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Especial
O quanto a fome de Trump por poder ameaça nossa democracia?
Publicado em 08/08/2025 3:37 - Semana On
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Nos últimos meses, a relação Brasil–Estados Unidos entrou em uma zona de turbulência que, em outros tempos, soaria impensável entre dois países historicamente alinhados. O gatilho mais visível foi uma ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump, declarando “emergência nacional” em razão de atos do governo brasileiro. No texto, a Casa Branca não apenas anunciou tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, mas também atacou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF), descrevendo o julgamento de Jair Bolsonaro como “perseguição política”.
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A medida não é apenas econômica. É política, é simbólica — e é, no mínimo, um recado de que Washington está disposto a usar instrumentos de poder duro para influenciar rumos internos no Brasil. Algo que, para muitos observadores, não se via desde os anos da Guerra Fria.
A memória não é curta. Arquivos oficiais dos Estados Unidos mostram que, em 1964, o governo norte-americano não apenas acompanhou como ofereceu suporte logístico à crise que levou à deposição de João Goulart e à instalação de uma ditadura militar de duas décadas. Naquele tempo, a justificativa era o combate ao comunismo. Hoje, o campo de batalha é outro: comércio, redes sociais e o discurso da “liberdade de expressão” — muitas vezes instrumentalizado para deslegitimar decisões do Judiciário.
O embate recente entre as big techs e o STF ilustra bem essa nova geopolítica digital. Após descumprir determinações judiciais, a plataforma X, de Elon Musk, foi temporariamente bloqueada no Brasil, transformando-se em vitrine para políticos norte-americanos acusarem Brasília de censura. A cena serviu de combustível para uma campanha internacional contra ministros do Supremo — e, indiretamente, contra o próprio modelo democrático brasileiro. A crise escalou paulatinamente e assumiu um caráter político com o posicionamento da Casa Branca diante do julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Mas até que ponto os brasileiros estão percebendo o risco desta ingerência? O Latinobarómetro 2023 revela um dado preocupante: apenas 46% dos brasileiros afirmam preferir a democracia a qualquer outra forma de governo. É mais do que em 2020, mas ainda insuficiente para garantir blindagem contra aventuras autoritárias. Em paralelo, pesquisas do Datafolha indicam queda na confiança no STF — justo no momento em que o tribunal é alvo de ataques organizados e importados.
O terreno é fértil. Relatórios do Instituto Igarapé apontam para um ecossistema de desinformação cada vez mais profissionalizado, capaz de mobilizar milhões de usuários com narrativas que corroem a confiança nas instituições. Não por acaso, analistas do Carnegie Endowment alertam para o “efeito contágio” da política americana: a ascensão de Trump reacende e fortalece alas da extrema direita brasileira, que veem no alinhamento com Washington um incentivo para esticar — e às vezes romper — as regras do jogo.
Erosão lenta
Esse é um fenômeno que a ciência política conhece bem. Para Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de Como as Democracias Morrem, a ameaça não é necessariamente um golpe militar clássico, mas a corrosão gradual, feita por líderes eleitos que enfraquecem as mesmas regras que os levaram ao poder. Guillermo O’Donnell, nos anos 1990, descreveu esse processo como “democracia delegativa”, onde presidentes se colocam acima de freios e contrapesos, enquanto o eleitorado, convertido em torcida, assiste passivamente.
Robert Dahl, referência maior na teoria democrática, lembra que a essência do regime está na “responsividade contínua” do governo às preferências dos cidadãos. Quando campanhas externas — e aqui entram as de Trump — tentam influenciar decisões do STF, o que se ataca não é apenas um ministro, mas a própria capacidade do Estado brasileiro de responder a seus cidadãos, e não a pressões externas.
Hannah Arendt, décadas antes, já havia dado o alerta: “A liberdade de opinião é uma farsa se a informação factual não é garantida”. Em tempos de redes sociais, onde fronteiras entre fato e opinião são diluídas por algoritmos, a advertência soa quase profética.
O que está em jogo, portanto, não é ser pró ou contra uma figura política específica. É garantir que decisões brasileiras sejam tomadas no Brasil, dentro de um marco legal definido por sua própria Constituição. Ao tentar condicionar o futuro de um julgamento no STF a medidas econômicas punitivas, o governo Trump toca em um ponto vital: soberania não se negocia por tarifa ou ameaça.
