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De Monroe a Trump, EUA pressionam a América Latina

Publicado em 18/12/2025 12:44 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Quando chegou ao Caribe, em meados de novembro, o porta-aviões americano USS Gerald R. Ford não transportava apenas milhares de militares e aeronaves de combate. Carregava, sobretudo, dois séculos de história de pressão política e militar dos Estados Unidos sobre a América Latina.

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O deslocamento não é estranho às águas da região, que ao longo do tempo assistiram a sucessivas embarcações militares partirem dos EUA para intervir em crises políticas — como na Nicarágua, no Haiti e em Honduras —, apoiar golpes de Estado, como no Brasil, ou projetar força contra governos considerados indesejáveis por Washington, caso de Cuba.

Da Doutrina Monroe, formulada em 1823, à Operação Lança do Sul, em 2025, o intervencionismo americano mudou de forma, mas não de essência. No passado, a chamada diplomacia das canhoneiras fazia questão de tornar explícita a ameaça de guerra diante de qualquer sinal de resistência. O itinerário dos navios obedecia a um objetivo inequívoco: provocar e intimidar alvos ao alcance de seus canhões.

Hoje, o deslocamento de um porta-aviões — e de milhares de soldados — ocorre em uma zona cinzenta, na qual o poder naval tradicional se combina a um repertório mais amplo de instrumentos, observa o historiador Stefan Rinke, do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. Trata-se de uma forma indireta e juridicamente enquadrada de pressão.

“Os Estados Unidos passaram a enquadrar esses deslocamentos como combate às drogas, ao crime organizado, ao terrorismo e proteção de rotas marítimas, combinando as operações com sanções, pressão financeira, isolamento diplomático e campanhas de informação que buscam deslegitimar regimes adversários, como o da Venezuela”, afirma Rinke.

Não por acaso, quando o USS Gerald R. Ford chegou à região, Washington já havia atacado 20 embarcações no Caribe, resultando em mais de 70 mortes, sob a justificativa de combater o narcotráfico, nas semanas anteriores. Os mísseis foram lançados sem a necessidade do porta-aviões. Sua chegada, portanto, é interpretada como um gesto político, exibido em meio a uma escalada inédita de tensão com a Venezuela.

“É uma mensagem para Caracas e para o restante da região: os Estados Unidos, mais uma vez, estão dispostos a usar todo o poder de sua força militar para garantir que a sua vontade prevaleça no continente”, avalia Elizabeth Dickinson, analista sênior do Crisis Group, sediada na Colômbia.

A Doutrina Monroe repaginada

Embora recente, a abordagem se ancora em um longo histórico de instrumentos do poder americano na América Latina. Ao avançar sobre o Golfo do México, o Caribe e o Canal do Panamá, Donald Trump atualiza a ideia de “América para os Americanos”, síntese da Doutrina Monroe que orientou a política externa do presidente James Monroe (1817–1825).

No século 19, o objetivo declarado era afastar as potências europeias do continente. Agora, segundo o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, a ameaça é a China. Em entrevista concedida em abril, ele afirmou que Washington pretende recuperar o “quintal” latino-americano da influência de Pequim.

“É um momento de redescobrimento da própria região. Essa perspectiva ajuda a entender as diferentes versões da política dos Estados Unidos para a América Latina, que vão da Doutrina Monroe a operações mais encobertas e diversificadas ao longo do último século”, afirma Dickinson.

Da Guerra das Bananas à Política da Boa Vizinhança

Ao longo de dois séculos, a presença americana assumiu formas variadas, do uso de tropas terrestres a operações de inteligência. O marco inicial foi a política externa de Monroe, que passou a enxergar o Caribe como área estratégica.

Em 1898, a Guerra Hispano-Americana levou essa visão a um novo patamar. A derrota da Espanha resultou na renúncia sobre Cuba e na cessão de Porto Rico aos Estados Unidos, consolidando o prestígio de Washington. Segundo o Departamento de Estado, o conflito “consolidou a posição dos Estados Unidos como uma potência no Pacífico”.

