18/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Sistema de Bullying Televisivo

Publicado em 30/06/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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Quem sou eu para ensinar Silvio Santos a fazer TV? Aliás, será que alguém no país entende mais de televisão que o Homem do Baú? Improvável. Do alto dos seus 327 anos de idade, Silvio Santos "é" a tv brasileira. Ninguém conhece mais a alma do telespectador tupiniquim. Chora, Ratinho. Chora, Gugu. Chora, Boninho.

Mas não se trata de um elogio, necessariamente.

Silvio Santos não dá ponto sem nó, nem está gagá. Ele sabe exatamente o que faz e porque faz.

Quando, durante a última gravação do seu programa, decidiu investir numa trama de aliciamento de menores envolvendo seu novo garoto prodígio Dudu Camargo (19 anos) e sua antiga protegida Maisa Silva (15 anos), seu objetivo era claro.

Veja, quando era criança, Maísa ficou famosa por ser desbocada e espevitada. Esse é o perfil do showman que fascina o patrão. E o seu público. Enquanto a menina de cinco anos de idade corria pelo seu palco e falava absurdos precoces, ela tinha um apelo irresistível. Era como se tivessem encontrado uma Chiquinha da vida real, sabida e perversa, falando na lata coisas que toda gente grande pensa. Que "colega de auditório" nunca quis ver se o cabelo do Sílvio era peruca? Maísa foi lá e fez.

Mas a menina cresceu e cometeu um pecado aos olhos do patrão: amadureceu, ainda que ligeiramente. O bastante para perder o encanto da criancinha traquinas. Silvio passou a buscar novas dinâmicas para a jovem estrela.

Surge então Dudu Camargo, uma mistura de Quico e Danilo Gentili. Um garoto sedento de sucesso e desprovido de qualquer senso de noção. Foi amor a primeiro pico de audiência. Entre ele e Silvio, claro.

Aliás, um parênteses: há um longo histórico de apresentadores que sonharam em ser o herdeiro histórico de Silvio Santos. Teve o Gugu, claro. Tem o Celso Portiolli. Menos bem-sucedido ainda foi o Paulo Ricardo, que só conseguiu subir ao posto de Bozo. Todos foram acolhidos e treinados pelo patrão, mas falharam justamente onde Dudu é pródigo: falta de senso de preservação. E é justamente o que trouxe até aqui.

Quando Maísa exigiu ser respeitada em cena, em plena gravação, acabou rompendo o contrato com o chefe. Exigiu empatia quando o jogo era torta na cara. E nesse jogo, ninguém tem paciência com o próximo.

Pela segunda vez seguida, Silvio usou seu palco para forçar uma aproximação sexual entre Dudu e Maísa que – é importante lembrar – é menor de idade. Constrangida, a menina abandonou o palco aos prantos.

De acordo com a imprensa especializada, Silvio ficou furioso por não poder concluir mais um capítulo da sua novelinha e deu ordens para que ela não fosse mais convidada a participar do seu programa. Aos olhos do patrão, Maísa tinha falhado com ele.

Parece surpreendente que um pai de 23 filhas tenha dificuldade em enxergar o porquê da negativa. Mas, para Silvio Santos, Maísa e Chiquinha ocupam o mesmo lugar no inconsciente do seu público. Não são reais. São personagens de papelão, unidimensionais. Maísa não é gente. Não é uma adolescente com medos e inseguranças. Ela é um cartoon, como Pica-pau, ou a Rachel Sheherazade.

Para o seu dono, todas as personalidades do SBT vivem numa espécie de universo expandido da vila do Chaves. E enquanto estiverem no ar, serão ridicularizados por sua idade, aparência, gênero. Bigornas cairão sobre suas cabeças e bananas de dinamite explodirão sob seus pés. No próximo bloco, depois do intervalo comercial, ressurgirão ilesos e felizes. Esse é o acordo do SBT com seu público. Tudo que se passa em sua telinha é exagerado e inconsequente, como no picadeiro do Bozo.

Silvio Santos sabe que não precisa de dramaturgia de qualidade. Sabe que não precisa investir em jornalismo. Sabe que não precisa educar. O conteúdo que seu público deseja é schadenfreude. E toda a programação da casa, desde o Chapolin, passando pelos quadros do Ratinho e da Praça é Nossa até o boa noite do Gentili, são variações de um mesmo tema: bullying. Maysa ser ridicularizada e sexualizada pelo novo minion do patrão não foi um equívoco, uma piada que saiu de mão. Silvio Santos sabe o que faz. Não foi "sem querer querendo".

Mas quando Maísa exigiu ser respeitada em cena, em plena gravação, acabou rompendo o contrato com o chefe. Exigiu empatia quando o jogo era torta na cara. E nesse jogo, ninguém tem paciência com o próximo.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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