25/02/2024 - Edição 525

Entrevista

Athayde Nery fala de suas propostas para Campo Grande

Publicado em 23/09/2016 12:00 -

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Formado em Direito pela UCDB, é casado e pai de três filhos. Na década de 60 atuou no movimento estudantil. Trabalhou para a criação do Sindicato Estadual dos Servidores do Poder Judiciário e presidiu a Federação dos Servidores Públicos de MS. Em Campo Grande foi vereador por quatro mandatos. Em 2009, presidiu a Fundação Municipal de Cultura e em 2015 dirigiu a Secretaria de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação do Governo do Estado. Como poeta, publicou três livros. Athayde é candidato pelo PPS, partido ao qual pertence há 34 anos.

 

Tradicionalmente a Saúde no país tem sido tratada sob a ótica "hospitalocêntrica", com foco nos hospitais, na remediação da doença já instalada, ao invés do modelo que foca a prevenção. Que modelo de Saúde pretende adotar em Campo Grande?

Hoje, toda a estratégia de Saúde da capital é focada em ações paliativas. O sistema está desorganizado, desde o momento em que o cidadão chega a uma UPA para um atendimento emergencial, até a hora em que precisa marcar uma consulta. Temos que reorganizar todo o atendimento no setor, colocando o foco no cidadão. Este será o grande parceiro do prefeito na avaliação do sistema, dando nota ao atendimento e sugerindo as melhorias através do uso de aplicativos.

É preciso, também, inverter o foco estratégico. A cidade precisa de um pronto socorro municipal? Sim, e vamos trabalhar neste sentido. Mas ela precisa também investir na prevenção. Campo Grande está muito abaixo das metas de cobertura de Unidades Básicas de Saúde da Família e de equipes de Agentes de Saúde preconizadas pelo Ministério da Saúde. Se os hospitais estão cheios, em parte é por este motivo. Sem prevenção, o resultado é o caos.

Mas, é claro, não podemos nos esquecer de tratar a doença e as emergências. Por isso, vamos estabelecer uma relação muito franca e saudável com os profissionais da saúde para melhorar e fortalecer o atendimento para as pessoas. Buscaremos este entendimento, valorizando-os, mas também cobrando responsabilidades públicas

Vamos reestabelecer o diálogo com as instituições que garantem a saúde dos campo-grandenses, como o Governo do Estado e a Santa Casa. Hoje, estas pontes estão destruídas pela inabilidade política dos últimos gestores.

Vale dizer, também, que a questão da saúde é muito mais complexa do que o simples tratamento da doença. Temos que tratar da saúde das pessoas para que não precisemos tratar das doenças. Vivemos em uma sociedade doente, ela tem que ser saudável. Para isso, temos que ter ações nas mais variadas áreas: na promoção do esporte, nas boas práticas alimentares, na educação – e esta semente a gente planta lá nas Escolas em Tempo integral, que vamos ampliar e fortalecer.

Lembro, ainda, que a saúde é também um tema transversal. Ou seja, ela se relaciona com outras questões, como por exemplo o trânsito. Temos um imenso número de pessoas acidentadas que estrangulam as emergências. Cabe a Prefeitura atuar aí com campanhas educativas e de fiscalização sobre o excesso de velocidade.

Finalmente, não podemos nos esquecer da importância das parcerias público-sociais junto à imensa rede de voluntariado que está espalhada pela cidade e, hoje, vive de pires nas mãos diante da Prefeitura. Estas entidades, como a APAE, o Asilo São João Bosco, a Pestalozzi, a AACC, o Instituto Juliano Varela, entre outras serão valorizados na nossa gestão.

Que mudança fundamental pretende adotar na Rede Municipal de Ensino para oferecer uma Educação de qualidade aos jovens da capital?

Em primeiro lugar, é preciso compreender que não dá para falar em educação sem conversar com quem está dentro das escolas: os professores, o corpo técnico-administrativo e os estudantes. Na nossa gestão, este diálogo será permanente. Neste sentido, uma de nossas primeiras medidas será o estabelecimento de eleições diretas para os diretores de escolas e Ceinfs, só assim vamos envolver a sociedade na fiscalização e na melhoria da educação.

Penso que, em Campo Grande, tem uma escola do século 19, professores do século 20 e alunos do século 21. Portanto, é preciso modernizar a nossa educação. Para se ter uma ideia, só neste ano, 40 mil jovens sul-mato-grossenses abandonaram as escolas. Tem algo errado aí. Para fazer frente a esta questão, vamos investir na valorização e qualificação dos profissionais da educação e na modernização tecnológica das escolas das áreas urbana e rural.