Seguiu-se uma série de ocupações e intervenções militares para controlar governos e rotas marítimas caribenhas, que se estenderam até 1934 e atingiram países como Cuba, Nicarágua, Haiti, República Dominicana e Honduras.

Durante a chamada “Guerra das Bananas”, os EUA passaram a controlar alfândegas, bancos e governos inteiros sob o argumento de garantir o pagamento de dívidas externas e proteger empresas americanas, como a United Fruit Company. Conflitos sangrentos contra insurgentes marcaram esses protetorados. A atuação naval tornou-se tão recorrente que a Marinha americana elaborou o “Manual das Pequenas Guerras”, no qual reconhecia que o conflito era também social e político.

Essas ações se apoiaram no Corolário Roosevelt, de 1904, que revisou a Doutrina Monroe para legitimar intervenções. Em discurso ao Congresso, Theodore Roosevelt negou ambições territoriais, mas afirmou que a “desorganização da sociedade civilizada” poderia obrigar os EUA a exercer um “poder de polícia internacional”.

A máxima de “falar suavemente e carregar um grande porrete” ganhou expressão concreta em 1903, quando Washington patrocinou a separação do Panamá da Colômbia. Navios americanos garantiram a secessão, e o novo país já nasceu sob tutela dos EUA, que intervieram em seu território dezenas de vezes nas décadas seguintes.

Guerra Fria e operações encobertas

Em 1933, Franklin Roosevelt lançou a Política da Boa Vizinhança, encerrando formalmente a diplomacia das canhoneiras e a ocupação direta. A atuação americana passou a se concentrar em apoio logístico e patrulhamento, com bases avançadas na região — inclusive no Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial.

Na Guerra Fria, a lógica naval foi redirecionada para conter o comunismo, apoiando golpes, bloqueios e ações de contrainsurgência, explica Rinke. O auge ocorreu em 1962, na Crise dos Mísseis, quando os EUA estabeleceram uma quarentena naval ao redor de Cuba.

A CIA também desempenhou papel central em operações encobertas que chancelaram golpes na Guatemala e no Chile. No Brasil, a atuação foi discreta, mas decisiva. Na Operação Brother Sam, o porta-aviões USS Forrestal foi deslocado para apoiar o golpe de 1964. Diante da ausência de resistência, a frota não precisou atracar.

EUA voltam a patrulhar o Caribe

Com o fim da Guerra Fria, o foco mudou da troca direta de regimes para temas como mercados, democratização e combate às drogas. O poder naval passou a se concentrar em patrulhas, interdições e cooperação em segurança, afirma Rinke.

Uma nova inflexão ocorreu em 2008, com a reativação da Quarta Frota americana para patrulhar os mares latino-americanos. A decisão gerou reações negativas de governos do Brasil e do Mercosul.

“Os países da região perceberam um renovado ativismo naval dos EUA justamente quando governos de centro-esquerda e recursos offshore ganhavam importância”, observa Rinke.

Em resposta, em 2013, o então secretário de Estado John Kerry declarou à OEA que a “era da Doutrina Monroe havia terminado”. A retórica, porém, durou pouco. O novo governo Trump reatualizou a ideia, apelidada pelo New York Post de “Doutrina Donroe”.

A Operação Lança do Sul posicionou cerca de 8% da frota de guerra americana no Caribe, com destróieres, caças, drones, grupos de assalto e um submarino nuclear. Os ataques que deixaram dezenas de mortos, lembra Dickinson, foram conduzidos com intenso aparato tecnológico, consolidando uma nova fórmula de pressão.

Para a analista, a dimensão da mobilização causou choque na região. “Estamos em um momento de pressão máxima. Trata-se de uma presença militar visível que não se via há décadas, desde o fim das ditaduras militares dos anos 1970 e 1980”, afirma.

