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Soja brasileira ocupa lugar dos EUA na China

Suspensão da Moratória da Soja pelo Cade preocupa Meio Ambiente

Publicado em 20/08/2025 1:42 - Sérgio Pedra

Divulgação Reprodução

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A soja brasileira tomou o lugar do grão americano nas encomendas chinesas e acendeu um sinal de alerta entre os agricultores dos Estados Unidos, aponta reportagem do jornalista Graciliano Rocha, no UOL. Em carta enviada ao presidente Donald Trump, a principal entidade do setor, a American Soybean Association (ASA), afirmou que os produtores norte-americanos enfrentam uma crise comercial e financeira provocada diretamente pelas tarifas de retaliação impostas por Pequim — e pediu uma ação política urgente.

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O motivo do recuo da China nas compras de soja dos EUA é claro: a tarifa de 20% imposta por Pequim sobre o grão americano tornou o produto brasileiro mais competitivo. Como consequência, a China já fechou contratos com o Brasil para abastecer seus estoques nos próximos meses, deixando os sojicultores norte-americanos sem compradores justamente às vésperas da colheita no Hemisfério Norte.

“Infelizmente para nossos produtores, a China contratou com o Brasil para atender às necessidades dos próximos meses, a fim de evitar a compra de qualquer soja dos Estados Unidos”, diz o texto, assinado por Caleb Ragland, presidente da ASA. Ele alerta: “Quanto mais avançarmos sem um acerto sobre soja, piores serão os impactos”.

A carta, acessível neste link (em inglês), traça um cenário crítico para o setor. Historicamente, os EUA abasteciam o mercado chinês no segundo semestre, após o ciclo da safra brasileira. A guerra comercial, porém, rompeu essa dinâmica. O Brasil, impulsionado por sucessivos recordes de produção, tem sido capaz de atender a demanda da China por períodos mais longos, reduzindo a dependência do grão americano.

Retaliação que saiu caro

A retaliação chinesa surgiu como resposta às tarifas unilaterais impostas durante o governo Trump, no auge da guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta. Os agricultores americanos foram, desde o início, uma das categorias mais penalizadas. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a China foi responsável por 61% das importações globais de soja nos últimos cinco anos — uma dependência estratégica que virou fragilidade.

“O que estamos vendo é o efeito em cadeia de uma política comercial conflitiva e mal calibrada”, avalia Joseph Glauber, ex-economista-chefe do USDA, em entrevista à Bloomberg em abril deste ano. “A perda do mercado chinês para o Brasil é uma consequência direta da guerra tarifária.”

Margens esmagadas

Além da perda de mercado, os produtores enfrentam margens cada vez mais apertadas. A ASA cita a combinação de preços em queda e custos de produção em alta como outro fator de risco. Insumos e equipamentos estão significativamente mais caros, pressionando ainda mais o setor.

“A guerra comercial criou uma desvantagem competitiva estrutural. Os produtores americanos não podem sobreviver a uma disputa prolongada com seu maior cliente”, afirma a entidade.

Apesar de uma postagem recente de Trump no Truth Social, na qual ele celebrou a robustez da safra americana e conclamou a China a “quadruplicar” as importações, a ASA foi categórica: elogios não resolvem a perda de mercado. Os contratos já foram fechados com o Brasil, e o cenário para os próximos meses é de escoamento difícil e preços depreciados.

Uma virada histórica?

A ascensão do Brasil no comércio global de soja não é recente, mas se consolidou nos últimos anos. De acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o país deve exportar 101 milhões de toneladas da safra 2024/25 — novo recorde histórico. A China responde por mais de 70% desse volume.

Já os EUA, que chegaram a ser o maior exportador mundial até meados da década passada, veem sua participação cair ano após ano. A disputa geopolítica com a China, somada à política externa protecionista dos últimos anos, abriu espaço para a consolidação do Brasil como fornecedor preferencial.

Risco político e pressão eleitoral

O apelo dos produtores ocorre num momento sensível para Donald Trump, que tenta retornar à Casa Branca nas eleições de novembro. Estados rurais como Iowa, Illinois e Indiana — grandes produtores de soja — são cruciais para a campanha republicana. O desgaste entre o setor agrícola e a política comercial adotada por Trump pode se tornar um fator de pressão política no pleito.

Em resumo, o que está em jogo não é apenas a balança comercial, mas o futuro da agricultura americana num mundo onde alianças comerciais se reorganizam com rapidez — e onde o Brasil, a cada nova safra, ocupa mais espaço.

Suspensão da Moratória da Soja pelo Cade levanta alerta ambiental e político

A decisão da Superintendência-Geral do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) de suspender a Moratória da Soja — acordo voluntário firmado para evitar o avanço da soja sobre áreas desmatadas da Amazônia — provocou reação imediata do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), que divulgou nota manifestando “preocupação” com a medida.

