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Atividade ocupa 64% das terras agrícolas, mas responde por apenas 17% da produção bruta do setor
Publicado em 18/03/2025 11:18 - Sérgio Pedra
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A pecuária brasileira, apesar de ser uma das atividades econômicas mais extensas do país, continua a enfrentar um desafio estrutural: a baixa eficiência no uso da terra. Segundo um estudo conduzido pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e divulgado no último dia 13, a pecuária ocupa 64% da área agrícola nacional — o equivalente a duas vezes o estado do Amazonas —, mas responde por apenas 17% do valor bruto da produção agropecuária.
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O estudo, parte da iniciativa Amazônia 2030, busca entender os rumos da expansão da pecuária no Brasil entre 2000 e 2023 e traçar caminhos para tornar a atividade mais produtiva e menos agressiva ao meio ambiente. Entre os principais desafios identificados estão o desmatamento desenfreado, a ausência de incentivos eficazes para a recuperação de pastagens e a falta de punição aos infratores ambientais.
Avanços produtivos, mas à custa do meio ambiente
Os dados levantados pelo Imazon mostram que a pecuária brasileira avançou nas últimas duas décadas. O rebanho cresceu 40% entre 2000 e 2023, enquanto a produção de carne teve um salto ainda mais expressivo, de 130%. A produtividade, medida pela produção de carne por hectare, também aumentou: 11% no Brasil como um todo e 13% nos estados da Amazônia Legal.
Contudo, esses ganhos vieram acompanhados de um modelo predatório. O estudo revela que, para cada hectare de pasto reformado, outro hectare de floresta foi destruído. Na Amazônia, essa relação foi ainda pior: 2,35 hectares desmatados para cada hectare recuperado.
“O combate ao desmatamento é a ação mais eficaz para aumentar a produtividade. Sem controle ambiental, os incentivos para melhorar pastagens e adotar novas tecnologias perdem força”, afirma Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon e um dos autores do estudo.
Essa constatação reforça a tese de que, quando há maior fiscalização e punição aos desmatadores, os produtores buscam alternativas mais eficientes para ampliar a produção sem precisar abrir novas áreas. Barreto cita exemplos de políticas bem-sucedidas no passado, como o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e a Moratória da Soja, que ajudaram a reduzir o desmatamento em 80% entre 2003 e 2012.
A lógica econômica do desmatamento
O estudo também revela que desmatar não é barato. Derrubar um hectare de floresta na Amazônia custa, em média, R$ 1,5 mil, enquanto recuperar um hectare de pastagem degradada exige um investimento que varia entre R$ 1,6 mil e R$ 3 mil. Apesar de a recuperação das pastagens ser uma estratégia mais sustentável e economicamente vantajosa a longo prazo, muitos produtores continuam optando pelo desmatamento.
O motivo? Falta de crédito e impunidade.
Segundo Lisandro Inakake, gerente de projetos do Imaflora, o sistema de crédito rural brasileiro ainda direciona a maior parte dos recursos para a compra de gado, enquanto investimentos na recuperação de pastagens e adoção de tecnologias são relegados a segundo plano.
Além disso, a ausência de punição para desmatadores cria um incentivo perverso. “Se o infrator não é punido, o custo do desmatamento é praticamente nulo para ele. Assim, o modelo predatório continua sendo mais atraente no curto prazo”, analisa Inakake.
Mercado internacional pressiona por mudanças
Se as políticas públicas falham em coibir a destruição ambiental, o mercado internacional tem imposto novas exigências à pecuária brasileira. Um exemplo recente é o chamado “boi China”, como ficou conhecida a exigência do mercado chinês por carne de animais com até 30 meses de idade.
Para atender à demanda da China — que paga até 30% a mais pela carne desses animais —, os pecuaristas brasileiros passaram a adotar técnicas mais eficientes, como rastreabilidade, rotação de pastagens e inseminação artificial. Como resultado, houve aumento da produtividade sem a necessidade de desmatamento adicional.
“O ‘boi China’ prova que os pecuaristas reagem a estímulos econômicos. Se houver incentivos corretos, é possível aumentar a eficiência sem devastar a floresta”, destaca Inakake.
Uma janela curta para agir
O governo federal lançou, no final de 2023, um programa para recuperar 400 mil quilômetros quadrados de pastagens degradadas nos próximos dez anos. No entanto, o agravamento da crise climática coloca um fator de urgência sobre essas iniciativas.
O próprio estudo do Imazon alerta que a janela de oportunidade para recuperar terras já desmatadas pode estar se fechando. O desmatamento, aliado às mudanças climáticas, já compromete a regularidade das chuvas em várias regiões. Se essa tendência continuar, vastas áreas degradadas podem se tornar improdutivas antes que haja tempo para sua recuperação.
Segundo um relatório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2022, a agropecuária e o desmatamento responderam por 77% das emissões brasileiras de gases do efeito estufa. Esse dado reforça a necessidade urgente de uma pecuária mais eficiente e ambientalmente responsável.
A experiência do Brasil já demonstrou que é possível crescer sem destruir. Cabe agora ao setor pecuário, ao governo e à sociedade decidir se o país continuará refém de um modelo predatório ou se abraçará a transição para um modelo mais sustentável e produtivo.
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SÉRGIO PEDRA
É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.
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