Uma nova lógica de segurança

Essa lógica não configura uma guerra híbrida marítima, mas produz efeitos semelhantes. “É o uso de plataformas navais e narrativas jurídicas para coagir e moldar comportamentos, sem cruzar o limiar de uma guerra formal, mantendo aberta a possibilidade de escalada”, resume Rinke.

Segundo o historiador, isso reforça a América Latina como um espaço de segurança subordinado ao poder americano, mas cada vez mais contestado.

“A Quarta Frota e os deslocamentos episódicos de porta-aviões recentralizam o Caribe e o Atlântico Sul como áreas militarizadas, levando países como o Brasil a articular visões próprias de segurança e a reavivar o princípio da não intervenção”, afirma.

O efeito colateral é a militarização de ameaças não tradicionais — como drogas, pesca ilegal e migração. Ao mesmo tempo, governos que se sentem alvo, como Venezuela, Cuba e Nicarágua, interpretam os movimentos como ameaças existenciais, reforçam tendências autoritárias e se aproximam de parceiros extra-hemisféricos, como Rússia, Irã e China.

O resultado, conclui Rinke, é um ambiente regional mais fragmentado e desconfiado, no qual a presença naval dos Estados Unidos atua simultaneamente como fator de estabilidade e de desestabilização.

Geopolítica e a interferência americana

Desde o início de seu novo mandato, Donald Trump sinalizou uma retomada explícita do protagonismo coercitivo dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. Prometeu “recuperar” o Canal do Panamá, rebatizou o Golfo do México como “Golfo da América” e, em agosto de 2025, elevou tarifas sobre importações brasileiras em uma tentativa frustrada de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) a não condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado.

Pouco depois, às vésperas das eleições legislativas argentinas de outubro, Trump vinculou um empréstimo de US$ 20 bilhões ao desempenho eleitoral da coalizão do presidente Javier Milei — bloco que acabaria conquistando a maioria dos votos. No mesmo período, enviou ao Caribe o maior porta-aviões do mundo como forma de intimidação ao governo venezuelano de Nicolás Maduro, sem descartar publicamente a possibilidade de uma invasão.

Para analistas e observadores da região, o repertório remete às práticas adotadas por Washington durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos se envolveram de forma sistemática na política latino-americana, seja por meio de intervenções militares diretas, seja por operações encobertas que incluíam apoio a dissidências armadas, tentativas de assassinato de líderes e interferência em processos eleitorais.

Em Covert Regime Change: America’s Secret Cold War, a cientista política Lindsey O’Rourke, professora do Boston College, identificou 23 tentativas de mudança de regime promovidas pelos EUA na América Latina entre 1949 e 1989. A lista inclui o apoio clandestino a golpes no Chile e no Brasil, sucessivas tentativas de eliminar o líder cubano Fidel Castro e a invasão do Panamá para derrubar o ditador — e ex-aliado — Manuel Noriega.

Segundo O’Rourke, essas ações não foram um desvio excepcional do contexto da Guerra Fria, mas parte de uma estratégia geopolítica de longa duração voltada a assegurar a hegemonia americana no Hemisfério Ocidental — frequentemente com o efeito colateral de ampliar a instabilidade política nos países-alvo.

O atual secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sustenta que a política externa americana negligenciou a América Latina nas últimas décadas. Agora, afirma, Washington deve priorizar a cooperação com governos da região para proteger fronteiras e conter o que classifica como uma “invasão migratória”.

“Alguns países estão cooperando conosco com entusiasmo — outros, nem tanto. Os primeiros serão recompensados”, escreveu Rubio em artigo no Wall Street Journal, em janeiro, pouco antes de sua primeira viagem oficial à América Central. “Quanto aos últimos, Trump já demonstrou que está mais do que disposto a usar a considerável influência dos Estados Unidos para proteger nossos interesses.”

Comércio e perda de liderança incontestável

Apesar do peso político e militar, os Estados Unidos já não exercem a mesma supremacia econômica de décadas anteriores na América Latina. Dados recentes da plataforma UN Comtrade, das Nações Unidas, indicam que Washington continua sendo o maior parceiro comercial da região, mas com uma participação em declínio.

