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Promessa de energia limpa convive com desmatamento e trabalho escravo

Parte da cadeia de biocombustíveis está ligada a desmatamento ilegal, conflitos fundiários e violações trabalhistas

Publicado em 17/02/2026 10:29 - Sérgio Pedra

Divulgação Repórter Brasil

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Por trás da narrativa oficial que posiciona o Brasil como líder da transição energética, há uma cadeia produtiva que conecta plantações de soja no Cerrado, pastagens abertas na Amazônia, dendezais no Pará e canaviais no interior paulista a mercados internacionais sedentos por “energia limpa”.

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O país saiu da COP30, realizada em Belém no fim de 2025, reafirmando os biocombustíveis como peça central de sua estratégia climática. A política foi fortalecida pela Lei do Combustível do Futuro e pelo RenovaBio, além de financiamentos bilionários do BNDES e da Finep, que somaram R$ 11,7 bilhões nos últimos três anos para projetos do setor.

Mas até que ponto a energia classificada como renovável cumpre, de fato, critérios de sustentabilidade?

Levantamento da Repórter Brasil mostra que a expansão das cadeias de etanol, biodiesel e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) está associada a desmatamento ilegal, pressão sobre territórios tradicionais e casos recentes de trabalho escravo.

O peso da soja: biodiesel e a pressão sobre o Cerrado

O biodiesel brasileiro é majoritariamente produzido a partir da soja, responsável por cerca de 70% da matéria-prima utilizada. A expansão da cultura, portanto, impacta diretamente a pegada ambiental do combustível.

Em 2023, o Cerrado superou a Amazônia e liderou o ranking de desmatamento no país. O bioma, conhecido como “caixa d’água” do Brasil por abrigar nascentes estratégicas e áreas de recarga do Aquífero Guarani, já perdeu quase metade de sua vegetação nativa, sendo 74% dessa perda atribuída à agropecuária.

Investigações citadas no relatório apontam que uma fazenda fornecedora de soja para uma unidade da Bunge em Nova Mutum (MT) desmatou ilegalmente 98,7 hectares de Cerrado. Em outro caso, três fazendas no Matopiba somaram cerca de 11 mil hectares de desmate recente, incluindo derrubadas em áreas de preservação obrigatória.

A soja brasileira abastece tanto o mercado interno quanto cadeias globais. Em 2024, o país exportou 98,8 milhões de toneladas do grão. Parte relevante desse volume segue para a União Europeia, onde o biodiesel enfrenta crescente escrutínio regulatório.

Especialistas alertam para o chamado efeito ILUC (mudança indireta do uso da terra): quando a soja ocupa áreas antes destinadas à pecuária, o gado avança sobre novas fronteiras, pressionando vegetação nativa rica em carbono. Nesse cenário, o ganho climático do biocombustível pode ser anulado — ou até revertido.

A própria lei europeia anti-desmatamento, aprovada em 2023, exclui áreas classificadas como “não florestais” segundo critérios da FAO, deixando 73% do Cerrado fora do escopo, segundo estudo citado no relatório. Ou seja: parte expressiva da conversão do bioma pode continuar invisível aos mecanismos de controle internacionais.

Sebo bovino: o “resíduo” que carrega a marca da pecuária

Outro insumo-chave do biodiesel brasileiro é o sebo bovino. Classificado como resíduo da indústria frigorífica, ele é tratado como subproduto de alto desempenho ambiental no RenovaBio.

Na prática, porém, o sebo está intrinsecamente ligado à pecuária — principal vetor de desmatamento no Brasil e responsável por 10% a 15% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estimativas citadas no relatório.

A rastreabilidade do sebo costuma começar no frigorífico, não na fazenda. Isso cria uma lacuna: a gordura pode ter origem em gado criado em áreas desmatadas ou em propriedades com histórico de violações trabalhistas, sem que isso apareça no cálculo de emissões ou nas certificações.

A exportação do produto cresceu de forma acelerada. Entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil exportou 274 mil toneladas de sebo bovino. Parte desse volume abastece refinarias nos Estados Unidos, que produzem diesel renovável e SAF.

Documentos analisados pela Repórter Brasil indicam conexões entre a cadeia de fornecimento de sebo e propriedades associadas a desmatamento na Amazônia. Em outro caso, uma fazenda fornecedora teve trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão meses antes de animais entrarem na cadeia de exportação.