A educação é a principal riqueza de um povo. Não tem como pensar numa sociedade próspera sem que se invista na educação. E é isso que vamos fazer, investindo na ampliação do conceito de Escolas em Tempo Integral. Hoje, temos mais de 100 mil alunos e apenas duas escolas deste tipo. Ora, as escolas têm que ser espaços constantes de educação, esporte, saúde, qualificação e cidadania. Por que não organizarmos atividades extracurriculares nos finais de semana a partir de parcerias com entidades públicas e privadas? Por que não estabelecermos uma relação entre os estudantes e a cidade, promovendo visitas a lugares históricos e de lazer?

Outro ponto importante é a ampliação das vagas nos Ceinfs. Este não é um direito dos pais, mas das crianças. Não é aceitável que uma família fique desamparada em um assunto tão importante e que envolve toda a família. Por isso, vamos reestruturar a rede para que a ampliação destas vagas seja possível em curto prazo.

O Transporte começa a ser um ponto de estrangulamento em Campo Grande. Que medidas pretende tomar para fazer frente a este desafio?

É preciso repensar a forma como as pessoas se deslocam pela cidade. Temos um dos piores sistemas de sinalização de trânsito das capitais. Estamos usando técnicas do século 19 em pleno século 21. A questão da mobilidade urbana tem que ser pensada de forma mais ampla.

No que se refere ao transporte de massa, vamos melhorar a oferta e a qualidade dos ônibus na cidade. Temos, também, que, a partir de parcerias público-privadas, reformar totalmente os pontos de ônibus que, em muitos locais, especialmente nos bairros, não passam de um poste a céu aberto. Precisamos ampliar e modernizar os terminais. Para melhorar a circulação, iremos investir em um novo sistema de sinalização com a implantação da onda verde e de corredores exclusivos para os ônibus.

O transporte alternativo deve ser incentivado. Mas não basta construir ciclovias, é preciso criar condições para o uso das bicicletas, por exemplo criando bicicletários nos terminais de ônibus, entre outras ações.

Outro tema sobre o qual nos debruçaremos é o monopólio no setor de táxis. Hoje, centenas de taxistas são dominados por pequenos grupos. Vamos moralizar esta relação, fiscalizar e melhorar o serviço.

Finalmente, Campo Grande precisa olhar para o futuro e dar início aos planos para um transporte de massa mais eficiente, como o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT). Vamos iniciar os estudos para a sua implantação num futuro próximo.

Que ações serão efetivadas para a geração de emprego e renda em Campo Grande?

Em primeiro lugar é preciso desburocratizar e melhorar o ambiente de negócios com redução de prazos para abertura, ampliação e baixa de empresas e otimização dos processos de licenciamento, regularização e acesso a incentivos. Vamos criar a Agência de Desenvolvimento e Inovação para empreender iniciativas indutoras do crescimento econômico municipal com foco nas oportunidades dos negócios inovadores e geradores de empregos.

Também pretendemos aperfeiçoar o Programa de Parcerias Público-Privada com foco na concessão de serviços sustentáveis; tornar efetiva a fiscalização do cumprimento das exigências das contrapartidas das empresas com recurso municipais, concedidos através do PRODES, além de propor a Lei Municipal da Inovação para fomento de atividades inovadoras, geradoras de renda e emprego, via concessão de subsídios.

Finalmente, vamos ampliar e revitalizar os pólos empresariais; fortalecer o programa de incubadoras municipais; concluir o Terminal Intermodal de Cargas (porto seco) e fortalecer a agricultura familiar com foco na produção de orgânicos. Outro aspecto importante é o turismo. Estamos às margens do Pantanal e não podemos nos dar ao luxo de perder a oportunidade de fortalecer esta importante cadeia produtiva.

É preciso pensar a geração de emprego a partir do potencial da cidade, do desenvolvimento local. Temos que gerar empregos de qualidade na cidade. Para isso temos que fomentar o empreendedorismo local. Por exemplo, somos uma cidade de serviços. Já pararam para pensar no que gira a volta dos serviços de saúde? Milhares de pessoas vêm a Campo Grande para receber atendimento gerando oportunidades para hotéis, restaurantes, taxistas, serviços periféricos ligados à saúde, etc. A Prefeitura pode agir para organizar este setor assim de otimizar o atendimento, a geração de renda e emprego.