Ignorar essa dimensão — e tratar tais pressões como “opiniões fortes” vindas de um aliado histórico — é abrir espaço para que a erosão democrática avance sorrateira. E, como a história ensina, quando se percebe o tamanho da ameaça, muitas vezes já é tarde demais.
E o jogo continua… duro
A ameaça contra a soberania brasileira teve mais um capítulo nesta semana. O Ministério das Relações Exteriores convocou nesta sexta-feira (8) o chefe interino da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, para dar explicações sobre declarações consideradas ameaçadoras contra ministros do Supremo. A medida foi tomada após a representação diplomática americana, alinhada ao governo Donald Trump, afirmar publicamente que o ministro Alexandre de Moraes seria “o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro” e insinuar que outros magistrados poderiam ser alvo de sanções.
O episódio é mais um capítulo de um desgaste crescente na relação bilateral, no qual a Casa Branca de Trump tem adotado tom abertamente hostil ao Judiciário brasileiro e ao governo. A ofensiva, que ganhou corpo após a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro determinada por Moraes no início da semana, ocorre no mesmo momento em que Washington e Brasília discutem tarifas comerciais impostas por Trump — um entrelaçamento de agendas que levanta questionamentos sobre o uso político da diplomacia.
A nota mais dura veio do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, que acusou Moraes de ser “violador de direitos humanos sancionado pelos EUA” e pediu que Bolsonaro “possa falar” sem restrições. Em julho, os EUA já haviam incluído o ministro na lista da Lei Magnitsky, bloqueando eventuais ativos e proibindo sua entrada no país. Criada oficialmente para punir violações graves de direitos humanos, a lei tem sido criticada por seu uso seletivo e politizado. Como observa Stephen Gill, professor de Relações Internacionais da York University, “a aplicação extraterritorial de medidas unilaterais é parte de uma estratégia mais ampla de disciplinamento político de Estados periféricos, fora dos mecanismos multilaterais”.
O embaixador interino Flavio Goldman, que recebeu Escobar no Itamaraty, manifestou “indignação com o tom e o conteúdo” das declarações, classificando-as como ingerência inaceitável e ataque direto à soberania nacional. Fontes diplomáticas relatam que Goldman cobrou que a embaixada transmita à Casa Branca informações precisas sobre os processos judiciais envolvendo Bolsonaro, conduzidos segundo o devido processo legal brasileiro.
A convocação de um representante diplomático é, no protocolo internacional, um sinal inequívoco de desagrado e de elevação da tensão entre países. Não é a primeira vez que Escobar é chamado a dar explicações — mas desta vez, a coincidência com negociações comerciais e a natureza das ameaças ampliaram a gravidade da crise.
Para além do episódio imediato, o caso ecoa um padrão histórico. Desde o século XX, os Estados Unidos têm exercido forte influência política, econômica e militar sobre a América Latina, muitas vezes atropelando o princípio de não intervenção consagrado na Carta da ONU e na Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA). Da deposição de Jacobo Árbenz na Guatemala (1954) ao apoio a golpes militares no Cone Sul nas décadas de 1960 e 1970, passando pela ingerência direta na política venezuelana, Washington cultivou uma prática de intervenção que, sob diferentes justificativas, sempre reforçou sua posição de potência hegemônica.
O ministro do STF Flávio Dino reagiu duramente, lembrando que “não se inclui nas atribuições da embaixada de nenhum país estrangeiro ‘avisar’ ou ‘monitorar’ o que um magistrado do Supremo Tribunal Federal deve fazer” e reforçando que “respeito à soberania nacional, moderação, bom senso e boa educação” são requisitos fundamentais na diplomacia.
A cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora aposentada da USP e pesquisadora do Cebrap, destaca que episódios como esse mostram “como potências que se autoproclamam guardiãs da democracia frequentemente ignoram os arranjos institucionais dos países com os quais não concordam politicamente”. Segundo ela, “o respeito à soberania é um princípio não apenas jurídico, mas uma condição prática para que haja cooperação internacional”.
