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Especial

DIA DE LUTA

O 5x2 como herança das origens do 1º de Maio

Publicado em 01/05/2026 12:24 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O 1º de Maio não nasceu de celebrações, mas de confrontos — e talvez por isso continue tão atual. Forjado nas ruas de Chicago, em meio à greve geral de 1886 e ao episódio sangrento da Revolta de Haymarket, o Dia Internacional dos Trabalhadores carrega, desde sua origem, a marca da disputa entre capital e trabalho, entre o tempo de viver e o tempo de produzir. Se ontem a reivindicação era a jornada de oito horas frente a rotinas de até 16, hoje, no Brasil, o debate sobre o fim da escala 6×1 expõe uma permanência incômoda: a dificuldade histórica de transformar conquistas formais em condições reais de dignidade. Mais de um século depois, a pergunta que ecoa não é apenas sobre o que foi conquistado, mas sobre o que ainda se naturaliza como inevitável — e até quando.

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O Primeiro de Maio, celebrado em diversos países como o Dia Internacional dos Trabalhadores, é muito mais do que uma data comemorativa. Trata-se de um marco histórico profundamente enraizado na luta social, organização política e resistência contra a exploração do trabalho. Sua origem remonta ao final do século XIX, em um contexto de industrialização acelerada, jornadas extenuantes e ausência de direitos básicos para a classe trabalhadora.

Origem nos Estados Unidos e a luta pelas 8 horas

A história do Primeiro de Maio está diretamente ligada às mobilizações operárias nos Estados Unidos, especialmente em Chicago, em 1886. Naquele período, trabalhadores enfrentavam jornadas que chegavam a 14 ou até 16 horas diárias, sem garantias trabalhistas mínimas.

No dia 1º de maio daquele ano, cerca de 340 mil trabalhadores participaram de uma greve geral em várias cidades americanas, exigindo a redução da jornada para oito horas diárias — uma reivindicação que se tornaria símbolo universal da luta trabalhista.

A mobilização seguiu nos dias seguintes e culminou, em 4 de maio, no episódio conhecido como Revolta de Haymarket. Durante um protesto na praça Haymarket, uma bomba foi lançada contra policiais, que responderam com violência. O confronto resultou em mortos e feridos, e deu início a uma onda de repressão contra líderes operários e sindicalistas.

Mártires de Chicago e a construção de um símbolo

Após os acontecimentos de Haymarket, oito líderes anarquistas foram presos, acusados de conspiração. Quatro deles foram executados, mesmo sem provas concretas de envolvimento direto no atentado. Esses trabalhadores passaram a ser conhecidos como os “Mártires de Chicago”.

O episódio teve repercussão internacional e se transformou em símbolo da repressão contra o movimento operário. Em 1889, durante o Congresso da Segunda Internacional Socialista, em Paris, decidiu-se instituir o 1º de maio como uma data de mobilização global dos trabalhadores, em homenagem aos mártires e à luta pelas oito horas.

Luta antiga

Mas, para entender como tudo começou, é preciso voltar ainda mais no tempo e chegar à Inglaterra do início do século 19, em que homens, mulheres e crianças trabalhavam de 16 a 18 horas por dia nas fábricas têxteis de Manchester.

Em 1802, foi criada a chamada “Lei de Saúde e Moral dos Aprendizes”, considerada a primeira legislação trabalhista do mundo, que limitava a jornada de aprendizes —incluindo mulheres e crianças.

Consolidação como data internacional

A partir do final do século XIX, o Primeiro de Maio passou a ser celebrado em diversos países com manifestações, greves e atos políticos. A data tornou-se um instrumento de organização da classe trabalhadora, frequentemente associado a pautas como melhores condições de trabalho, salários dignos e direitos sociais.

Curiosamente, nos Estados Unidos — onde o movimento teve origem — o “Labor Day” foi oficializado em setembro, em uma tentativa de esvaziar o caráter político do 1º de maio e evitar sua associação com movimentos socialistas e anarquistas.

“Aí, tornou-se uma efeméride mundial. A partir daí, os países e os trabalhadores foram adotando essa data, cada um de um jeito. Mas, de forma geral, o significado é confronto. Era um dia de greve, um dia de luta, porque o patronato não queria absorver isso. Entendia que era custo a redução de trabalho”, disse o professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Bernardo Kocher.

