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Ponte Aérea
Ações de bolsonaristas militares e civis mantêm a nação sob o risco de ruptura institucional
Publicado em 13/12/2024 1:24 - Raphael Tsavkko Garcia
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O ataque terrorista realizado em Brasília em 13 de novembro nas proximidades do Supremo Tribunal Federal (STF) e as revelações da trama golpista liderada pelo então presidente Jair Bolsonaro no fim de 2022 são lembretes do elevado nível de radicalização da direita no Brasil.
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Não se trata, porém, de fenômeno circunscrito às fronteiras nacionais. O bolsonarismo, sem dúvida, opera com base em múltiplos ressentimentos, mas é sempre importante lembrar que ideologias extremistas são fomentadas por redes transnacionais e não raramente o discurso delas culmina em atos de violência.
A extrema direita global compartilha táticas, financiamento e um objetivo comum: deslegitimar sistemas democráticos e consolidar o poder autoritário. As instituições políticas e sociais do Brasil estão mal preparadas para conter ou combater essas ameaças.
No centro desse fracasso estão as Forças Armadas — uma instituição cujo papel e existência precisam ser profundamente reavaliados se o Brasil deseja proteger sua democracia. Elas estão no centro da trama golpista que, caso bem-sucedida, teria colocado o Brasil entre os países em que a extrema direita já logrou erodir a confiança nas instituições democráticas, processo que, na atual conjuntura, depende essencialmente da disseminação de desinformação.
Durante seu mandato, por exemplo, Bolsonaro atacou consistentemente normas democráticas, instituições e espalhou teorias da conspiração infundadas sobre fraude eleitoral. Sua retórica de “nós contra eles” não apenas polarizou o país, mas também encorajou seus apoiadores a tomarem medidas extremas.
O fato de a oposição, encabeçada pelo PT, adotar há décadas o mesmo discurso pró-polarização também contribuiu para a radicalização do país, mas o bolsonarismo é sem paralelos no grau de violência discursiva e física empregados.
As plataformas de redes sociais desempenham um papel crucial na amplificação dessa radicalização. Hoje, Elon Musk, proprietário do X (antigo Twitter), é figura crucial na ligação entre extremistas dos EUA e Brasil, promovendo ódio contra instituições, em particular o STF. Os algoritmos das redes priorizam o sensacionalismo e a indignação, empurrando os usuários para bolhas onde a desinformação prospera.
Esse ciclo de retroalimentação entre retórica política e desinformação amplificada pelas redes sociais é evidente em todo o mundo, tal como demonstrado pelo movimento Make America Great Again (MAGA) de Donald Trump nos Estados Unidos e a propaganda nacionalista de Viktor Orbán na Hungria. E tudo sob o olhar plácido do líder russo Vladimir Putin.
O contexto global da violência de extrema direita
A radicalização no Brasil está profundamente interligada a esse movimento transnacional de expansão da extrema direita, haja vista que Bolsonaro alinha-se abertamente a essas figuras e seus ideólogos, sendo o mais notório deles Steve Bannon, ainda bastante ativo por estas bandas, além de supremacistas brancos e conspiracionistas de todo tipo.
Além do alinhamento ideológico, há uma infraestrutura tangível conectando esses movimentos por meio de fontes compartilhadas de financiamento, campanhas de desinformação e apoio logístico que fluem além das fronteiras, criando um ecossistema global de extrema direita.
O ataque em Brasília serve como um lembrete assustador de que o extremismo de direita não reconhece fronteiras nacionais. Para combatê-lo, as democracias devem adotar uma abordagem igualmente global, compartilhando inteligência, regulando plataformas tecnológicas e responsabilizando líderes políticos por incitar a violência.
Para além da necessidade de articulação internacional, cabem reformas nas instituições domésticas. Por décadas, as Forças Armadas brasileiras se posicionaram como guardiãs da nação, mas seu papel muitas vezes foi o oposto. Desde a ditadura militar até seu apoio tácito às ambições autoritárias de Bolsonaro, as Forças Armadas têm repetidamente minado os processos democráticos.
Isso levanta uma questão crítica: o Brasil precisa das Forças Armadas? Em um país onde a intervenção militar historicamente levou à repressão e violência, a própria existência de uma instituição tão poderosa representa uma ameaça à democracia.
Em vez de depender de uma estrutura militar desatualizada e cada vez mais politizada, o Brasil deveria considerar a transição para um aparato de segurança liderado por civis. Uma força civil profissionalizada e responsável, focada na proteção dos direitos constitucionais e não em agendas políticas, poderia proteger melhor a democracia.
Isso exigiria uma reforma completa da arquitetura de segurança do Brasil, incluindo:
Desmantelar a estrutura militar atual: Transferir responsabilidades militares para agências civis especializadas, como patrulhas de fronteira e unidades de resposta a desastres.
Desmilitarizar as forças policiais: Garantir que as polícias sejam treinadas em técnicas de desescalada e engajamento comunitário, em vez de táticas militaristas.
Estabelecer mecanismos de supervisão: Criar órgãos independentes para monitorar as forças de segurança e investigar abusos de poder.
Investir em educação e engajamento cívico: Abordar as causas profundas da radicalização por meio de campanhas educacionais robustas e apoio a comunidades marginalizadas.
Países como a Costa Rica, que aboliu suas Forças Armadas em 1948, oferecem um modelo de como a segurança liderada por civis pode funcionar. O governo do país centro-americano redirecionou os gastos militares para educação, saúde e infraestrutura, criando uma sociedade estável e próspera. Embora o tamanho e a complexidade do Brasil apresentem desafios únicos, o princípio permanece o mesmo: a segurança deve servir ao povo, e não o contrário.
O ataque em Brasília é um lembrete contundente da fragilidade da democracia diante do extremismo. Mas também é uma oportunidade para o Brasil enfrentar as falhas institucionais que permitiram a radicalização florescer. Isso significa responsabilizar Bolsonaro e seus aliados, regular os ecossistemas de desinformação que alimentam a violência e repensar o papel das Forças Armadas em uma sociedade democrática.
Mais amplamente, a luta do Brasil contra o extremismo de direita reflete uma crise global. Democracias em todo o mundo devem reconhecer a natureza interconectada desses movimentos e agir de forma decisiva para combatê-los. Seja por meio de cooperação internacional, regulamentação mais rigorosa de tecnologia ou reformas como a possível transição do Brasil para uma política de segurança nacional liderada de fato por civis, o momento de agir é agora.
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RAPHAEL TSAVKKO GARCIA
É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
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