Em 2024, os EUA responderam por cerca de 29% das importações latino-americanas — uma queda expressiva em relação aos aproximadamente 50% registrados em 2000. No sentido inverso, o mercado americano absorveu 45% das exportações da região, ante 59% no início do século.

A dependência em relação aos Estados Unidos, no entanto, varia significativamente entre os países. O México, por exemplo, mantém uma integração econômica profunda com o mercado americano, muito acima de qualquer outro parceiro. Já outras nações vêm diversificando suas relações comerciais.

Nesse movimento, a China ampliou de forma consistente sua presença na região. Em 2024, Pequim já era o principal parceiro comercial de países como Brasil, Peru, Chile e Bolívia, consolidando uma tendência que desafia a primazia histórica de Washington.

A política tarifária de Trump aprofundou esse rearranjo. O Brasil passou a enfrentar uma tarifa de 50% sobre parte de suas exportações aos Estados Unidos, ainda que diversos produtos tenham sido isentados. O México negocia para evitar uma taxa de 25%, enquanto sobretaxas adicionais sobre itens como cobre e aço ameaçam atingir outras economias latino-americanas.

“Nós vamos ter que procurar outros parceiros para comprar nossos produtos. Não é essa coisa de que a gente não pode sobreviver sem os Estados Unidos”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando as tarifas foram anunciadas, em julho. “Se os Estados Unidos não querem comprar, vamos procurar quem quer.”

O reposicionamento comercial, somado à intensificação da pressão política e militar, reforça a percepção de que a América Latina se encontra novamente no centro de uma disputa estratégica — agora menos bipolar, mas não menos assimétrica — sobre influência, soberania e autonomia regional.

Berros de Trump reverberam na extrema direita local

O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, reuniu-se com o mandatário argentino Javier Milei, na Casa Rosada na terça-feira (16), dois dias após vencer as eleições chilenas.

Durante o encontro de duas horas, os líderes de extrema direita do Cone Sul reiteraram o alinhamento com Washington. “Conversamos sobre como os países estão se coordenando caso algo mais difícil aconteça na Venezuela”, declarou Kast.

Sobre a ofensiva do presidente norte-americano Donald Trump na Venezuela, ele as descreveu como “boas notícias para o Cone Sul”. “Quero que termine a ditadura na Venezuela. Que se reconheça a fraude eleitoral. Seria mais fácil que Maduro deixasse seu país e se refugiasse em outro para dar liberdade ao seu povo”.

Ele também disse não se importar com as críticas feitas pelo presidente Nicolás Maduro contra ele, e as diferenciou das realizadas pelo líder da Colômbia, Gustavo Petro. “O presidente da Colômbia é uma pessoa eleita democraticamente, não como Maduro, que é um narcoditador”, disse.

Em sua visita ao país vizinho, ele se encontrou com a equipe econômica e empresários aliados ao presidente argentino. “Vamos ter uma relação como nunca antes vista”, afirmou.

Em um vídeo publicado durante o encontro, Kast e Milei são vistos agarrados à motosserra que o argentino mantém em seu escritório. “Se há boas notícias, é que a liberdade está avançando por toda a América Latina”, afirma Kast. Ao que Milei responde: “viva a Liberdade Carajo”.

O presidente eleito chileno será empossado em 11 de março e já adiantou que adotará uma forte política antiimigratória. Ele disse que o Chile alcançou “um nível de desenvolvimento importante” que teria atraído pessoas “que vêm fugindo de países que destruíram sua economia e não têm destino, como a Venezuela”.

“Quando você recebe uma migração que ultrapassa 11% ou 12%, isso causa muito dano aos habitantes do país. E acrescentou: Muitas dessas pessoas entraram pela janela, e não pela porta”. Ele contou ter proposto a Milei “uma coordenação para abrir um corredor humanitário de devolução dessas pessoas aos seus respectivos países”.

