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Especial

INFERNO VERDE

Brasil desmatou 33% de toda sua vegetação nativa

Publicado em 23/08/2024 10:56 - Nádia Pontes, Maurício Frighetto e Iolanda Paz (DW), Agência Brasil, Lucas Pordeus León (Abr) – Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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O Brasil devastou 33% de toda sua vegetação nativa até 2023. O país registrou um aumento de 13% de perda histórica de áreas naturais nos últimos 39 anos. De todos os seus cinco biomas, os que tiveram o maior desmatamento desde 1985 foram a Amazônia e o Cerrado, que perderam 55 milhões de hectares e 38 milhões de hectares, respectivamente, seguidos por Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Proporcionalmente em relação ao próprio tamanho, as maiores perdas de vegetação nativa foram registradas no Pampa (28%), seguido pelo Cerrado (27%). Na sequência, vêm a Amazônia (14%), a Caatinga (14%), o Pantanal (13%) e a Mata Atlântica (10%).

Os dados, divulgados nesta quarta-feira (21/08), fazem parte da mais recente análise feita pelo MapBiomas, rede de pesquisadores ligados a universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitoram as transformações do uso do solo em território nacional. Para o levantamento, foram utilizadas imagens de satélite a partir de 1985. Nesses últimos 39 anos, metade de toda a perda de vegetação nativa no país se deu na Amazônia.

Segundo o pesquisador Eduardo Velez, do MapBiomas, o corte da vegetação nativa diminui também a proteção das cidades aos impactos dos eventos climáticos extremos, como grandes enchentes. “Esses dados são importantes para a discussão pública que temos que fazer sobre o quanto o país está preparado para enfrentar os riscos das mudanças climáticas”, adiciona.

“A perda da vegetação nativa nos biomas brasileiros tende a impactar negativamente a dinâmica do clima regional e diminui o efeito protetor durante eventos climáticos extremos”, explica o coordenador geral do MapBiomas, Tasso Azevedo.

Foto: Marcelo Camargo – Abr

Em que a mata se transformou

No período analisado, o corte da mata nativa se deu principalmente em propriedades privadas – 81% do total. A principal força motriz foi a agropecuária: a área de pastagem cresceu 79% em relação a 1985. Atualmente, a atividade ocupa 2,7 milhões de quilômetros quadrados (km²) no país, o equivalente a 7,5 vezes o tamanho da Alemanha.

No Pantanal, que registrou sua última grande alagação em 2018, a agropecuária tem avançado rumo ao interior. Tradicionalmente, os campos nativos do bioma eram os mais usados na agropecuária. Nos últimos anos, com a seca, a vegetação nativa tem sido removida por completo para dar lugar a pastagem com plantio de espécies exóticas.

Nas últimas quatro décadas, a área ocupada pela agropecuária saiu de 5% para 17% no Pantanal. Proporcionalmente, o maior crescimento desta atividade foi na Amazônia: saiu de 3% para 16%.

Onde a mata é menos desmatada

O levantamento do MapBiomas mostrou que os locais mais preservados no Brasil estão dentro de Terras Indígenas (TIs). Elas totalizam 784 em diferentes fases de reconhecimento e se espalham por 13% do país. Mais de 200 TIs aguardam a demarcação, afirma a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

De 1985 a 2023, esses territórios mantiveram 99% da vegetação nativa original, com desmatamento ínfimo. A maior parte deles está na Amazônia. Nas florestas públicas não destinadas, aquelas que seguem sob domínio da União, estados ou municípios e ainda não tiveram uma finalidade definida, cerca de 92% da mata original segue intacta. Por outro lado, essas áreas são um dos maiores alvos de grileiros, que invadem as terras, desmatam e lucram com agropecuária ou especulação imobiliária.

“Essa são mais suscetíveis ao desmatamento em relação às florestas que estão sob algum regime de proteção. É importante e urgente destinar essas áreas e transformá-las em territórios protegidos”, argumenta Luis Oliveira, da equipe da Amazônia do MapBiomas.