A ofensiva de Trump contra o STF ocorre num contexto político delicado, no qual o Brasil busca preservar a estabilidade institucional e proteger seu sistema judicial de pressões externas. Para Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores, “o princípio da não intervenção é um dos fundamentos da ordem internacional. A violação desse princípio fragiliza não apenas o país alvo, mas o próprio sistema de segurança coletiva” (Lafer, A Identidade Internacional do Brasil, 2001).
Do ponto de vista do direito internacional, sanções unilaterais impostas a autoridades de outros países, sem respaldo de organismos multilaterais como o Conselho de Segurança da ONU, são vistas por diversos juristas como contrárias à Carta da ONU e ao espírito da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961). Antonio Augusto Cançado Trindade, ex-juiz da Corte Internacional de Justiça, escreveu que “o unilateralismo sancionatório é incompatível com o primado do direito internacional, fomentando uma lógica de força sobre o direito” (O Direito Internacional em um Mundo em Transformação, 2002).
O episódio reforça que, no tabuleiro geopolítico, a democracia e a soberania não se defendem apenas contra ameaças internas, mas também contra o apetite de potências que se colocam acima das regras multilaterais. A resposta brasileira, embora firme, será testada pela capacidade de sustentar o diálogo comercial com Washington sem ceder no que o Itamaraty chama de “questões inegociáveis”: independência do Judiciário e integridade do Estado de Direito.
Trump e a velha cartilha da ingerência norte-americana na América Latina
As declarações hostis de Donald Trump contra ministros do Supremo Tribunal Federal e a convocação do encarregado de negócios dos Estados Unidos pelo Itamaraty não são um raio em céu azul, mas o mais recente capítulo de uma tradição diplomática que atravessa décadas: a política de ingerência norte-americana na América Latina. Desde a Guerra Fria, Washington tem usado pressões econômicas, sanções seletivas e apoio a lideranças políticas alinhadas a seus interesses para influenciar o rumo de governos no continente — quase sempre em detrimento da autonomia local.
No Cone Sul, a lista de episódios é extensa. Em 1954, a CIA orquestrou a derrubada de Jacobo Árbenz na Guatemala sob o pretexto de combater o comunismo, abrindo caminho para décadas de instabilidade. Nas décadas de 1960 e 1970, governos dos Estados Unidos apoiaram golpes militares no Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, oferecendo treinamento, inteligência e respaldo diplomático a regimes que perseguiram opositores e suprimiram liberdades civis. A Operação Condor, rede coordenada de repressão entre ditaduras sul-americanas, contou com beneplácito de autoridades norte-americanas, segundo documentos desclassificados.
Especialistas destacam o impacto devastador dessas parcerias autoritárias. A professora J. Patrice McSherry afirma que “centenas de milhares de latino-americanos foram torturados, sequestrados ou mortos por regimes de direita com apoio dos EUA”, evidenciando a configuração de violência sistemática sob a tutela de uma política supostamente anticomunista.
A ofensiva atual de Trump contra o Judiciário brasileiro, marcada pela inclusão do ministro Alexandre de Moraes na lista de sanções da Lei Magnitsky e pela imposição de tarifas punitivas ao Brasil, repete a lógica histórica de condicionar relações comerciais e políticas a alinhamentos ideológicos. Ao vincular críticas à condução de processos judiciais internos a medidas econômicas, a Casa Branca reforça um padrão no qual a retórica de defesa da democracia serve como instrumento de pressão estratégica.
O episódio ressoa como eco da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt, instrumentos que legitimaram o intervencionismo sob a retórica de policiamento hemisférico e “civilização”. Crítico desses instrumentos, Noam Chomsky classificou a Doutrina Monroe como um “direito de intervenção unilateral” que marxinaliza a autonomia das nações latino-americanas.
No presente, o recurso a sanções seletivas — com o STF como alvo — e retórica antidemocrática confirma o temor do cientista político Steven Levitsky, para quem Trump adota uma postura autoritária que “exporta seu assalto à democracia para o Brasil”. O Financial Times, por sua vez, qualifica as ações como uma ruptura sem precedentes entre as duas maiores democracias das Américas, apontando que a ofensiva foi articulada para interferir em processos judiciais soberanos.
