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Intolerante religioso, padre de Nova Andradina atribui tragédia no RS a religiões de matriz africana

Publicado em 22/05/2024 8:22 - Victor Barone

Divulgação Midjourney

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O padre Paulo Santos, da paróquia São Francisco de Paulo no município de Nova Andradina (MS), protagonizou um retorno forçado à Idade Média, aquela, onde se queimavam mulheres e homens por “bruxaria” para que o cristianismo reafirmasse seu poder sobre as pessoas e lhes roubasse os bens.

Santos virou alvo de denúncia no Ministério Público Federal (MPF) por intolerância religiosa, após falas preconceituosas sobre as enchentes no Rio Grande do Sul, durante a “Missa Solidária em Oração Pelo Rio Grande do Sul”, realizada no último dia 8, quando foi pilhado em vídeo, coberto por uma bandeira do Rio Grande do Sul, relacionando a tragédia as religiões de matriz africana, as quais ele se referiu genericamente como “macumba”.

“Eu farei um alerta a todos nós. O Rio Grande do Sul há muito tempo abraçou a bruxaria e o satanismo. Há muito tempo o meu povo tem se afastado de Deus”, diz o padre que também é gaúcho.

Ele disse ainda, reforçando o festival de extremismo religioso, que o estado é o mais ateu do país. “O secularismo chegou ao Rio Grande do Sul o estado mais ateu da federação. Existem mais centros de macumba na cidade de Porto Alegre do que no estado da Bahia inteiro”.

Em nota, o MPF afirmou que a denúncia será apurada por “suposta prática de crime previsto no artigo 20 da Lei n° 7.716/1989 (Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional)”.

A denúncia ao MPF fala em “pregação criminosa” que está “repleta de preconceitos religiosos”. O pedido é que “considerando que vivemos em um Estado laico, e que é vedado pelo ordenamento jurídico o preconceito religioso, solicita ao agente ministerial, com base nas suas prerrogativas constitucionais, investigue o caso e, uma vez correta constatado as violações civil e criminais, proceda no encaminhamento das devidas sanções”.

O prazo para coleta de informações iniciais é de 30 dias, prorrogável por mais 90 dias.

Casos de intolerância religiosa ligando a tragédia no sul à religião têm ocorrido constantemente nas redes sociais. Na semana passada o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denunciou uma mulher de 43 anos, moradora de Governador Valadares. Nas redes sociais, inspirando o padreco, ela também associou a tragédia climática no Rio Grande do Sul ao culto de religiões de matriz africana.

No Instagram, Michele Dias Abreu se descreve como cristã, mãe, esposa e empreendedora. Fontes confirmaram o nome ao Estadão. O perfil com mais de 30 mil seguidores está “fechado”. Isso significa que a influenciadora decidiu que apenas pessoas que a seguem podem ver suas publicações.

Homofobia na tragédia

O vereador Sérgio Nogueira (PP), de Dourados, também abriu a tampa do esgoto ao usar de homofobia para criticar a atuação do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, na tragédia climática que afetou mais de dois milhões de pessoas no estado.

Em seu discurso, na semana dedicada ao combate contra a LGBTfobia, Sérgio Nogueira afirmou que o governador gaúcho estaria mais preocupado com seu “primeiro-damo” do que com as vítimas das enchentes.

Em setembro de 2014, o mesmo vereador foi alvo de críticas após sugerir que homossexuais fossem colocados em uma ilha por 50 anos.

“Eu respeito quem quiser fazer o que quiser do seu corpo, pode, pode fazer o que quiser, mas não venha me dizer que isso é normal e que a sociedade precisa agir assim. Basta colocar as pessoas que pensam dessa forma numa ilha. Coloca numa ilha. Deixa lá quem quer viver a sua homossexualidade, lá numa ilha 50 anos. Coloca duas ilhas, duas ilhas, 50 anos. Daqui 50 anos não tem mais ninguém. Por quê? Porque a família é constituída de pai, mãe; macho, fêmea; homem, mulher; e daí vêm os filhos”.

Este também não foi o único pronunciamento de cariz homofobia da onda da enchente rio-grandense. Uma mulher que se diz moradora de Porto Alegre gravou um vídeo atribuindo a tragédia no Rio Grande do Sul ao fato de o governado ser gay.

Alegando falar para as igrejas e para os “patriotas”, classificados por ela como “povo que olha Deus acima de todos e o Brasil acima de tudo”, a mulher pediu que os eleitores de Leite peçam desculpas por terem votado nele para que se possa “aplacar a ira de Deus”…

O livre exercício de cultos religiosos e a liberdade de crença são realidades protegidas pela nossa Constituição. No entanto, casos de desrespeito e ataques no Brasil têm sido cada vez mais frequentes. É o que afirmam os números do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, estão entre as cinco mais seguidas no Brasil, com mais de um milhão de adeptos.

O registro de denúncias sobre intolerância religiosa feitas ao Disque 100, um serviço do governo, cresceu – sobretudo após 2021, um ano depois do início da pandemia da Covid-19. Também aumentaram as violações – que são os diversos tipos de violência relatados.

Em 2018, foram registradas 615 denúncias denúncias de intolerância religiosa no Brasil. O número saltou para 1.418 em 2023, um aumento de 140,3%. Já o número de violações passou, no mesmo período, de 624 para 2.124, um salto de 240,3%. Entre 2022 e 2023, o aumento das denúncias foi de 64,5% e, o de violações, de 80,7%.

Victor Barone

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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