Um projeto em tramitação no Congresso Nacional de autoria do senador José Serra estabelece que essas áreas florestais públicas sem destinação sejam convertidas em unidades de conservação, TIs ou de usufruto de comunidades locais. O texto propõe ainda que sejam concedidas para exploração florestal sustentável quando o direito de seu uso for direcionado à uma pessoa jurídica.

Áreas privadas

As áreas naturais sofreram maior impacto em propriedades privadas, onde a perda foi de 28% em 39 anos. No total de 281 milhões de hectares convertidos pela ação do homem até 2023, 60% está em propriedades privadas. Houve uma expansão de 228% das áreas que foram convertidas em agricultura e 76% nas que passaram a ser pastagem, depois de 1985.

Quando o relevo é analisado, foi observada uma diferença entre a zona rural e áreas urbanas. Terras mais planas foram mais afetadas no campo, onde regiões com inclinação de 0 a 3% perderam 20% de sua cobertura nativa. Já nas zonas urbanas, as áreas de encostas, com inclinação superior a 30%, foram as que sofreram redução da vegetação nativa, uma média de 3,3% ao ano.

“Essa informação sobre a declividade pode ser um dos fatores para entendimento de outros processos como os erosivos, deslizamentos, infiltração da água no solo. Então, quando a gente pensa em risco climático, o tipo de terreno também é fundamental para pensar em zoneamento e áreas destinadas à conservação”, conclui a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e da Mapbiomas, Bárbara Costa.

Onde a vegetação cresceu

É a primeira vez que o MapBiomas detalhou o ganho de vegetação nativa nas cidades brasileiras. Como recorte para a análise foi escolhido o ano de 2008, quando uma mudança na lei permitiu que multas fossem aplicadas em caso de descumprimento do antigo Código Florestal, alterado em 2012. No mesmo ano, o Fundo Amazônia era instituído com o objetivo de combater o desmatamento no maior bioma brasileiro.

Desde então, a vegetação nativa voltou a crescer em 37% dos 5.570 municípios do país. O maior crescimento foi naqueles que estão dentro do bioma Mata Atlântica – o mais devastado historicamente em termos proporcionais.

Ao mesmo tempo, em quase metade das cidades (45%) não há o que comemorar: elas registraram mais perdas acentuadas de vegetação no período. Os estados com maior destaque nesse ranking negativo são Rondônia, Tocantins e Maranhão.

Nas áreas urbanas, onde a maior parte das superfícies planas já estão ocupadas, a expansão segue rumo às encostas. A atual coleção do MapBiomas mostra que o crescimento anual da ocupação nessas áreas é de 3,3% ao ano – o que aumenta o risco de desastres e mortes em eventos climáticos extremos, como chuvas intensas.

Florestas públicas

Pela primeira vez, foi realizado um recorte na perda de cobertura vegetal das florestas públicas não destinadas, ou seja, aquelas em que a União ainda não definiu o uso da terra, como Unidades de Conservação, Terras Indígenas e concessões florestais e que representam 13% da Amazônia Legal. Atualmente, essas florestas ainda mantêm 92% de sua área coberta por vegetação nativa.

Já nas florestas públicas destinadas, as Terras Indígenas são as áreas mais preservadas no país, onde a perda de vegetação nativa foi equivalente a menos de 1% em 39 anos. Elas correspondem a 13% de todo o território nacional.

Recifes de corais aparecem no mapa

Os recifes de corais de águas rasas foram incluídos pelos pesquisadores no atual levantamento. Essas estruturas espalhadas ao longo da costa brasileiras podem ser detectadas por satélites equipados com sensores óticos, afirmam os especialistas. Foram localizados 204 km² de recifes, com predominância em unidades de conservação, 72%, com destaque a Área de Proteção Ambiental Ponta da Baleia / Abrolhos.

Os oceanos não escapam aos efeitos das mudanças climáticas, lembra Cesar Diniz, oceanógrafo e coordenador técnico do mapeamento costeiro da rede. Em 2023, o Atlântico esteve 2°C mais quente do que o registrado na média histórica ao longo de toda a costa brasileira.

