19/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Por que há tanta gente horrível na Internet?

Publicado em 01/04/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Peter Laurids Jensen foi um inventor do início do século XX. Em 1909, ele se mudou para os Estados Unidos com seu colega Edwin Pridham e inventou o primeiro alto-falante, batizado de Magnavox.

Na véspera de Natal de 1915, Jensen e Pridham promoveram sua invenção tocando cânticos natalinos para uma multidão de 75 mil pessoas em São Francisco através do Magnavox.

Segundo seus criadores, a nova tecnologia era capaz de propagar a música a um quilômetro e meio de distância. O sucesso foi instantâneo. Um aparelho que permite que sua mensagem seja ouvida por vastas multidões era o símbolo de como a tecnologia podia transformar a realidade através da democratização do acesso à informação.

Antes do Magnavox, um discurso precisava ser gritado a plenos pulmões e muito pouco da versão original alcançava além das primeiras fileiras do público. E quem tinha uma mensagem para transmitir para grandes audiências recebeu a invenção de Jensen de braços abertos.

O ministro de propaganda de Hitler Joseph Goebbels tinha uma atribuição estratégica para o partido nazista: garantir que todos ouvissem a mensagem do Fuhrer sobre como os judeus eram os "grandes culpados" por todos os problemas do país. O Magnavox parecia um presente dos deuses para a causa nazista. A Alemanha fez um investimento considerável na produção de auto falantes e garantiu que eles estivessem presentes em todos os discursos de Hitler.

A internet surgiu para disseminar o conhecimento e democratizar o acesso à informação. O que fazemos dela? Claro, um instrumento de propagação do ódio, mais uma vez.

A invenção de Jensen criou a tempestade perfeita: um sociopata carismático com ambições despóticas ganhou um poder de alcance inédito na história da humanidade para sua mensagem. E a população descontente e oprimida pelo fantasma da primeira guerra mundial encontrou um líder com a plataforma que eles queriam ouvir: a culpa é dos outros, o futuro é nosso.

Jensen assistiu em horror sua invenção, idealizada para democratizar o conhecimento, ser transformada em instrumento de disseminação do ódio. Até o fim de sua vida, remoeu sua responsabilidade na ascensão do Reich.

O tempo passou, a guerra acabou e as pessoas aprenderam (parte delas, pelo menos) que não se pode confiar em todo mundo que tem um microfone nas mãos. E então surgiu a internet e cada um de nós ganhou um Magnavox de alcance mundial. Podemos falar com o mundo todo, em tempo real, com texto, imagem e som. Não é preciso ser artista, político ou milionário. A internet surgiu para disseminar o conhecimento e democratizar o acesso à informação. O que fazemos dela? Claro, um instrumento de propagação do ódio, mais uma vez.

Fazemos por que somos maus? Não necessariamente. Fazemos porque evoluímos em uma cadência muito menor que a tecnologia. Ainda somos criaturas de clã. Enxergamos o mundo em tribos, porque foi assim que sobrevivemos e evoluímos. Nos bons, eles maus. Nós juntos, eles longe.

No final das contas, é menos uma questão de conhecimento e mais uma questão de identidade. Se o conhecimento que chega até mim questiona minha visão de mundo, eu fico com a segunda e dispenso a primeira. Não importa a informação que sua nova tecnologia ofereça. Se seu aparelho trouxer vozes altas, seguirei aquela que for semelhante a minha. Se me der chance de falar com o mundo, buscarei confirmação de quem sou em outrem.

No desgosto que o acompanhou até seu leito de morte, Jensen foi vítima do mesmo erro que subverteu sua criação: qualquer que seja o meio, estamos sempre em busca do som de nossa própria voz.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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