Naquele momento, a indústria estava trocando a produção: a remuneração por peça, passava a ser de remuneração por carga, ou seja, por hora trabalhada. “Então, era possível reduzir a jornada, mas os patrões não queriam isso, porque era aumento de custo: menos trabalho e mesmo salário. Implicava diminuir jornada, mas não o salário.”

Kocher explicou que com menos horas de trabalho, o operário teria condições de trabalhar melhor e isso resultaria em mais emprego, mais consumo. “Foi uma batalha um tanto, digamos, física. Em alguns lugares, era confronto com a polícia enquanto uma coisa simbólica, de narrativa, para que a lógica dos trabalhadores se sobrepusesse à lógica do capitalismo”.

Uma data de memória e luta

Mais do que uma comemoração, o Primeiro de Maio é um lembrete das conquistas obtidas por meio da organização coletiva e também dos desafios que persistem. Direitos hoje considerados básicos — como jornada limitada, férias remuneradas e proteção social — foram resultado de décadas de luta e, em muitos casos, de sangue derramado.

Em um mundo em constante transformação, a data segue atual. Ela convida à reflexão sobre o futuro do trabalho, a dignidade humana e o papel das instituições na proteção dos trabalhadores.

Ao revisitar sua história, fica claro que o Primeiro de Maio não é apenas uma data no calendário — é um símbolo permanente da luta por justiça social.

O Primeiro de Maio no Brasil

No Brasil, as primeiras celebrações do Primeiro de Maio ocorreram ainda no início do século XX, impulsionadas por imigrantes europeus, especialmente anarquistas italianos e espanhóis, que trouxeram consigo tradições de organização anarco-sindicalistas e ideias socialistas.

A data ganhou força com o avanço da industrialização e das lutas operárias nas cidades. Em 1917, a greve geral em São Paulo — uma das mais importantes da história do país — consolidou o Primeiro de Maio como um momento de mobilização política e reivindicação de direitos.

A data foi oficializada no país por decreto, em setembro de 1924, pelo então presidente Arthur Bernardes, determinando que, a partir de 1º de Maio de 1925, o dia fosse “consagrado à confraternidade universal das classes operárias e em comemoração dos mártires do trabalho”.

Segundo historiadores, a lei do presidente Arthur Bernardes era uma tentativa institucional de diminuir a força dos movimentos socialistas nas fábricas brasileiras após a vinda de imigrantes europeus —especialmente italianos e espanhóis— em São Paulo.

Ao longo das décadas seguintes, o 1º de Maio foi sendo incorporado também pelo Estado brasileiro. Em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) foi instituída nessa data.

As lutas trabalhistas no Brasil, no entanto, já vinham de antes, como mostra a greve geral de 1917 em São Paulo.

Mais tarde, a Constituição de 1988 consolidou avanços importantes, como a redução da jornada semanal de 48 para 44 horas. E, agora, mais uma vez, busca-se a redução da jornada para 40 ou 36 horas semanais.

O sociólogo Clemente Vanz Lúcio, presidente do Fórum das Centrais Sindicais, afirma que, apesar das transformações históricas, as disputas centrais do mundo do trabalho permanecem as mesmas: a divisão do produto econômico entre salários, lucros e capital continua sendo o eixo do conflito.

No passado, jornadas exaustivas de até 12 ou mais horas, baixos salários e ausência de direitos básicos marcavam a relação entre trabalhadores e empregadores. Hoje, o cenário ressurge sob novas formas, embora seja preciso destacar a evolução das condições, com outros direitos sendo conquistados.

“As pessoas continuam considerando que o trabalho é essencial para as condições de vida, mas declaram que querem viver mais do que trabalhar. Mas é o trabalho que as faz viver coletivamente e permite a possibilidade de conexão e a sociabilidade, algo muito valorizado.”

Para o professor de direito do trabalho no Insper, Ricardo Calcini, hoje, há uma inversão de lógica sobre o espaço que o trabalho ocupa em nossas vidas. Se antes ele era o fim em si, hoje tende a ser visto como meio para alcançar objetivos pessoais, familiares e sociais.