“Isso leva ao aumento das chuvas no país, diminuição da quantidade de oxigênio dissolvido em água, elevação das temperaturas continentais. Mas, para além desses, gera um evento massivo de branqueamento de corais”, pontua Diniz à DW a importância de entender a presença destas estruturas.

Estudos calculam que 25% de toda a vida existente nos oceanos dependam de corais.

Como o consumo no Brasil afeta o desmatamento da Amazônia

O desmatamento da Amazônia provoca impactos no mundo, como a redução de chuvas em algumas regiões e o aquecimento global. Geralmente, a perda de cobertura vegetal é associada principalmente à exportação de commodities. Um estudo mostrou, no entanto, que o consumo no Brasil, principalmente de produtos da agropecuária no Centro-Sul, é o motor da destruição do bioma.

O Centro-Sul compreende os estados do Sul e Sudeste, além de Goiás, Mato Grosso do Sul, DF e fatias do Tocantins e Mato Grosso.

O artigo Economic drivers of deforestation in the Brazilian Legal Amazon (“Pressões econômicas do desmatamento na Amazônia Legal Brasileira”, na tradução livre para o português), publicado no fim de junho na revista Nature Sustainability, relacionou a supressão da floresta ao consumo. A pesquisa mostrou que 83,17% do desmatamento foi provocado por demandas de fora da região, sendo 59,68% do restante do Brasil e 23,49% do exterior.

A Amazônia Legal se estende por nove estados brasileiros: Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso.

“A principal mensagem do trabalho é que as relações da Amazônia com o restante do país geram um potencial para o desmatamento”, afirma Eduardo Amaral Haddad, professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e autor principal do estudo.

“Até então grande parte da literatura tinha focado nas relações comerciais com outros países. Mas havia algum indício de que o comércio com o restante do Brasil, principalmente com o Centro-Sul, a parte mais rica do país, pudesse exercer algum tipo de pressão econômica sobre o desmatamento”, explica o professor. Segundo Haddad, essa relação foi quantificada pela primeira vez.

Uma fotografia de 2015

A metodologia da pesquisa foi baseada em uma grande quantidade de dados de oferta e demanda de produtos em diversos setores, que estavam documentados em sua totalidade apenas até 2015. Por isso, Haddad salientou que os resultados são uma espécie de “fotografia de 2015”, embora a estrutura econômica brasileira tenha mudado muito pouco desde então.

Naquele ano, foram desmatados 1,54 milhão de hectares na Amazônia Legal, representando mais de 60% da supressão de florestas no Brasil. A principal causa do desflorestamento na região foi a pecuária (93,4%), seguida pela agricultura (6,4%) e mineração (0,2%).

Com os dados do desmatamento, os pesquisadores tinham a informação de qual setor estava associado à mudança do uso da terra. Determinada área de floresta havia virado pasto, outra fora transformada em cultivo, enquanto algumas passaram a ser usadas pela mineração. “Só que quando é produzido soja ou gado, tem que ter uma demanda, alguém precisa consumir. Com esta técnica, conseguimos definir a origem da demanda, seja direta ou indireta”, informou o professor da FEA-USP.

Atualmente, a Amazônia Legal atua fornecendo bens e serviços intensivos em uso da terra e de baixo valor agregado para economias nacionais e internacionais, ao mesmo tempo em que compra bens e serviços com maior valor agregado.

Rafael Feltran-Barbieri, economista sênior, pesquisador do World Resources Institute (WRI) e um dos autores do estudo, chamou a atenção para o peso do consumo de carne e seus derivados no resultado para o mercado interno. “A pecuária (carne, couro e laticínios) responde por mais de 90% do desmatamento na Amazônia. E mais de 80% do mercado de bovinos da pecuária da Amazônia é consumida no Brasil.”

