13/06/2024 - Edição 540

Especial

FÉ E PRECONCEITO

Brasil tem aumento de denúncias de intolerância religiosa

Publicado em 24/05/2024 3:22 - Semana On, Fantástico (G1), Valdemar Figueredo (ICL Notícias) – Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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Nesta semana, um vídeo do padre Paulo Santos, da paróquia São Francisco de Paulo no município de Nova Andradina (MS), protagonizou um retorno forçado à Idade Média, aquela, onde se queimavam mulheres e homens por “bruxaria” para que o cristianismo reafirmasse seu poder sobre as pessoas e lhes roubasse os bens.

Santos virou alvo de denúncia no Ministério Público Federal (MPF) por intolerância religiosa, após falas preconceituosas sobre as enchentes no Rio Grande do Sul, durante a “Missa Solidária em Oração Pelo Rio Grande do Sul”, realizada no último dia 8, quando foi pilhado em vídeo, coberto por uma bandeira do Rio Grande do Sul, relacionando a tragédia as religiões de matriz africana, as quais ele se referiu genericamente como “macumba”.

“Eu farei um alerta a todos nós. O Rio Grande do Sul há muito tempo abraçou a bruxaria e o satanismo. Há muito tempo o meu povo tem se afastado de Deus”, diz o padre que também é gaúcho.

Ele disse ainda, reforçando o festival de extremismo religioso, que o estado é o mais ateu do país. “O secularismo chegou ao Rio Grande do Sul o estado mais ateu da federação. Existem mais centros de macumba na cidade de Porto Alegre do que no estado da Bahia inteiro”.

Este é um dos muitos exemplos de intolerância religiosa registrados no país nos últimos anos. O livre exercício de cultos religiosos e a liberdade de crença são realidades protegidas pela nossa Constituição. No entanto, casos de desrespeito e ataques no Brasil têm sido cada vez mais frequentes. É o que afirmam os números do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, estão entre as cinco mais seguidas no Brasil, com mais de um milhão de adeptos. De acordo com o IBGE, os católicos praticantes são maioria: cerca de 123 milhões de fiéis. Em seguida estão os evangélicos, com 113 milhões.

O registro de denúncias sobre intolerância religiosa feitas ao Disque 100, um serviço do governo, cresceu – sobretudo após 2021, um ano depois do início da pandemia da Covid-19. Também aumentaram as violações – que são os diversos tipos de violência relatados.

Em 2018, foram registradas 615 denúncias denúncias de intolerância religiosa no Brasil. O número saltou para 1.418 em 2023, um aumento de 140,3%. Já o número de violações passou, no mesmo período, de 624 para 2.124, um salto de 240,3%.

Entre 2022 e 2023, o aumento das denúncias foi de 64,5% e, o de violações, de 80,7%.

Em 2023, os registros saltaram. Os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia são os que mais têm denúncias.

“Esses dados são alarmantes. Cada vez mais a população tem compreendido que cenários, situação onde há violência, agressão em razão da religiosidade da pessoa se trata, sim, de uma violação de direitos humanos”, destaca o secretário nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Bruno Renato Teixeira.

Para enfrentar a intolerância religiosa e garantir a laicidade brasileira, o governo criou uma Coordenação de Promoção à Liberdade Religiosa, liderada por uma Ialorixá Mãe Gilda de Oxum.

“Esse é o ponto fundamental da discussão, que é a promoção da tolerância e a garantia da diversidade religiosa no Brasil”, completa Teixeira.

Desde janeiro do ano passado, com o endurecimento das leis, quem pratica crimes de intolerância religiosa pode pegar até cinco anos de prisão, além de multa. É o que diz a lei 14.532, que equipara injúria racial ao racismo – e que também protege a liberdade religiosa. Para este crime, não cabe mais fiança e é imprescritível.

Brasil registrou aumento de casos de intolerância religiosa. — Foto: TV Globo/Reprodução

Racismo religioso

Em Dias D’ávila, Região Metropolitana de Salvador, das dez invasões ao terreiro de Pai Marcelo, quatro foram registradas na polícia pelo babalorixá, que reclama da falta de ação das autoridades diante da perseguição sofrida.

“Se botavam uma porta hoje, eles quebravam sete dias depois. Você entrava no pânico. Fomos perseguidos”, diz o babalorixá.

“Quando a gente vai registrar uma queixa, eles não querem botar no laudo, na ocorrência, a intolerância religiosa. É um assalto? Uma casa foi invadida dez vezes, eles não querem entender que isso é intolerância?”, questiona.

Sem avanços nas investigações, ele e os frequentadores da casa investiram em câmeras de segurança para tentar inibir os criminosos.