Sobre a redução da jornada, o especialista afirma que é um movimento irreversível. “Eu tenho a dizer que é um movimento irreversível e que cada vez mais as pessoas estão valorizando o ser humano no centro dessa relação [trabalho e capital].”

Disputa política e significado contemporâneo

Ao longo do século XX e início do XXI, o Primeiro de Maio se manteve como uma data de disputa política. Em diferentes contextos históricos, foi apropriado tanto por movimentos progressistas quanto por governos que buscavam legitimação junto à classe trabalhadora.

No Brasil contemporâneo, a data continua sendo marcada por atos sindicais, manifestações populares e eventos políticos. Em um cenário de transformações no mundo do trabalho — com avanço da precarização, da informalidade e das plataformas digitais — o significado do Primeiro de Maio ganha novos contornos.

Jornada 6×1

Em 140 anos, importantes conquistas promoveram regulamentação e atenuaram os abusos do início da industrialização. No entanto, as condições de trabalho também se transformaram e hoje permitem maior equilíbrio na organização do tempo e da produção e na distribuição dos ganhos. Avançar nesse sentido é fundamental para construir uma sociedade mais justa.

Além disso, a partir da década de 1980, com as crises do capitalismo, houve uma desestruturação dos setores produtivos, marcada pelo aumento do desemprego, pela expansão da terceirização e pelo crescimento da informalidade.

Esse cenário foi aprofundado com a reforma trabalhista de 2017, que abriu brechas para a precarização e para o aumento da jornada, ao flexibilizar regras de contratação e normas relacionadas ao tempo de alimentação, descanso e deslocamento.

Para os trabalhadores na informalidade, a situação é ainda pior. Muitos revivem os abusos do início da industrialização, com jornadas que chegam àquelas 17 horas diárias do século 19. Trata-se de um contingente que permanece à margem das conquistas acumuladas ao longo destes 140 anos de luta.

Diante desse quadro, a defesa da redução da jornada não é apenas uma pauta histórica —é uma necessidade contemporânea. E ela envolve mais do que o tempo de trabalho: a carga horária excessiva provoca desgaste físico, rebaixamento salarial, dificulta o acesso à formação e agrava a saúde mental.

Assim, ao completar 140 anos, o 1º de Maio reafirma seu sentido original: a luta pelo tempo de vida. Em um mundo marcado por avanços tecnológicos, de um lado, e novas formas de exploração, de outro, resgatar essa luta é atualizar o significado histórico da data, mantendo viva a busca por dignidade, equilíbrio e justiça social para a classe trabalhadora.

Mesmas lutas

Ao ser indagado sobre o projeto de redução da jornada de trabalho 6×1, Bernardo Kocher avaliou que se trata da mesma discussão do 1º de maio. “É igualzinho. Eu li os jornais da época (do início da República) e estou vendo a mesma palavrória. Os argumentos são os mesmos”.

Ele destacou que a produtividade hoje é imensa e o empresário tem mil recursos para aumentar a produtividade, mas não quer ceder.

Segundo o professor, embora um dia a menos de trabalho se faça necessário para a vida humana, mas não para o capital, o empresariado não quer assumir.

“Ele quer que o Estado assuma, alega que tem que cortar benefícios dos trabalhadores, cortar o salário principalmente. A última análise é isso aí, diminuir o salário. É a mesma situação.”

No passado, com a redução da jornada para 8 horas/dia, o trabalhador produziu mais e melhor, houve mais emprego, mais consumo. “Então; se perde por um lado, ganha pelo outro. Isso só ocorreu no passado com a intervenção do Estado obrigando. Foi uma ditadura (Getulio Vargas) que obrigou, porque todo o mundo já estava fazendo isso. A Revolução Russa, por exemplo, ameaçou e obrigou os empresários a cederem”. Segundo expressou, os governos tiveram que entrar na questão “porque não ia ter auto-regulamentação nenhuma”.

A Reforma da Previdência de 2019, que foi o principal projeto da equipe do ministro Paulo Guedes, na gestão do então presidente Jair Bolsonaro, consolidou na Constituição Federal que a aposentadoria compulsória para servidores públicos (União, Estados e Municípios) ocorra automaticamente aos 75 anos de idade, com proventos proporcionais.

