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Agromundo

Trump pressiona China a comprar mais soja e ameaça agro brasileiro

Dependência de fertilizantes russos põe Brasil na mira do tarifaço

Publicado em 11/08/2025 2:41 -

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A dois dias do fim da trégua tarifária entre Estados Unidos e China, o presidente Donald Trump pediu que Pequim quadruplicasse suas compras de soja americana, movimento que, se concretizado, poderia reduzir de forma significativa a fatia brasileira no maior mercado consumidor do mundo. O anúncio, feito na noite de domingo (10) na rede Truth Social, provocou alta imediata nos preços na Bolsa de Chicago, mas especialistas classificam o cenário como “altamente improvável”.

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Segundo dados oficiais, a China importou cerca de 105 milhões de toneladas de soja em 2024, sendo 22,13 milhões oriundas dos EUA (21%) e 74,65 milhões do Brasil (71%). Para atender à demanda sugerida por Trump, Pequim teria de transferir para os produtores americanos a maior parte de seu consumo anual, o que exigiria mudanças logísticas e contratuais de grande porte. “É altamente improvável que a China venha a comprar quatro vezes o volume habitual de soja dos Estados Unidos”, avaliou Johnny Xiang, fundador da AgRadar Consulting, em Pequim.

A pressão ocorre num contexto de tensão comercial crescente. A trégua tarifária entre Pequim e Washington expira em 12 de agosto, mas Trump sinalizou que a prorrogação pode depender de avanços concretos no comércio agrícola. O republicano voltou a defender a redução do superávit comercial chinês, um ponto central de sua política externa desde o primeiro mandato. A menção à escassez de soja, feita no próprio post, foi acompanhada de um elogio ao presidente Xi Jinping: “Um serviço rápido será prestado. Obrigado, Presidente XI”, escreveu.

Historicamente, a relação comercial sino-americana na soja já enfrentou instabilidades. Em 2020, durante a assinatura do acordo de “Fase Um”, a China se comprometeu a ampliar compras de produtos agrícolas dos EUA. Entretanto, segundo o Peterson Institute for International Economics, o país ficou muito abaixo das metas — cumprindo apenas 57% do volume acordado para 2021.

Enquanto isso, Pequim busca diversificar fornecedores. Recentemente, importadores chineses adquiriram três cargas de farelo de soja da Argentina, buscando preços mais competitivos e reduzindo a dependência dos dois principais fornecedores globais. “Houve sinais de que a China está preparada para renunciar totalmente à soja dos EUA este ano”, afirmou Even Rogers Pay, analista agrícola da Trivium China.

A reação no mercado foi imediata, mas desigual. O contrato de soja mais ativo na CBOT subiu 2,2% nesta segunda-feira (11), a US$ 10,09 por bushel, enquanto o farelo de soja na Bolsa de Dalian, na China, caiu 0,65%, para 3.068 iuanes por tonelada, refletindo expectativas de maior oferta.

Para o Brasil, o pedido de Trump representa mais que um ruído diplomático: é uma possível reconfiguração das rotas globais de exportação do grão. Embora analistas considerem o cenário improvável, o histórico de uso da soja como peça de barganha nas disputas comerciais entre Washington e Pequim mantém o alerta aceso em Brasília.

Dependência de fertilizantes russos põe Brasil na mira do tarifaço

O tarifaço de Donald Trump taxou em 50% grande parte dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos e fez do Brasil, até agora, o país mais atingido dentre uma lista de mais de 60 nações e territórios que tiveram suas tarifas revistas pelo governo americano. A medida, no entanto, pode ser apenas o começo de uma longa batalha comercial envolvendo o agronegócio.

Isso porque o país é um grande comprador de insumos da Rússia, principalmente diesel e fertilizantes. Já desde o último dia 8, os Estados Unidos poderiam pressionar e taxar ainda mais o Brasil em um dos seus mais fortes mercados, o de exportação de produtos agrícolas, que já tende a sofrer com o tarifaço atual, em vigor desde a meia-noite desta quinta-feira.

A desconfiança aumentou ainda mais quando Trump anunciou aumento das tarifas para produtos importados da Índia, que estão em 25% e devem passar a 50% a partir de 28 de agosto – empatando, assim, com o Brasil no topo dos países mais taxados. A medida foi justificada como retaliação indireta à Rússia pela guerra na Ucrânia, já que a Índia é grande compradora de petróleo russo.

Os fertilizantes são compostos químicos aplicados no solo para preparar e melhorar as condições para o plantio, o que influencia diretamente na produção agrícola.

A importação de fertilizantes russos pode bater um novo recorde em 2025. De janeiro a junho deste ano, foram adquiridas quase 6 milhões de toneladas. Em 2024, o maior número da série histórica, foram 12,5 milhões de toneladas.

