22/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Spoilers da Guerra

Publicado em 11/09/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Depois de meses ignorando os cadáveres que teimavam em encalhar nas praias da Europa, a foto de um menino acerta o estômago da civilização ocidental. Não há uma mãe, um pai, um ser humano decente no planeta que não contemplou aquele horror fotográfico com um nó na garganta. Uma violência desesperada em seu sentido literal: a violência do fim da esperança. Diante deste registro trágico, o ocidente inclui a palavra "acolhida" em seu discurso sobre refugiados. A Alemanha promete receber meia dúzia. O Vaticano, duas famílias. Um ou outro republicano faz muxoxo: "e Dubai? Não vai acolher ninguém?".

Se você é daqueles que gostam de se surpreender e se indignar com o noticiário, se você é desses que se arrepia com a música do plantão do jornalismo da Globo, pare de ler esta coluna agora. A seguir, vamos estragar muito Jornal Nacional e muita capa da Veja dos próximos meses. Considerem-se avisados. Vamos lá.

Uma parcela (poucos, não muitos) dos refugiados será recebida pela comunidade europeia. O suficiente para apaziguar a opinião pública. A maior parte será encaminhada para assentamentos fornecidos pela ONU ou pelos EUA. Síria será atacada e uma nova guerra eclodirá, até que mais um ditador ou um líder extremista islâmico seja fuzilado. Essa guerra durará uns anos e produzirá mais alguns milhares de corpos não fotografados. 

Não são os fatos que mudam o mundo. É a dor do inocente, sob o ângulo certo.

Enquanto isso, a paciência e generosidade da população europeia se esgotam. As residências construídas às pressas para abrigar as famílias sírias (a uma distância confortável da cidade) começam a sofrer com a violência da falta de emprego, de assistência e a segregação. Nos cafés europeus, os clientes já fazem piadas. "Como esses sírios são preguiçosos. Só querem esmola, nada de trabalhar. Assim esse país não vai pra frente. Vê outro capuccino, marronzinho. Sacou? Marronzinho. ahahah" 

A piada fica manjada, vira clichê, vira estereótipo, vira preconceito e vira agressão, toda vez que um jovem sírio comete um crime. Um europeu ambicioso enxerga a oportunidade de criar sua plataforma eleitoral: "fim da pobreza". Outro, mais egocêntrico, pega carona e puxa a ideia para chamar a atenção da mídia. "limpeza dos guetos". E outro: "Fim dos guetos sírios". Aí um loiro careca de jaqueta camuflada vai subir num palanque num bar de bêbados desempregados e gritar: "fim da praga síria". 

Os grupos "nacionalistas" vão começar a "trabalhar" por um país comprometido com a "família" e com a "tradição". Grupos de extermínio vão rondar pelas madrugadas frias da Europa buscando sangue. 

Um belo dia um grupo de jovens sírios vai combater fogo com fogo. O governo que precisa do apoio da extrema direita no congresso vai "mandar a mensagem" de que não tolera violência. A mensagem de intolerância será recebida em alto e bom som. E muito sangue será derramado. 

Mas um dia, em meio ao conflito, um jornalista vai notar um pequeno corpo num beco frio da Europa. E vai tirar uma foto que será um soco no estômago da sociedade. 

Não são os fatos que mudam o mundo. É a dor do inocente, sob o ângulo certo.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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