Há uma flagrante contradição: valores democráticos defendidos com o cinismo de que, sob o pretexto de proteger a “liberdade de expressão” ou bonomia eleitoral, se ameaça diretamente o Estado de Direito de outro país. Ao impor medidas unilaterais sem respaldo em instâncias multilaterais — como a ONU ou OEA —, essa política reveste-se do que juristas como Cançado Trindade definiram como “unilateralismo sancionatório”, incompatível com a ordem jurídica internacional
Para o jurista Antonio Augusto Cançado Trindade, ex-juiz da Corte Internacional de Justiça, esse tipo de ação revela um problema mais profundo: o “unilateralismo sancionatório” — a prática de potências aplicarem punições sem respaldo de organismos multilaterais, substituindo o direito internacional pela força. No caso brasileiro, o recado é claro: preservar a soberania nacional e a independência do Judiciário exigirá resistir a um modelo de política externa que, embora remodelado, mantém raízes nos métodos de intervenção do século passado.
Trump interfere em disputa da direita nacional
Desde o início de sua ofensiva contra o Brasil, marcada por dezenas de manifestações públicas em defesa de Jair Bolsonaro, Donald Trump tem atacado duramente o processo judicial contra o aliado. O republicano classifica o caso como “caça às bruxas”, “perseguição política” e até “vergonha internacional”. Aproveitou o julgamento como argumento para impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros — medida em vigor desde o dia 6.
Ao lançar, no início de julho, sua ofensiva em apoio a Bolsonaro, Trump parece ter ido além de tentar dificultar a reeleição de Lula ou enfraquecer a esquerda no poder. Diplomatas brasileiros e norte-americanos, além de lideranças políticas da direita em ambos os países, relataram à coluna que a Casa Branca deseja garantir que o presidenciável da direita no próximo pleito seja alguém da família Bolsonaro.
Para Tom Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil, a atitude de Trump configura “interferência estrangeira dentro da oposição brasileira”. “Com Bolsonaro fora da disputa, há uma verdadeira batalha interna sobre quem deve ser o candidato. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, vinha despontando, ainda que lentamente, como favorito para parte da direita e do centrão. Creio que a família Bolsonaro, especialmente Eduardo, teme que, se o pai for preso e Tarcísio assumir, o movimento perca seu apelo popular e se torne mais ligado à política tradicional e às estruturas do Estado”, afirmou, lembrando o discurso de Bolsonaro em 2018 contra o establishment político.
Bolsonaro responde a acusações como tentativa de abolir violentamente o Estado Democrático de Direito, crimes que ele nega. O julgamento pode ser iniciado já no próximo mês. Pelo veredicto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proferido no ano passado, o ex-presidente está inelegível até 2030, condenado por abuso de poder político durante reunião no Palácio da Alvorada com embaixadores estrangeiros, em 2022, na qual atacou, sem apresentar provas, o processo eleitoral brasileiro.
“Em outras palavras, se Tarcísio ou outro nome fora da família Bolsonaro se tornar candidato, o movimento perderia a essência populista que deveria ter. Trump não apenas se meteu em um processo judicial e eleitoral no Brasil; ele também interferiu numa disputa interna da oposição ao dizer que Bolsonaro é o candidato legítimo”, prosseguiu Shannon.
Há meses, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o comentarista político Paulo Figueiredo – neto do ex-ditador João batista de Figueiredo – atuam em Washington para convencer autoridades americanas a impor sanções que obriguem o Brasil a conceder anistia a Bolsonaro e seus aliados. Essa medida abriria caminho para que o ex-presidente disputasse em 2026.
No campo da direita americana, Eduardo já conseguiu plantar a percepção de que Tarcísio seria um possível “traidor”. Foi o que ouviram senadores brasileiros de direita durante visita a Washington, na última semana, em conversas com interlocutores da Casa Branca. Parlamentares relataram surpresa com a influência que Eduardo exerce sobre apoiadores de Trump, fruto de relações cultivadas com a família do republicano ao menos desde 2017. Um diplomata brasileiro que monitora de perto a direita dos EUA afirmou que o retorno do grupo de Bolsonaro ao poder no Brasil é um objetivo explícito — tornando quase inevitável o confronto entre Trump e Lula.