“Aí acaba, por exemplo, um crime de intolerância ou de racismo religioso sendo colocado como briga de vizinho, algo de menor potencial ofensivo”, fala o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia, Leonel Monteiro.

O racismo religioso está presente nos ataques contras as religiões de matriz africana. — Foto: TV Globo/Reprodução

Islamofobia termina em agressão

Uma mulher muçulmana, mãe de cinco filhos, mostra a sua devoção em suas orações em uma mesquita de São Paulo e também no uso do hijab, tradicional véu islâmico que cobre a cabeça e o pescoço.

Foi por causa da vestimenta que Ângela Maria da Silva sentiu as dores da violência provocada pela intolerância religiosa em 2019, no próprio local de trabalho: uma empresa de ônibus.

“Tinha um cidadão que me chamava o tempo inteiro de ‘mulher-bomba’, ‘escória da humanidade’, ‘lixo humano’” recorda.

Ângela disse que se tornou algo perigoso e que o agressor começou a passar por ela e gritar: “cabum!”

“Eu tentava levar aquilo na brincadeira com os outros funcionários, até chegar ao extremo dele me pegar na porta da empresa e me agredir fisicamente”, conta.

A agressão aconteceu quando Ângela tentou filmar o homem com o celular. “Ele deformou o meu rosto, ele arrancou oito dentes da minha boca. Até hoje eu não consigo comer uma maçã, algo mais duro. Minha boca inteira dói”, diz, emocionada.

Ângela se emociona ao relembrar agressão que sofreu no ambiente de trabalho. — Foto: TV Globo/Reprodução

“E eu cheguei a escutar de colegas de trabalho: mas o que você fez para ele te agredir? Eu falei: sou uma mulher muçulmana”, diz Ângela.

Ela prestou queixa e contratou um advogado, que explica que houve falta de apoio da empresa com a funcionária.

“Além de ser agredida, a empresa não lhe deu qualquer ajuda e ainda deixou o agressor continuar trabalhando no mesmo ambiente de trabalho”, fala o advogado Osmar Cruz.

A empresa foi condenada a pagar uma indenização de R$ 80 mil, dinheiro que Ângela ainda não recebeu. O agressor foi indiciado pela polícia.

Sobre a indenização, a reportagem do Fantástico não conseguiu contato com a defesa da empresa em que Ângela trabalhava.

“Eles me tiraram a autoestima. Eu tenho dificuldade de sorrir. Eles me tiraram a segurança. Tenho medo”, relata ela.

Sandra Chayo, empresária. — Foto: TV Globo/Reprodução

Antissemitismo

O crime da intolerância, muitas vezes, é propagado na internet. Foi o que aconteceu com a empresária paulistana Sandra Chayo, que acabou recebendo comentários de ódio pelo fato de ser judia.

Ela notou a hostilidade contra judeus desde outubro do ano passado, quando começou a guerra em Gaza, deflagrada pelo ataque do grupo terrorista Hamas a Israel.

“E eu cabo recebendo esses ataques de ódio. Ataques ao fato de eu ser judia. Então, ataques do tipo: ‘ah, você é uma judia cretina por defender esses ideais. Você é genocida’. Em muitos momentos, eu me sinto ameaçada, sim, e por pessoas que têm ódio no coração pelo simples fato de eu ser uma mulher judia”, desabafa Sandra.

Desde o início do conflito no Oriente Médio, entidades judaicas recebem por dia 15 denúncias de antissemitismo, ataques que acontecem especialmente nas redes sociais.

Escola ensina religiões aos seus alunos. — Foto: TV Globo/Reprodução

Piadas e preconceitos

O pastor e diretor do Instituto de Estudos da Religião (Iser), Ronilso Pacheco, faz um alerta para a raiz do preconceito contra as religiões no Brasil. “A cara da intolerância religiosa no Brasil é a de racismo religioso, visto que as religiões de matriz africanas são as religiões mais atingidas. E isso não é só um aspecto da distinção da religião. Ela é, sobretudo, um aspecto direcionado para população negra — ou para aquilo que é pertencente à cultura africana”, fala.

Mas os evangélicos não estão imunes ao preconceito religioso, que se apresenta de outra maneira, explica ele.

“A intolerância religiosa com relação a muitos evangélicos – e, eu repito, isso é muito pouco, são mínimos casos – ela é muito no sentido da linguagem pejorativa, da hostilidade, da piada, do preconceito mesmo de ver os evangélicos talvez como alguém que é fácil de ser manipulado, sobretudo evangélicos em periferia, isso é um tipo de intolerância também”, explica.