Em uma cidade de quase um milhão de habitantes é natural que a questão da segurança pública necessite de atenção redobrada. Que medidas pretende tomar nesta área?

Acreditamos no conceito de defesa social: quando a estratégia da segurança pública transborda da simples questão repressiva para a prevenção. Sim, a segurança tem que ser preventiva também. Para isso, vamos criar mecanismos de participação da sociedade para que o cidadão possa atuar em parceria com a polícia e a guarda municipal por meio de aplicativos. Mas, mais importante, este conceito envolve a ocupação dos espaços públicos, a transformação do abandono urbano em espaços de civilidade. Envolve a política de iluminação pública, de esporte, cultura e lazer nas periferias, de manutenção das praças e parques etc.  

O conceito de defesa social se relaciona também com a educação – por isso nossa proposta de investir nas Escolas em Tempo Integral, para fazer da educação a extensão de um processo de uma cidade pacifica, uma cidade próspera, que respeita os seus cidadãos. Pesquisas mostram que nas regiões onde as escolas funcionam nos finais de semana para atividades multidisciplinares para a comunidade os índices de violência diminuem em até 80%. Isso pode ser feito em Campo Grande. Só assim vamos ter uma defesa social e uma segurança pública voltadas para o cidadão.

Uma das principais preocupações dos brasileiros na atualidade é a Transparência na gestão e o combate a Corrupção. Como pretende encarar estes aspectos vitais para a administração pública?

Transparência é falar a verdade. É abrir a caixa preta. É mostrar para as pessoas o quanto, de fato, custa a gestão pública de uma cidade. Transparência é honestidade, é ser decente, e eu fico muito à vontade para falar disso pois há 30 anos faço parte do PPS, um partido que ficou fora de todos estes grandes escândalos de corrupção que enlamearam o país nos últimos anos. Fico à vontade porque na minha história como homem público sempre tive uma postura ética. Nunca fui apontado em esquemas de corrupção. No nosso governo, todas as contas públicas serão acessíveis e claras. Nada de caixa preta, nada de contas escondidas. Vamos tornar públicas as contas da Prefeitura.

Desde 2013 o Brasil está sendo passado a limpo. Esse é um momento de reflexão nacional. Nos últimos anos, escândalos como o Lixogate, o Petrolão, Lava Jato, Lama Asfáltica, Coffee Break entre muitos outros deixaram as pessoas estupefatas. Ao mesmo tempo, a sociedade vem se mobilizando contra a corrupção. A falta de transparência é a vitrine de um governo corrupto. No entanto, nenhum político corrupto, vereador, deputado ou prefeito chega lá sem voto. Então, meu amigo eleitor e eleitora, faça do seu voto a extensão da sua indignação, vote com absoluta disposição para não dar continuidade a esse processo.

Que peso tem em sua concepção de governo a participação popular na gestão? Que mecanismos práticos pretende adotar para facilitar a participação popular na gestão?

Só passaremos o Brasil a limpo enfrentando esse modelo carcomido, ultrapassado, centralizador, personalista e autoritário quando optarmos por outro, descentralizador, de gestão compartilhada e onde o cidadão seja também um gestor. É isso que propomos, e para tanto nos baseamos em quatro pilares básicos: transparência, para combater a corrupção; eficiência, para ter planejamento de curto, médio e longo prazo; rapidez, para ter resolutividade; e a sua participação.

No nosso governo esta participação se dará em todos os âmbitos, e especialmente por meio das Prefeituras Regionais nas setes regiões da cidade. O conceito de Prefeituras Regionais não é o mesmo dos modelos de Subprefeituras, que são apenas centros administrativos. A ideia é que estes sejam espaços de fomento da cidadania, com a participação da sociedade civil, Associações de Moradores, Associações de Pais e Mestres, Clubes de Mães, Conselhos Regionais, comércio, profissionais da educação, da saúde, jovens etc. Ao lado da Prefeitura, estas representações sociais podem apontar as prioridades para a gestão.

O melhor é que as Prefeituras Regionais vão custar apenas o tempo do prefeito – que estará nestes locais uma vez por mês com seu secretariado. Não há necessidade de um espaço físico, podemos usar as estruturas ociosas da Prefeitura, escolas, postos de saúde, empresas e praças.


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