Kast também anunciou que pretende realizar “um enorme ajuste fiscal e controlar os abusos do Estado” no Chile. Segundo Página 12, há boatos de que ele pretende ofertar ao Secretário de Política argentino, José Luis Daza, o cargo de Secretário da Fazenda do seu governo, mas nenhuma proposta formal foi realizada neste sentido.

Aos empresários ligados ao argentino, em almoço no Hotel Intercontinental, Kast disse que o Chile tem uma saída para a Ásia-Pacífico, “muito mais próxima dos limites da cadeia montanhosa argentina”.

“Esperamos que vocês possam desenvolver fortemente sua linha de mineração porque, embora sejam muito fortes na agricultura e na pecuária, há muitos recursos aqui que podem ajudar a superar a pobreza”, acrescentou, oferecendo os serviços do país em termos “de infraestrutura e logística”.

“Gringos” no Paraguai

Os Estados Unidos e o Paraguai assinaram um acordo de cooperação que permite a atuação de militares e funcionários civis do Departamento de Defesa (Pentágono) em território paraguaio. O pacto foi anunciado pelo Departamento de Estado dos EUA na segunda-feira (15) e assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano.

O documento estabelece as bases legais para operações de forças estrangeiras em um determinado país, definindo direitos, responsabilidades e o status legal do pessoal militar e civil estadunidense em solo paraguaio. No entanto, o acordo não estabelece, necessariamente, a criação de bases militares permanentes.

Segundo comunicado do Departamento de Estado, o texto cria uma estrutura para treinamentos bilaterais e multinacionais, ações humanitárias, resposta a desastres e outras atividades de segurança consideradas de interesse comum.

Este movimento ocorre no contexto da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada no início do mês pelo governo Trump. O documento prevê uma reorientação militar para a América Latina como parte de um “reajuste da presença militar global”.

A estratégia recupera explicitamente elementos da Doutrina Monroe, que define historicamente a América Latina como área de influência e interesse estratégico exclusivo dos EUA.

A estratégia do segundo governo Trump, conforme o documento, alega fazer uma “correção de conduta”. Acusa as gestões anteriores de buscarem uma “dominação global” onerosa e de permitirem que aliados “terceirizassem” seus custos de defesa para Washington. Agora, a nova postura reivindica um foco mais assertivo nos interesses norte-americanos, com a América Latina ocupando um lugar central nesse “reajuste”.

Pressão israelense e americana

Os governos dos Estados Unidos e de Israel intensificaram, nos últimos anos, a pressão sobre o Paraguai diante de suspeitas sobre a existência de redes de financiamento do Hezbollah na região da Tríplice Fronteira, que envolve também Brasil e Argentina. É o que mostra extensa reportagem do jornalista Jamil Chade no ICL Notícias.

As informações constam em documentos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), obtidos após uma longa disputa judicial pela Fiquem Sabendo, organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública.

Nesta semana, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, assinou um acordo de cooperação militar com o Paraguai, movimento que acendeu alertas no Itamaraty quanto à presença crescente de forças armadas dos Estados Unidos nas proximidades das fronteiras brasileiras.

Em maio de 2025, o governo de Donald Trump lançou sua primeira iniciativa formal de combate ao terrorismo na Tríplice Fronteira, ao oferecer uma recompensa permanente de até US$ 10 milhões por informações que “levem ao rompimento dos mecanismos financeiros da organização terrorista Hezbollah”, com foco especial no Brasil e na região.

A ofensiva se insere no esforço mais amplo da Casa Branca para estrangular financeiramente grupos ligados ao Irã, alvo prioritário da política externa americana nos últimos meses.

O tema, no entanto, já estava no radar de Washington durante o primeiro mandato de Trump. Em relatório de inteligência nº 0063/92300, datado de 15 de fevereiro de 2019, a Abin registrou a pressão exercida pelos Estados Unidos sobre Assunção em razão da “suposta transigência com o financiamento do terrorismo”.