Ao tratar o sebo como “resíduo”, programas de certificação e políticas públicas desconsideram a fase agropecuária do animal no cálculo da pegada de carbono. O resultado é uma contabilidade climática que ignora justamente o elo mais crítico.

Dendê no Pará: conflitos na terra da COP30

No Pará, estado que sediou a COP30, o avanço do dendê cruza-se com conflitos fundiários históricos.

Comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas Tembé relataram cercamentos, restrição de acesso e episódios de violência em áreas dominadas por dendezais . A empresa envolvida anunciou parcerias para fornecer insumos a projetos de SAF, ampliando a inserção do óleo de palma na cadeia energética.

Além dos conflitos territoriais, levantamento do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região contabilizou 1.697 ações trabalhistas envolvendo empresas do setor no Pará. Trabalhadores relataram problemas com alimentação, acesso à água potável e condições sanitárias.

A promessa de desenvolvimento verde convive, assim, com um histórico de disputas fundiárias e precarização laboral.

O novo “boom” do trabalho escravo na cana

A cana-de-açúcar, base do etanol brasileiro, também reaparece no radar das violações.

Em março de 2023, 32 trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão em uma plantação de cana no interior paulista. O relatório descreve ausência de água potável, banheiros e alojamentos dignos.

Outro caso envolveu a construção de uma usina de etanol de milho financiada com recursos do Fundo Clima. A fiscalização resgatou 563 trabalhadores submetidos a condições degradantes, com indícios de servidão por dívida e tráfico de pessoas.

Especialistas atribuem o aumento de casos à terceirização do plantio, que dilui responsabilidades ao longo da cadeia.

A contradição é evidente: projetos classificados como “energia verde” e financiados com recursos voltados à economia de baixo carbono foram palco de violações graves de direitos humanos.

A equação climática: solução ou problema?

O Brasil consolidou-se como o segundo maior produtor mundial de etanol e ampliou progressivamente a mistura obrigatória de biocombustíveis. No discurso oficial, trata-se de uma estratégia para reduzir emissões e cumprir metas climáticas.

No entanto, especialistas citados no relatório alertam que, se a expansão agrícola induz desmatamento direto ou indireto, o saldo climático pode ser negativo.

A produção de combustíveis a partir de culturas alimentares, como soja e cana, compete por terra com florestas e outros usos. Estudos mencionados apontam que, quando se considera o impacto total da mudança no uso da terra, certos biocombustíveis podem emitir mais do que o diesel fóssil.

Rastreabilidade: o gargalo central

Pesquisadores defendem que a expansão do setor só será compatível com metas climáticas se acompanhada de rastreabilidade efetiva, checagem de fornecedores em bases de embargo ambiental e listas de trabalho escravo, além de transparência pública dos dados.

O relatório sugere medidas como:

– Mapear origem por polígono ou lote;

– Integrar documentação da pecuária (como GTA) à cadeia do sebo;

– Criar programas de medição, reporte e verificação com auditoria independente;

– Condicionar acesso a crédito e mercados a critérios socioambientais claros.

A questão central, segundo especialistas, é quem arcará com o custo dessa transição. A recomendação é que ele seja distribuído ao longo da cadeia — produtores, frigoríficos, tradings, financiadores e compradores internacionais.

A conta ainda não fechou

Cinco décadas após o Proálcool, o Brasil volta a apresentar os biocombustíveis como solução estratégica — agora sob a bandeira climática.

A COP30 reforçou o protagonismo brasileiro na agenda da transição energética. Mas os dados reunidos pela Repórter Brasil indicam que a “energia limpa” carrega passivos ambientais e sociais que ainda não foram plenamente enfrentados.

Se o combustível é renovável, a conta socioambiental não é invisível.

Enquanto soja avança sobre o Cerrado, o gado empurra fronteiras na Amazônia e trabalhadores são resgatados em canaviais e obras financiadas por fundos climáticos, a promessa de descarbonização convive com um paradoxo: reduzir emissões à custa de novas pressões sobre florestas e pessoas.

A transição energética brasileira existe — mas, por ora, ainda caminha sobre um terreno conflagrado.

SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

Edição gênica acelera criação de soja mais resistente ao calor

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Sergio Pedra


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