18/05/2024 - Edição 540

Entrevista

“Teremos liberdade quando travesti fizer todos os papéis”, diz atriz

Monólogo de Renata Carvalho foi a primeira peça brasileira selecionada para festival berlinense. Em entrevista, ela falou sobre a relação da comunidade trans com a cidade, democracia e liberdade

Publicado em 06/05/2024 9:09 - Sofia Fernandes - DW

Divulgação Foto: Sofia Fernandes/DW

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A sala está escura e enfumaçada. A palavra “travesti” pisca no pano de fundo preto – é uma das poucas que não precisam de tradução. Renata Carvalho entra no palco, apenas seu corpo seminu é iluminado, o rosto não. “O meu corpo veio antes de mim, sem eu pedir”, diz a atriz e escritora no início do monólogo Manifesto Transpofágico, em que narra a construção da identidade transgênero, batalha que se trava sobretudo no corpo.

A peça teve três apresentações no fim de abril em Berlim, parte da programação do Find (Festival International da Nova Dramaturgia). Foi o primeiro espetáculo brasileiro selecionado em 25 anos do festival. “A Europa precisa desconstruir a imagem da travesti”, disse Carvalho no momento do espetáculo em que improvisa e abre o microfone para a plateia. Ela vai de perguntas mais triviais, como “você sabe o que é ser cis?” – à qual responde, diante da dúvida de poucos, “quem não sabe é” – a depoimentos íntimos pessoais e da plateia.

A atriz foi responsável pela fundação do Coletivo T – primeiro grupo composto só por artistas trans, em São Paulo. Também criou o Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans), que, em 2017, lançou o Manifesto Representatividade Trans. Nesse mesmo ano, a atriz ganhou destaque ao interpretar Jesus Cristo na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela dramaturga britânica Jo Clifford, que foi censurada em Jundiaí e Salvador e rendeu a Carvalho ameaças diárias de morte. 

Em entrevista à DW, a atriz contou como foi trazer o espetáculo para a Alemanha, destino de muitos brasileiros em busca de segurança, movimento que ela chama de “diáspora travesti”. Para ela, a cidade é especialmente simbólica por ter sediado os primeiros estudos e aconselhamentos sobre a transexualidade, há cem anos.

Em 1919, o médico alemão Magnus Hirschfeld criou em Berlim o Instituto de Sexologia, com uma ampla e inédita pesquisa sobre sexualidade. O extenso arquivo de documentos, relatórios e livros da instituição foi queimado pelo nazismo.

 

Como foi trazer o Manifesto Transpofágico para Berlim?

Era uma vontade minha há um tempo de vir para Berlim com esse trabalho. Eu tenho pesquisado alguns países da diáspora travesti do Brasil, e a Alemanha era um dos lugares onde eu precisava chegar. Há muitas histórias de travestis brasileiras. Aqui também tem uma ligação com a história do Instituto de Sexologia, do Magnus [Hirschfeld]. Acredito que estamos voltando para o que ele estava fazendo em 1900 e pouco.

Estamos falando de cem anos atrás…

Exatamente. Para você ver como é fácil destruir as coisas, difícil é construí-las. Então eu tinha esse desejo como atriz e como transpóloga. Já passamos por oito países com o espetáculo – Brasil, Itália, França, Espanha, Portugal, Irlanda, Chile e Uruguai. Era importante estar aqui também.

Que diferença você sentiu no público em cada país?

Foi diferente em cada uma das três apresentações aqui, e é diferente em todas as plateias, independentemente do país. Algumas são mais difíceis, outras mais educadas, outras mais neutras, outras querem ser mais desconstruídas. Depende muito de quem está no momento.

Há algum lugar no mundo onde o corpo trans não causa espanto?

O corpo trans causa espanto em qualquer lugar. Ele causa esse desconforto, ele abala o lugar aonde chega. Então isso vai depender muito da evolução de cada ser humano, de cada país. Uns são mais avançados, outros não. Mas avançado mesmo em questão trans é o Brasil. Não conheço nenhum lugar no mundo com tantas pessoas trans nas artes, na universidade, na política, por mais que seja um país muito violento.

Na época de “Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, você foi alvo de ações coordenadas de ódio e fake news nas redes. Como está essa relação hoje em dia?

Isso era mais na época de Jesus. Quando resolvi parar, em 2019, foi por uma questão de saúde mental mesmo. Eram notícias absurdas. Derrubaram minhas redes sociais para dizer que eu tinha morrido, ameaças de morte todos os dias. Cheguei a usar colete à prova de bala. Foi um período muito obscuro, mas ao mesmo tempo levantou questões importantíssimas na arte. Denunciou a ausência de corpos trans, levou a minha voz aonde jamais poderia ter imaginado.

O tema central do festival foi a democracia e a liberdade. Como o seu trabalho se relaciona com esse tema, frequentemente sequestrado por regimes autoritários?

A liberdade é quando você está livre ou quando o outro está livre? Eu luto pelo que eu chamo de uma democracia cênica – ampla, geral e irrestrita. Para que todos os corpos possam ser tudo na arte. Por isso que hoje eu peço uma pausa de 30 anos na prática do “transfake”, e que realmente incluam corpos trans. Para que todos os corpos se tornem naturais e humanos, para que todo mundo possa começar como uma tela em branco e então desenhar sua curva dramática. Para que corpos marcados não tenham só personagens marcados. Acho que quando uma travesti, ou uma pessoa negra retinta, puder fazer todos os papeis, aí teremos alcançado essa liberdade artística de todos os corpos.


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