Segundo o documento, autoridades paraguaias passaram a manifestar, de forma cada vez mais incisiva, desconforto com a pressão política conduzida pelos governos dos EUA e de Israel em relação à segurança na Tríplice Fronteira.

Esse incômodo veio à tona em janeiro de 2019, durante uma reunião realizada na sede do Banco Central do Paraguai, em Assunção. O encontro, promovido anualmente sob os auspícios dos Estados Unidos, ocorreu pela terceira vez na América do Sul e, pela primeira vez, em território paraguaio.

De acordo com a Abin, a edição de 2019 — uma iniciativa conjunta de Argentina e EUA voltada à discussão de temas transnacionais, especialmente financiamento do terrorismo e lavagem de dinheiro — também serviu como preparação para a visita técnica do Grupo de Ação Financeira da América Latina (Gafilat), programada para aquele ano no Paraguai.

Durante o evento, autoridades paraguaias expressaram “desconforto com as reiteradas alegações da presença do Hezbollah no país”. As suspeitas, segundo o relatório, costumam estar associadas a atividades de contrabando e lavagem de dinheiro supostamente operadas por indivíduos ligados ao grupo político-militar.

Diversos ministros, segundo a Abin, afirmaram não haver provas, até então, da atuação direta do Hezbollah no Paraguai. A posição mais enfática foi a da ministra Mara Epifanía González, da Secretaria de Prevenção de Lavagem de Dinheiro ou Bens (Seprelad).

O então ministro da Secretaria Nacional de Inteligência (SNI), Esteban Aquino Bernal, também adotou tom crítico e destacou a “inexistência de provas concretas”, embora não tenha descartado a possibilidade de que integrantes da comunidade muçulmana libanesa da região mantivessem algum tipo de conexão com o grupo.

Ainda de acordo com o relatório, apesar dessa ressalva, Aquino apresentou apenas de forma superficial casos envolvendo pessoas possivelmente relacionadas ao Hezbollah em esquemas de lavagem de dinheiro na Tríplice Fronteira, sem apresentar dados que comprovassem a ligação.

O ministro alertou, segundo a Abin, para os riscos de criminalizar indivíduos e a região como um todo, além de afirmar que os recursos mencionados nos casos citados teriam como intermediários organizações não governamentais atuantes no Paraguai e instituições do sistema bancário dos Estados Unidos.

O documento aponta ainda que, logo após essas declarações, a fala de Aquino teria sido interrompida a pedido da organização do evento, sob a justificativa de esgotamento do tempo previsto para a apresentação.

Para a Abin, o aumento da pressão internacional sobre o Paraguai pode ter também um componente retaliatório contra o então presidente Mario Abdo Benítez, que, no início de seu mandato, determinou a transferência da embaixada paraguaia em Israel de Jerusalém de volta para Tel Aviv.

O relatório registra ainda que, embora reconheça a existência de pressões — inclusive por parte de organizações não governamentais americanas —, o embaixador dos EUA no Paraguai afirmou que tais cobranças não partiriam oficialmente do governo norte-americano.

Segundo o diplomata, Washington não acusa formalmente o Paraguai de leniência no combate ao financiamento do terrorismo, mas apenas de fragilidades no enfrentamento à lavagem de dinheiro.

Como Trump vem interferindo na política de outros países

A interferência dos Estados Unidos em processos políticos estrangeiros não é um fenômeno novo. Ao longo das últimas décadas, Washington construiu um extenso histórico de ações diretas e indiretas voltadas a influenciar governos e eleições em outros países.

O pesquisador Dov Levin, contabilizou mais de 80 intervenções desde o fim da Segunda Guerra Mundial, número superior ao de qualquer outro país, inclusive a Rússia.

Ainda assim, analistas apontam que nenhum presidente da história recente dos Estados Unidos atuou de maneira tão explícita e personalista quanto Donald Trump. O republicano passou a apoiar abertamente aliados ideológicos no exterior, em especial lideranças de ultradireita, recorrendo com frequência à sua própria rede social, a Truth Social, para pressionar governos e processos eleitorais.