Outro produto que o Brasil também adquire em grande quantidade da Rússia é o diesel, igualmente na mira de sanções dos EUA. Senadores brasileiros que visitaram o país na semana passada, a fim de tentar sensibilizar o governo Trump, retornaram com a informação de que o montante de combustível russo adquirido pelo Brasil pode estar incomodando ainda mais os americanos.

O diesel fica atrás somente dos fertilizantes no ranking de produtos importados pelo Brasil. Em 2025, mais de 60% do combustível que o país comprou no exterior veio da Rússia.

Mais de 30% dos fertilizantes vêm da Rússia

O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes usados para aumentar a produtividade das lavouras e potencializar áreas produtivas, com o potássio tendo um papel de destaque entre essas substâncias.

Historicamente, 95% do potássio utilizado no Brasil é importado, sendo Rússia e Belarus dois fornecedores tradicionais, ao lado do Canadá. Em 2022, com as dúvidas sobre a continuidade do fornecimento em meio à guerra na Ucrânia, os preços dispararam no mercado internacional, e estimularam a criação do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF).

Quase um terço (31%) do total de fertilizantes importados pelo Brasil vem da Rússia, seguida de China (14%), Marrocos (11%) e Canadá (10%). Dos Estados Unidos, são importados apenas 4%.

O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, com 8% do total, atrás apenas de China, Índia e EUA. E produtos como soja, milho e cana-de-açúcar respondem por mais de 70% do insumo usado no país – o Brasil compete justamente com os Estados Unidos como maior exportador global de soja.

Uma das alternativas, segundo especialistas, seria reestruturar a logística de importações e abrir novas negociações, a fim de concluir novos acordos e ampliar os mercados, a exemplo do aumento das parcerias com Canadá e Marrocos. Isso, no entanto, pode levar tempo.

Medo de sanções

Um aumento das tarifas para o Brasil não tende a ser aplicado diretamente sobre a importação de fertilizantes a partir da Rússia, mas sim sobre as exportações de outros produtos brasileiros para os EUA, em forma de retaliação e pressão econômica.

Em declaração ao jornal Folha de S.Paulo no dia 5 de agosto, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, alertou que o governo brasileiro precisa estar atento para o caso de as sanções americanas envolverem proibições de compras de produtos.

“A posição dos Estados Unidos dada à Rússia foi que, se ela não resolvesse o problema da guerra, eles iriam abrir retaliações que envolveriam quem compra produtos da Rússia. E nós compramos petróleo e fertilizantes, que são muito sensíveis ao agronegócio”, comentou.

Investimentos na produção interna

Se as sanções entrarem mesmo em vigor, seria difícil resolver o problema da noite para o dia. Ainda que o Brasil tenha lançado o PNF em 2022, a meta é produzir cerca de 50% do insumo consumido pelo país somente até 2050. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, os investimentos devem chegar a R$ 25 bilhões até 2030.

A produção interna, porém, é um imenso desafio. Desde 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, os impactos do conflito levaram à disparada de preços e busca por fontes alternativas a uma série de produtos, a exemplo de fertilizantes no caso do Brasil. Isso levou setores a se mobilizarem para que reservas nacionais, incluindo terras indígenas, também passem a ser mais exploradas.

Na época, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro determinou a autossuficiência como prioridade, incluindo a mineração do cloreto de potássio em terras indígenas. O principal projeto fica no Amazonas, na região de Autazes, e é alvo de disputas jurídicas.

No ano passado, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, defendeu o avanço da extração em Autazes. “Potássio é mina, eu não escolho, é natureza. É fundamental para a produção de alimentos. Existe tecnologia para que isso seja feito com sustentabilidade. Estou confiante que teremos uma boa solução, que vai gerar riqueza e trazer segurança alimentar”, afirmou.

Recursos na Amazônia

A expectativa é de que o projeto possa suprir até 25% da demanda brasileira. O relatório A crise dos fertilizantes no Brasil: da tragédia anunciada às falsas soluções, elaborado pelo departamento de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que 11% do total das reservas na Bacia do Amazonas estão em terras indígenas e quase 80% dos recursos se encontram fora da Amazônia, com Minas Gerais possuindo 75% das reservas.

Em Autazes, a mineração gera conflito com o povo indígena mura, já que as jazidas estão em território ocupado pela população. Teme-se que os indígenas sejam obrigados a abandonar as terras, além dos efeitos negativos para o meio ambiente na região. O relatório anual de 2023 do Observatório dos Conflitos da Mineração no Brasil destaca o caso como uma das explorações que mais tiveram disputas agravadas recentemente no país.

SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

Agricultura familiar terá crédito de R$ 1 bi no Centro-Oeste e no Norte

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Sergio Pedra


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