantêm a fachada do voto, mas esvaziam sua substância.

Portanto, mais do que denunciar a escalada repressiva da extrema direita — nos EUA, no Brasil ou onde quer que ela se manifeste —, é urgente compreendermos que o combate ao analfabetismo funcional é uma trincheira essencial da luta democrática e progressista. Não há projeto de emancipação popular que sobreviva sem a democratização radical do acesso ao conhecimento, à cultura, ao pensamento crítico.

É tarefa da esquerda, do centro progressista, dos movimentos sociais, das universidades e de toda sociedade civil comprometida com a liberdade e a justiça social assumir essa frente de batalha.

Pois, como já dizia Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido (1968): “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. E quem não lê o mundo, repete sem saber as ordens do opressor.

UM PAPA DA RESISTÊNCIA


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