Responsabilidade internacional

Embora o mercado interno tenha um peso maior no desmatamento da Amazônia, a responsabilidade internacional é tão importante quanto a nacional. “Primeiro, porque parte significativa dos grandes frigoríficos e varejistas no Brasil tem de 30 a 40% de recurso estrangeiro. Então o fato de o mercado doméstico ter este grande impacto não significa que não exista uma responsabilidade internacional pelo investimento nesses produtos e nesses setores sem preocupação com o que as pessoas do Brasil estão consumindo”, analisou Feltran-Barbieri

O segundo ponto, continuou o pesquisador, é que o mercado internacional gera uma intensidade maior no desmatamento. “Para cada dólar exportado há mais desmatamento do que cada dólar consumido no Brasil. Porque a Amazônia Legal também interage comercialmente com o Brasil através de outros produtos que não estão relacionados com o desmatamento. Já Europa, Estados Unidos, China e Japão compram puramente commodities, que são mais intensivas em desmatamento.”

O estudo mostra, de acordo com Feltran-Barbieri, que a rastreabilidade dos produtos da região, ou seja, a possibilidade de saber de onde é determinado produto, é muito frágil. E além do impacto no meio ambiente, essa fragilidade tem implicações sanitárias e fiscais.

“Se não tem rastreabilidade da produção que circula no Brasil, você perde a capacidade de ter segurança sanitária, porque na mesma fronteira interestadual em que passa o boi que desmatou pode estar passando o boi que não está sendo tratado de forma correta nos parâmetros do saneamento. E esse mesmo boi pode estar sonegando imposto. Dessa forma o Estado perde a capacidade de angariar impostos”, defende.

Políticas públicas

O resultado do estudo, para o professor Eduardo Amaral Haddad, pode trazer uma consciência para os consumidores brasileiros. “Temos que olhar para dentro também. Somos parte desse complexo problema.” Hoje, no entanto, há pouca possibilidade de saber a origem dos produtos e, principalmente, sua ligação com o desmatamento.

Além disso, a pesquisa pode ajudar a pensar políticas públicas voltadas para diminuir o desmatamento da Amazônia. A reforma tributária, no entanto, cuja regulamentação está sendo discutida no Congresso, tem o potencial de gerar ainda mais pressão sobre o meio ambiente, avaliou Haddad.

Isso porque muitos produtos da agropecuária, como a carne e seus derivados, devem ter isenções de impostos, mesmo que sejam os maiores causadores do desmatamento e os maiores emissores de gases do efeito estufa – e, consequentemente, do aquecimento global.

Humanidade já consumiu todos recursos naturais para 2024

A humanidade entrou nesta quinta-feira (01/08) no “cheque especial ecológico”, após esgotar os recursos do planeta disponíveis para este ano, alerta a ONG Global Footprint Network.

O chamado Dia da Sobrecarga do Planeta (Overshoot Day) chegou um dia mais cedo do que no ano passado e assinala o momento em que a necessidade de recursos e serviços ambientais por parte da humanidade excede a capacidade da Terra para renovar esses mesmos recursos. A partir de agora, a humanidade vai viver da sobreutilização desses recursos, esgotando ainda mais a biosfera.

O Dia da Sobrecarga da Terra é uma média global que, com poucas exceções, está chegando cada vez mais cedo. Em 1971, por exemplo, ele aconteceu no dia 25 de dezembro. No ano 2000, em 17 de setembro. Em 2023, no dia 2 de agosto.

Já a mesma marca recorde desta quinta-feira já havia sido atingida antes em 2018 e 2022.

Como explica um comunicado da associação ambientalista Zero, a partir de hoje é preciso usar recursos naturais que só deveriam ser usados a partir de 1° de janeiro de 2025, o que significa que os humanos estão usando 1,7 planetas, ou seja, mais 70% do que a natureza oferece anualmente.

Se toda a humanidade tivesse o mesmo padrão de consumo da população brasileira, em 2024, o Dia da Sobrecarga da Terra aconteceria em 4 de agosto. No caso da Alemanha, seria em 2 de maio. Já considerando os Estados Unidos, no dia 14 de março. E se todos os países vivessem como a Alemanha, seriam necessárias 3 Terras. Se vivêssemos como os Estados Unidos, 5 Terras.