Segundo o Cade, a suspensão ocorre no contexto de uma investigação por possível prática anticoncorrencial no setor. A alegação é de que a moratória poderia configurar cartel entre empresas que se comprometem a não comprar soja cultivada em áreas desmatadas após 2008 no bioma amazônico. Para o MMA, no entanto, a justificativa é infundada: “A perenidade do acordo indica seu sucesso e a ausência de elementos que possam, por si só, caracterizar um cartel de compra que motive uma medida preventiva”.

A crítica não é apenas técnica, mas institucional. O ministério argumenta que a decisão contraria o princípio constitucional da proteção ao meio ambiente, além de ignorar os avanços conquistados nos quase 20 anos de vigência da moratória. “A experiência da Moratória da Soja demonstrou que é possível expandir a produção agrícola de forma competitiva, com ganhos de produtividade, respeito à legislação e proteção dos direitos humanos”, afirma a nota oficial da pasta.

O que é a Moratória da Soja?

Criada em 2006, a Moratória da Soja é um acordo firmado entre tradings, produtores, organizações da sociedade civil e o governo para impedir o comércio de soja cultivada em áreas da Amazônia desmatadas após 2008. Acordo voluntário e multissetorial, tornou-se um dos principais instrumentos de governança ambiental no Brasil, sendo frequentemente citado como referência internacional, inclusive por organismos como a ONU e a Comissão Europeia.

O pacto também proíbe a aquisição de soja de áreas embargadas por desmatamento ilegal, terras indígenas invadidas ou propriedades que utilizem trabalho em condições análogas à escravidão. Ou seja, além da preservação ambiental, o acordo tem um componente de proteção social e trabalhista.

Segundo dados do próprio governo federal, entre 2006 e 2023 a produção de soja na Amazônia cresceu 427%, enquanto no restante do país o crescimento foi de 115% — avanço que, em sua maior parte, se deu em áreas já consolidadas. De todo o desmatamento registrado na Amazônia nesse período, apenas 2,4% esteve relacionado ao cultivo de soja, evidenciando a eficácia do pacto.

Reação do setor e implicações

A suspensão da moratória ocorre num momento sensível para o setor e para o país. Em meio à crescente demanda global por rastreabilidade e sustentabilidade, abrir mão de um instrumento reconhecido como a Moratória da Soja pode comprometer a reputação do agronegócio brasileiro nos mercados internacionais — sobretudo na União Europeia, onde a nova legislação antidesmatamento, aprovada em 2023, exige garantias ambientais para importação de commodities agrícolas.

“O fim da moratória seria um desastre reputacional para o Brasil”, afirmou recentemente o pesquisador Daniel Azeredo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em entrevista ao jornal O Globo. “As empresas que participam do acordo o fazem porque sabem que há um risco comercial real se deixarem de atender a critérios mínimos de responsabilidade socioambiental.”

Além disso, organizações como o Greenpeace e o Instituto Socioambiental (ISA) já alertaram que a suspensão pode provocar uma nova onda de desmatamento especulativo, com impactos irreversíveis sobre o bioma amazônico. Para essas entidades, a decisão do Cade representa um grave retrocesso institucional.

Entre o mercado e o meio ambiente

A justificativa do Cade — ainda preliminar — de que a moratória poderia caracterizar restrição à concorrência é vista com ceticismo por especialistas em direito ambiental e concorrencial. Segundo Márcia Oliveira, professora da FGV Direito SP, “acordos voluntários com finalidade ambiental, que não impõem barreiras artificiais ao mercado, dificilmente se enquadram como prática anticoncorrencial. É um entendimento já consolidado no Brasil e em diversas jurisdições”.

A moratória, portanto, tem servido como mecanismo de autorregulação do próprio mercado, com participação ativa das empresas, e não como imposição estatal. Suspender esse pacto, sem que se tenha comprovado o suposto dano à concorrência, pode significar um desmonte de boas práticas construídas ao longo de quase duas décadas.

Caminhos futuros

O MMA conclui a nota reafirmando seu compromisso com a produção sustentável e a busca por soluções em diálogo com o setor privado. A pasta se dispõe a articular, junto a empresas, produtores e outras instituições públicas, a manutenção de critérios que garantam a competitividade do agronegócio brasileiro sem abrir mão da preservação ambiental e do respeito aos direitos humanos.

Com o desmonte da moratória, o Brasil se arrisca a caminhar na contramão de tendências globais e a perder o selo — cada vez mais valioso — de responsabilidade socioambiental. Em um momento em que o país tenta se firmar como potência agroambiental, a decisão do Cade coloca em xeque a imagem de sustentabilidade do agronegócio brasileiro. E pode custar caro.

SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

Trump pressiona China a comprar mais soja e ameaça agro brasileiro

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