Um dos episódios mais recentes ocorreu em Honduras. Trump ameaçou impor “consequências” ao país caso o candidato que apoia, o conservador Nasry “Tito” Asfura, do Partido Nacional, não saísse vitorioso nas urnas. A declaração foi seguida por um agravamento da crise política local.

Mais de duas semanas após a eleição, o país ainda vivia um impasse institucional. A recontagem especial dos votos permanecia paralisada, em meio a protestos, acusações de fraude e disputas entre partidos. A revisão manual — que poderia alterar o resultado preliminar do pleito realizado em 30 de novembro — sequer havia começado até a quarta-feira, dia 17, apesar da previsão inicial. Com quase 100% das urnas apuradas na contagem regular, Asfura liderava com uma vantagem superior a 43 mil votos sobre Salvador Nasralla, do Partido Liberal, de centro. Em terceiro lugar aparecia Rixi Moncada, candidata do governista Libre.

Trump descreveu Asfura como o “único amigo verdadeiro da liberdade” frente ao que chamou de “narcocomunismo”. Segundo ele, uma eventual vitória garantiria “forte apoio” da Casa Branca a um país marcado pela pobreza e pela migração em massa de seus cidadãos.

Em mensagem publicada na Truth Social, Trump afirmou que “Honduras está tentando mudar os resultados” e advertiu que “haverá consequências” caso isso ocorra. “A democracia deve prevalecer!”, escreveu, alegando que a vontade expressa “em números esmagadores” precisa ser respeitada.

O discurso, no entanto, contrastou com outro gesto de Washington. Poucos dias antes da eleição, o governo americano acenou com a possibilidade de um indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014–2022), correligionário de Asfura, condenado a 45 anos de prisão nos EUA por tráfico de drogas. Segundo o The New York Times, Hernández foi responsável por “inundar os Estados Unidos com cocaína”.

Outros exemplos na América Latina

Trump parece particularmente à vontade para declarar preferências políticas na América Latina, região onde o histórico de intervenções americanas é especialmente extenso.

Na Colômbia, governada pelo esquerdista Gustavo Petro — um crítico contumaz do republicano —, a Casa Branca anunciou, em outubro, o corte de recursos milionários destinados ao combate ao narcotráfico. A retaliação ocorreu após Petro condenar ataques americanos a embarcações no Caribe e no Pacífico supostamente ligadas ao tráfico. O presidente colombiano foi chamado de “lunático” pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e de “barão da droga” por Trump.

No Brasil, Washington impôs sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, em reação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. As medidas vieram acompanhadas de uma sobretaxa de 40% sobre exportações brasileiras. À época, Trump afirmou que Bolsonaro era vítima de uma “caça às bruxas”.

Posteriormente, o republicano recuou das tarifas e das sanções a Moraes, suavizando o tom, mas a ofensiva colocou o governo brasileiro sob forte constrangimento diplomático.

Já na Argentina, então governada pelo ultradireitista Javier Milei, Trump sinalizou bilhões de dólares em apoio financeiro antes das eleições legislativas. Após o resultado favorável ao governo, US$ 20 bilhões foram formalizados. “Ele [Milei] teve muita ajuda da nossa parte. Eu lhe dei uma garantia muito forte”, declarou Trump depois do pleito.

“A intervenção inédita de Trump na política e na economia argentinas foi fundamental para sustentar as aspirações eleitorais do governo”, avaliou à época o cientista social Nicolás Welschinger, em entrevista à DW.

A Venezuela, por sua vez, enfrenta atualmente um cerco militar americano no Caribe, que inclui o maior porta-aviões do mundo. Oficialmente, a mobilização se destina ao combate ao “narcoterrorismo”. Na prática, Washington intensificou a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro, classificando-o como ilegítimo e associando-o a cartéis de drogas e ao terrorismo — uma retórica que, segundo observadores, cria o ambiente político para justificar uma eventual intervenção.

