Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Ponte Aérea
Como a mídia brasileira contribuiu para a ascensão da extrema direita
Publicado em 15/01/2025 3:00 - Raphael Tsavkko Garcia
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
À luz das revelações alarmantes de que membros das Forças Armadas brasileiras supostamente planejaram um golpe para reverter o resultado das eleições de 2022, assim como de uma tentativa de assassinato contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal — e que o ex-presidente Jair Bolsonaro tinha conhecimento e possivelmente estava envolvido no plano —, o Brasil enfrenta o desafio de decidir os próximos passos.
Clique para seguir a SEMANA ON no Instagram, no Facebook e no Whatsapp
A grande mídia, há muito considerada um pilar da democracia no Brasil, está sob escrutínio renovado por amplificar narrativas radicais e falhar em examinar criticamente retóricas antidemocráticas. Para atrair audiência, muitos veículos têm recorrido a manchetes sensacionalistas ou enganosas, que, em alguns casos, também promovem discursos de ódio de atores da extrema direita, alimentando temores de que a imprensa esteja normalizando discursos prejudiciais.
Entender como a grande mídia contribuiu para essas dinâmicas é essencial para avaliar sua responsabilidade e traçar um caminho rumo a maior responsabilização.
Uma plataforma para o extremismo
Durante o governo Bolsonaro, de 2018 a 2022, a cobertura da mídia promoveu um “falso equilíbrio”, explicou a jornalista e cofundadora do The Intercept Brasil, Cecília Olliveira. “A imprensa brasileira tratou figuras e movimentos radicais como partes legítimas do debate político, sem contextualizar devidamente suas implicações antidemocráticas”, afirmou, acrescentando que esse padrão continua até hoje.
Olliveira destacou especificamente como os veículos têm praticado o que chamou de “jornalismo declaratório”, no qual declarações inflamadas de Bolsonaro e outros representantes da extrema direita foram simplesmente reproduzidas, sem análise crítica ou verificação de fatos. “[O jornalismo declaratório] tornou-se uma plataforma gratuita para desinformação e ataques às instituições democráticas, incluindo a própria imprensa”, disse ela.
Marcelo Soares, professor e editor do estúdio de jornalismo de dados Lagom Data, reforçou a crítica. “A chamada imprensa ‘séria’ continua a divulgar declarações de forma cada vez mais frequente. É fácil de produzir e sempre gera muitos cliques e compartilhamentos, dependendo do tamanho do absurdo”, afirmou.
Essa tendência não é exclusiva do Brasil, afirmou a jornalista e pesquisadora Luciana Moherdaui, que cobre a extrema direita. “Estudiosos internacionais, como Jay Rosen e Jeff Jarvis, criticaram a lógica de dar espaço igual a extremistas para ‘publicar o outro lado’. A mídia brasileira caiu nessa armadilha, falhando em se adaptar à dinâmica da desinformação viral”, disse. “A imprensa teve dificuldades para checar desinformações em tempo real durante a campanha e o governo Bolsonaro, levando a uma erosão da confiança no jornalismo.”
Enquanto isso, plataformas como o WhatsApp deram aos representantes da extrema direita um canal direto para o público, contornando os filtros tradicionais da mídia, explicou Soares. “Em 2015 e 2016, notei a mobilização ‘espontânea’ em torno de Bolsonaro nas redes sociais. As plataformas amplificaram sua presença, enquanto a mídia tradicional falhou em fornecer o contexto crítico”, explicou.
A falha da mídia nessa área foi agravada por ataques a jornalistas e veículos de comunicação. O governo Bolsonaro sistematicamente minou a credibilidade da imprensa, acusando-a de ser tendenciosa ou corrupta. “Essa retórica encorajou extremistas a atacarem jornalistas, enfraquecendo ainda mais a capacidade da imprensa de responsabilizar o poder”, disse Olliveira.
Da crise à responsabilização
Embora a imprensa tenha começado a examinar a extrema direita com mais rigor após a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2022, especialistas concordam que são necessárias mudanças estruturais mais profundas. Olliveira defendeu uma mudança para o jornalismo investigativo que exponha as consequências das políticas da extrema direita. “A mídia deve priorizar análises contextualizadas em vez da mera reprodução de declarações. Isso exigirá resistir às pressões comerciais por narrativas sensacionalistas”, argumentou.
Como muitas figuras da extrema direita intencionalmente tentam fazer com que sua retórica extrema seja captada pela cobertura da mídia, Moherdaui destacou a necessidade de os veículos brasileiros repensarem suas estratégias editoriais para evitar dar espaço a extremistas em troca de visualizações. “O jornalismo precisa revisar seus processos de produção, já que seu conteúdo é amplamente distorcido para se tornar viral”, disse Moherdaui. “[Isso dá] espaço a negacionistas da ciência e da democracia, aos que pregam contra vacinas e contra o processo eleitoral. Esse conteúdo é usado como estratégia para destruir a democracia e os sistemas estabelecidos.”
Soares apontou o crescimento do jornalismo independente no Brasil como um contrapeso promissor às limitações dos grandes veículos. “Veículos menores e independentes frequentemente produzem o tipo de jornalismo investigativo que as grandes corporações têm deixado de lado”, disse. Essas iniciativas, embora ainda de nicho, oferecem um caminho para revitalizar o papel crucial da mídia em uma democracia.
Aprendendo com lições globais
A experiência dos Estados Unidos com o trumpismo oferece paralelos e lições de advertência para a mídia brasileira. Ela também apresenta uma oportunidade para que jornalistas brasileiros adotem práticas que funcionaram para colegas nos EUA, adaptando-as ao contexto local, disse Olliveira.
“O jornalismo de qualidade deve prevalecer sobre o apelo fácil do sensacionalismo, reafirmando seu compromisso com a verdade e o interesse público. Isso requer coragem e disposição para desafiar estruturas de poder, mesmo ao custo de perder acesso ou enfrentar retaliações”, afirmou.
Para que a mídia mude, é necessário primeiro reconhecer que está contribuindo para o problema, disse Soares: “Se o principal objetivo da empresa é atrair altos volumes de cliques para mostrar aos anunciantes, apesar da qualidade, e os chefes consideram que a maneira mais viável de alcançar esse objetivo é produzir ‘declarações’ em escala industrial, ninguém vai convencer as empresas a fazerem algo diferente.”
Ao rejeitar o sensacionalismo e abraçar a responsabilização, a mídia brasileira pode recuperar seu papel como barreira contra o autoritarismo. Em tempos de profunda turbulência política e social, a imprensa deve escolher entre perpetuar o status quo ou se tornar uma força de renovação democrática.
–
RAPHAEL TSAVKKO GARCIA
É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
Golpismo e terrorismo colocam em pauta reforma ou extinção das Forças Armadas
Leia outros artigos da coluna: Ponte Aérea
Deixe um comentário