Cici de Oxalá, contadora de histórias em iorubá. — Foto: TV Globo/Reprodução

Educação contra a intolerância

Para lutar conta a intolerância, uma escola em Salvador escolheu abrir as portas para a convivência com outras crenças. “O desconhecimento anda de mãos dadas com o desrespeito”, alerta a escritora e professora da Universidade Federal da Bahia, Bárbara Carine.

“Essa escola se propôs, dentro de uma dimensão religiosa, a fazer esse enfrentamento, sim. E dizer que, do mesmo jeito que existe mitologia grega, existe mitologia africana”, completa.

E, de forma integrada, os alunos aprendem a mitologia dos orixás.

“A gente tem que aprender a respeitar. A respeitar a crença e os direitos de cada qual. Agora, realmente, eu não aceito que dizem que Exu é o diabo, não é? Alguém conhece o diabo por aqui? Se alguém conhece, fique pra si, porque eu mesma não quero conhecer”, diz Cici de Oxalá, contadora de histórias em iorubá.

Fronteiras indefinidas: religião e política

Discutir a relação da política com a religião é deparar-se com o estabelecimento de fronteiras. O político no campo da ordem pública, e o religioso, no da vida privada.

Uma outra modalidade de alocação é dizer que o político evoca a razão, enquanto que o religioso se concretiza na esfera do simbólico. No entanto, essa relação não obedece às delimitações oficiais. Observa-se, na prática, a inserção do religioso na política e da política no religioso.

Lembremo-nos da Teologia da Libertação no contexto brasileiro, na década de 1960. Setores eclesiais católi­cos e protestantes tiveram que responder ao conturbado momento político em que vivia a nação. A opção pre­ferencial foi aproximar-se do povo.

A organização das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) foi à con­textualização do texto bíblico para entender e agir naquele momento. Ver, julgar e agir — e dessa experi­ência religiosa foram formados im­portantes quadros políticos.

E quanto às igrejas evangélicas? Para parte da imprensa e dos intelectuais da época, essa expressão religiosa servia como uma com­pensação para o povo sofrido das grandes cidades, e crescia na esteira da desorganização social e da exclusão econômica alienando as massas.

Entre os progressistas, havia o entusiasmo pelas ações politizadas das CEBs e uma desconfiança muito grande com o suposto silêncio dos evangélicos. Com a redemocratização brasileira, a partir da década de oitenta, muitas foram as ações políticas dos grupos religiosos — e muitas foram, por outro lado, as políticas que afetaram os grupos religiosos.

Em nome da Igreja Evangélica, muito tem sido realizado na arena política, ainda que nem tudo seja conhecido pelos crentes. Da alegada alienação na época do Regime Militar, os crentes entraram nos anos 1990 sob a acusação de perpetrar uma participação política ambiciosa, alimentada pela mídia. Ou seja, de uma ou de outra forma os evangélicos estariam deslocados no espaço político.

Alguns episódios colaboraram para tal. Um deles foi a atuação da bancada evangélica na Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 1986. Grande — e negativa — repercussão teve a atuação da maioria dos 32 parlamentares ligados às igrejas, regada a clientelismo.

Desde então, a cada formação das câmaras legislativas, conta-se quantos evangélicos foram eleitos e examinam-se de di­ferentes formas os perigos que tal participação religiosa representa para o sistema político.

Neste particular, o trabalho inaugural do sociólogo Paul Freston continua como uma referência importante. Freston mostra empiricamente como as representações políticas de setores evangélicos elaboraram estratégias de participação eleitoral e, posteriormente, de performances parlamentares.

Na mesma direção vai a antropóloga Regina Novaes, que enxerga uma série de nuances no voto evangélico. Uma delas é de que o crente não restringe seu voto unicamente à vinculação denominacional ou religiosa, mas também à lealdade familiar, sindical e de classe, por exemplo.

Além disso, o simples pertencimento do candidato a uma comunidade cristã não significa, necessariamente, um alinhamento automático de todos os seus membros àquele postulante.

Teorias à parte, estamos frente a um novo período eleitoral, em que ficará mais uma vez nítido que as demarcações de fronteiras entre religião e política são tão arbitrárias quanto imprecisas. A linha que divide os dois campos é imaginária.

Portanto, veremos uma vez mais a invasão política na seara das igrejas evangélicas. Logo depois, teremos de novo parlamentares eleitos profanando o espaço público com supostos discursos e práticas representativas do rebanho evangélico. E va­mos ter que explicar novamente que não reconhecemos como tais nossos supostos representantes.  Corar de vergonha é um bom princípio — mas, é pouco.


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