Um membro do Departamento de Estado, falando em condição de anonimato à jornalista Mariana Sanches (UOL), declarou que a anistia aos Bolsonaros interessa diretamente a Trump. Segundo essa fonte, o presidente americano já escolheu seu candidato para 2026 e não cogita substituí-lo por nomes como Tarcísio. O trumpismo, disse, mantém laços ideológicos estreitos e exclusivos com o bolsonarismo.
Steve Bannon, estrategista e ideólogo do movimento Make America Great Again (MAGA), reforça esse vínculo. “Lembre-se: foi o MAGA e o presidente Trump que apoiaram os Bolsonaros, porque Bolsonaro é o Trump dos Trópicos. Eles são queridos aqui porque nos identificamos com eles — pessoas comuns nas ruas dizendo: ‘Nossas vozes importam’”, afirmou à Sanches.
Em janeiro, durante a posse de Trump, Eduardo esteve em Washington e Bannon causou desconforto na direita brasileira ao apresentá-lo, em um evento, como “futuro presidente do Brasil”. “Esta é uma das figuras mais importantes do nosso movimento pela soberania no mundo. E acredito que, num futuro não muito distante, será o presidente do Brasil”, disse. Eduardo agradeceu o apoio, mas frisou que o candidato era Jair Bolsonaro. Em conversas mais recentes, Bannon voltou a afirmar que vê nos Bolsonaros o futuro da direita no país.
Bolsonaristas que vivem nos EUA consideram Tarcísio um “tecnocrata” sem a identidade ideológica do populismo de direita encarnado por Bolsonaro e Trump. Argumentam que colocá-lo como cabeça de chapa em 2026 significaria relegar a família Bolsonaro ao papel secundário em seu próprio movimento.
O anúncio do tarifaço de Trump, que afetou diretamente a economia paulista, evidenciou o racha na direita. Tarcísio, que inicialmente elogiou a medida, sentiu rapidamente o peso político da decisão, sendo alvo de críticas duras do empresariado do estado. Passou então a buscar encontros com Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada americana em Brasília, para mostrar empenho em derrubar as taxas.
Eduardo atacou o governador publicamente, ridicularizando suas tentativas de negociar alívio para as tarifas sem ter canais diplomáticos relevantes. Jair Bolsonaro interveio para tentar acalmar os ânimos entre o filho e o aliado, mas a trégua é frágil. No último domingo, Tarcísio se ausentou de manifestações que apoiaram a campanha de Eduardo e Figueiredo por sanções contra o Brasil. Já na segunda-feira, após a decretação de prisão domiciliar de Bolsonaro, gravou um vídeo em defesa do ex-presidente.
Se, por um lado, a ação de Eduardo em Washington prejudicou as chances de Tarcísio em 2026, por outro, também enfraqueceu suas próprias ambições. Investigado por obstrução de justiça, ele afirma que, se voltar ao Brasil, será preso. Assim, sua única possibilidade de concorrer ao Planalto é obter uma anistia — medida que beneficiaria igualmente seu pai. “Nunca existiu candidatura do Eduardo sem anistia. Qualquer cenário sem anistia é irrelevante”, resume Paulo Figueiredo.
Um momento delicado
Na história das relações internacionais, raras vezes a retórica da soberania nacional encontrou teste tão direto quanto o embate que hoje opõe Brasília à Casa Branca de Donald Trump. O episódio mais recente — a convocação do encarregado de negócios dos EUA para explicar declarações ameaçadoras contra ministros do Supremo Tribunal Federal — não é um incidente isolado, mas a continuidade de uma longa tradição de ingerência norte-americana na política latino-americana, da derrubada de Jacobo Árbenz em 1954 ao apoio a golpes no Cone Sul nas décadas seguintes. Sob o pretexto de defender a “liberdade de expressão” de Jair Bolsonaro, Washington recorre ao mesmo arsenal político que historicamente utilizou para moldar governos a seu gosto: sanções seletivas, pressão comercial e construção de narrativas destinadas a fragilizar instituições democráticas de países periféricos.
Ao atrelar a ofensiva nada diplomática à imposição de tarifas contra o Brasil, Trump sinaliza que a defesa de “princípios” é, na prática, uma ferramenta de barganha geopolítica. Nesse tabuleiro, a disputa não se limita ao destino de Bolsonaro e sua família, mas ao próprio direito do Brasil de decidir, sem tutelas externas, o rumo de sua democracia.
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