Essa sobrecarga ecológica compromete a segurança dos recursos naturais. E as consequências são evidentes no desmatamento, na erosão dos solos, na perda da biodiversidade e no acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera — o que leva ainda a fenômenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e à redução da produção alimentar.

Lewis Akenji, membro da direção da Global Footprint Network, afirma em comunicado: “A sobrecarga da Terra vai acabar. A questão é saber como: por projeto ou por desastre. Uma transição planejada nos daria mais segurança do que ceder aos caprichos de um planeta desequilibrado pela sobrecarga”.

Entenda estudo da Nasa sobre ‘Brasil inabitável’ em 50 anos

Um estudo citado pela Nasa – agência pública espacial dos Estados Unidos (EUA) – repercutiu nos últimos dias na imprensa brasileira ao prever que áreas do Brasil poderiam ficar inabitáveis até 2070 devido ao calor extremo provocado pelas mudanças climáticas.

Liderada pelo cientista Colin Raymond, a pesquisa foi publicada em 2020 na Science Advances, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo. Porém, no estudo original não aparece o Brasil. Em março de 2022, um blog da Nasa repercutiu o estudo com Colin, que é funcionário da agência especial. O texto do blog cita o Brasil como uma das regiões vulneráveis aos calores mortais.

No estudo original, foram mapeados eventos de calor extremo, entre 1979 e 2017, nos quais a umidade do ar alta e as temperaturas acima de 35ºC impedem que o suor atue resfriando nosso corpo, trazendo risco de morte para as pessoas.

O climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas brasileiros sobre o tema, disse que esse estudo é muito conhecido no meio científico e que previsões como essas começaram a ser feitas desde 2010, pelo menos.

“Já avançamos muito nessas pesquisas. Hoje, esses limites estão muito melhor computados e esse artigo dos estudos da Nasa de 2020 se tornou muito importante. E não é só o Brasil, tá? É uma imensa parte das regiões tropicais e até mesmo latitudes médias que podem ficar inabitáveis se a temperatura chegar nesse nível de 4º C ou mais”, afirmou o cientista.

Os 4ºC a mais citados por Nobre se referem a uma temperatura acima da média dos níveis pré-industriais. Para evitar chegar nesse ponto, o Acordo de Paris se comprometeu a combater o aquecimento global “em bem menos de 2º C acima dos níveis pré-industriais”, buscando preferencialmente limitá-lo a 1,5ºC acima dos níveis antes da revolução industrial.

Para o líder científico em Soluções Climáticas Naturais da The Nature Conservancy (TNC), Fernando Cesario, o estudo citado pela Nasa antecipa – para daqui a 30 ou 50 anos – o aumento da ocorrência de eventos extremos, com calor que pode levar à morte.

“Os estudos antigos mostravam que a gente só ia atingir esses níveis daqui a 100 anos, daqui a 200 anos. E o que ele mostra é que essa probabilidade, essa janela de perigo, de ter áreas muito quentes e úmidas, está mais próxima do que a gente imaginava”, completou.

O geógrafo citou que as áreas no país com mais probabilidade de registrar eventos de calor fatal são as regiões costeiras brasileiras; as áreas muito urbanizadas como Rio de Janeiro e São Paulo, onde há muito asfalto; áreas próximas de grandes lagos ou baías, como a Baia de Todos-os-Santos, na Bahia; e em volta do Rio Amazonas, onde a evaporação da água é muito alta.

Foto: José Cruz – Abr

Calor extremo

O levantamento do cientista norte-americano mostrou que, em 40 anos, triplicou o número de casos de calor extremo que podem levar à morte devido a alta umidade. Regiões como Paquistão, Oriente Médio e o litoral do Sudoeste da América do Norte estão entre as que mais registraram esses momentos de calor extremo.