Na avaliação de Bernardo Kocher, a emenda provocou a perda de direitos trabalhistas ao dar aos empresários a opção de demitir os trabalhadores celetistas com 75 anos de idade sem direito a receber indenização pelo tempo trabalhado, nem à multa de 40% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

“Eles estão há décadas cortando direitos, porque o mundo do trabalho mudou muito. O mundo hoje é de serviços. A competição é global, a China produz tudo muito mais barato. Então, se a classe trabalhadora está vulnerável, essa legislação (da emenda Paulo Guedes) passa”.

Para o professor da UFF, a perspectiva para o trabalho não é nada boa. “Hoje, o mercado domina o mundo do trabalho. E isso leva à precarização, leva à pejotização (contratação de pessoas jurídicas), à redução de salários e o Estado não quer intervir mais na economia.”

Sociologia do trabalho

Na ótica do professor de Sociologia do Trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), Marco Santana, o 1º de Maio mantém um significado profundamente político, ainda que seu sentido tenha se transformado ao longo do tempo.

“É, como se diz, dia de luta e luto. Ele surgiu no final do século 19 como um dia de luta, ligado à memória das greves operárias de 1886 em Chicago, que reivindicavam a jornada de oito horas e foram violentamente reprimidas.”

De acordo com Santana, desde então, o 1º de Maio simboliza a afirmação de que os direitos trabalhistas não são concessões naturais do progresso ou mesmo das classes dominantes, mas conquistas obtidas por meio de lutas, conflito social e organização coletiva.

Ao longo do século 20, o dia, marcado por um feriado, acompanhou a consolidação dos direitos do trabalho em muitos países, por meio de legislação trabalhista, sindicatos reconhecidos, previdência social e limites à jornada. Em vários contextos, porém, esse caráter combativo acabou por ser institucionalizado.

“O 1º de Maio passou a ser celebrado como data cívica, com cerimônias oficiais e discursos, muitas vezes esvaziando sua dimensão de protesto e de críticas ao capitalismo”, disse, em entrevista à Agência Brasil.

Marco Santana observou, entretanto, que no século 21, o significado do 1º de Maio volta a se tensionar. “As transformações recentes do mundo do trabalho — como a precarização, a informalidade, o trabalho por aplicativos, o enfraquecimento sindical e a redução drástica de direitos laborais — recolocam o 1º de Maio como um dia de denúncia e reinvenção das lutas trabalhistas”.

Ao mesmo tempo, as pautas se ampliaram. “Não se trata apenas e somente do emprego industrial clássico, mas também do trabalho de cuidado, do trabalho racializado, das questões ambientais e da relação entre trabalho, tecnologia e vida. A luta contra a escala 6×1, por vida além do trabalho, por exemplo, é uma pauta central e inescapável nesse 1º de Maio em nosso país”.

No entender do professor do IFCS/UFRJ, o 1º de Maio expressa hoje uma dupla dimensão: é memória histórica das lutas que fundaram direitos sociais e, simultaneamente, um alerta sobre sua fragilidade. “Mais do que comemorar conquistas passadas, o feriado reafirma que o direito ao trabalho digno, ao tempo livre e à vida para além da mercantilização continua sendo uma questão aberta e disputada”.

E então?

Se a história do 1º de Maio ensina algo, é que nenhum direito trabalhista nasce como concessão espontânea — ele é, antes, resultado de conflito, organização e pressão contínua. Do eco das ruas de Chicago em 1886 à persistência de jornadas extenuantes no Brasil contemporâneo, o que se revela é menos uma linha de progresso contínuo e mais um campo de disputas em permanente reconfiguração.

A escala 6×1, nesse sentido, não é apenas uma questão de carga horária, mas um sintoma de como o tempo do trabalhador ainda é tratado como recurso elástico, subordinado à lógica produtiva. Encerrar essa discussão sem enfrentá-la de forma estrutural seria repetir um padrão histórico: celebrar avanços enquanto se tolera a permanência de desigualdades profundas. A data, portanto, não se esgota na memória — ela cobra atualização, tensiona consensos e exige que se responda, no presente, à mesma pergunta que mobilizou operários no século XIX: quanto vale, afinal, o tempo de uma vida?

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