“É uma tentativa consistente de influenciar politicamente e reforçar o que os Estados Unidos veem como uma guinada à direita já em curso na América Latina”, analisou Will Freeman, do Council on Foreign Relations, em entrevista à AFP.

Tentativas de interferência também na Europa

A atuação de Trump não se limita ao hemisfério ocidental. O presidente americano também buscou influenciar governos europeus, ainda que, em alguns casos, de forma mais indireta.

Na Alemanha, às vésperas das eleições parlamentares de fevereiro de 2025, o vice-presidente JD Vance visitou o país e se reuniu com Alice Weidel, líder do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD). Em discurso a líderes europeus, criticou o que classificou como distorções dos valores comuns entre EUA e Europa.

Vance também condenou os chamados “cordões sanitários” — referência à exclusão política da AfD — e criticou a anulação das eleições presidenciais na Romênia por suspeita de interferência russa.

Na Romênia, porém, o endosso americano ao candidato pró-Rússia Calin Georgescu teve pouco efeito. Barrado da nova disputa após a anulação do primeiro turno, ele não conseguiu transferir seu capital político ao eurocético George Simion, líder do partido AUR.

Na Polônia, o desfecho foi diferente. A Casa Branca apoiou abertamente o conservador Karol Nawrocki, que acabou eleito presidente, com respaldo público da secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, durante visita ao país.

No Reino Unido, Trump e seus aliados elogiaram reiteradamente o parlamentar anti-imigração Nigel Farage. Na França, defenderam Marine Le Pen após a líder da ultradireita ser condenada por desvio de recursos do Parlamento Europeu e proibida de disputar cargos públicos.

Oriente Médio e aliados estratégicos

No Oriente Médio, Trump também atuou para proteger aliados. Em Israel, onde o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta acusações de corrupção em meio à guerra contra o Hamas, o presidente americano fez campanha aberta em sua defesa. Chegou a pedir ao presidente Isaac Herzog que concedesse perdão a Netanyahu antes mesmo da conclusão dos julgamentos.

Na Arábia Saudita, governada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, Trump adotou tom distinto. Em visita ao país, em maio, criticou intervenções estrangeiras e afirmou que iniciativas americanas desse tipo haviam sido desastrosas no passado. Pouco depois, defendeu o aliado de questionamentos “embaraçosos” da imprensa durante visita de bin Salman à Casa Branca.

O que distingue as interferências de Trump

Para especialistas, o diferencial de Trump em relação a outros presidentes americanos não está apenas nos métodos, mas nas motivações. Segundo o analista de relações internacionais Thomas Carothers, trata-se de um padrão distinto.

“É diferente da Guerra Fria, quando os Estados Unidos favoreciam lideranças específicas por razões geoestratégicas”, afirmou. “Aqui, parece mais uma questão pessoal: Trump acredita ter um grupo de amigos no exterior que deseja ajudar.”

Carothers observa que a Rússia adota estratégia semelhante em países que integraram sua esfera de influência soviética, como a Romênia e, mais recentemente, a Moldávia — onde o candidato apoiado por Moscou também fracassou.

Já o premiê ultradireitista da Hungria, Viktor Orbán, deve contar com o apoio explícito de Trump nas eleições de 2026. Orbán foi recebido na Casa Branca em novembro e elogiado publicamente pelo americano.

“Ele fez um trabalho fantástico. Governou um país realmente grandioso, sem criminalidade, sem problemas, como alguns outros têm”, declarou Trump, acrescentando que líderes europeus deveriam valorizar mais o colega húngaro.

O conjunto dessas ações reforça a percepção de que, sob Trump, a interferência americana deixou de ser apenas um instrumento estratégico de Estado para se tornar também uma ferramenta ideológica e pessoal — com impactos diretos sobre a estabilidade democrática em diferentes regiões do mundo.

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