Ainda segundo Nobre, se o aquecimento da Terra não for revertido, além dos gases que emitimos com fábricas, carros e aviões, os oceanos e as geleiras poderiam emitir quantidades enormes de gases que elevariam a temperatura a 8 ou 10ºC acima dos níveis pré-industriais a partir do ano de 2100.

“Com isso, praticamente o planeta todo se torna inabitável. Os únicos lugares habitáveis para o corpo humano serão o topo de montanhas como os Alpes, a Antártica e o Ártico”, alertou.

Estresse térmico

Nos EUA, o calor foi a principal causa de morte relacionada ao clima entre 1991 e 2020. Enquanto o calor matou, em média, 143 pessoas no país norte-americano ao ano, as enchentes tiraram a vida de 85 pessoas todos os anos e os tornados tiraram a vida de 69 pessoas na média anual desses 30 anos.

O especialista Carlos Nobre destacou que a alta umidade e o calor podem estressar o corpo e levar à morte. “Nessas situações-limite, uma pessoa muito idosa ou um bebê resistem só meia hora. Uma pessoa adulta pode morrer em duas horas. Se durar um pouquinho mais que duas horas, ainda assim, vai ficar muito doente. Então, este é o estresse térmico que o estudo mostra, que pode tornar uma região inabitável”, completou.

Outro estudo, liderado pelo cientista Camilo Mora, da Universidade do Havaí, encontrou 783 casos de calor extremo com morte em 164 cidades e 36 países. Segundo a pesquisa, 30% da população mundial está exposta a situações limites de calor em pelo menos 20 dias ao ano.

Até 2100, esta percentagem deve aumentar para 48% em um cenário com reduções drásticas das emissões de gases de efeito estufa e 74% num cenário de emissões crescentes. Uma ameaça crescente à vida humana proveniente do excesso de calor agora parece quase inevitável, mas será muito agravada se os gases com efeito de estufa não forem consideravelmente reduzidos”, afirma a pesquisa publicada na Nature Climate Change, em 2017.

Notícias alarmantes 

O líder científico da TNC, organização não governamental ligada à preservação ambiental, Fernando Cesario, avalia que o estudo é embasado, mas que as manchetes da mídia brasileira exageram os dados repassados pela Nasa.

“Achei as notícias muito alarmantes. Essas ocorrências que ele mediu são localizadas, não pega o Brasil inteiro, pega algumas faixas dentro do território e duram menos de duas horas, porque o clima é muito dinâmico. Isso não invalida a emergência climática que estamos vivendo”, afirmou.

“[O estudo] mapeou eventos pontuais e de menos de duas horas. Mas se a gente continuar jogando CO2 para atmosfera e o planeta aquecendo, é muito provável que aumente a frequência desses eventos e seu tempo de duração. Isso traz risco para a saúde humana”, completou.

Soluções 

A redução drástica na emissão de gases do efeito estufa está entre as ações que o Brasil e o mundo devem tomar para reduzir o aquecimento da Terra.

“Nós temos que torcer muito para que os países assumam a responsabilidade de começar rapidamente a reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Em 2023, as emissões subiram em relação a 2022. Em 2024, elas continuam altas. Talvez a maior emissão seja em 2025. Depois, a previsão é estabilizar e começar a reduzir, mas a velocidade de redução tem que ser gigantesca”, destacou Carlos Nobre.

Outra medida importante é a proteção das florestas, das matas em volta dos rios e lagos e o reflorestamento.

“A gente pode produzir, quase que dobrar a nossa produção de grão, sem desmatar nenhuma árvore, só utilizando as pastagens degradadas que a gente tem no país”, afirmou Cesario, explicando a importância da vegetação para a captura dos gases que aquecem a Terra.

Os gases do efeito estufa lançados na atmosfera vêm aumentando a temperatura do planeta desde a Revolução Industrial (séculos 18 e 19), principalmente por meio da queima de combustíveis fósseis, o que impulsiona a atual crise climática, marcada por eventos extremos, como o calor excessivo, as secas prolongadas e as chuvas intensas.


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