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Agromundo

Brasil se fortalece com guerra comercial entre EUA e China

Produtores americanos alertam que tarifas de Trump podem ampliar mercado brasileiro na Ásia

Publicado em 06/03/2025 11:45 - Sérgio Pedra

Divulgação Reprodução

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O setor agrícola dos Estados Unidos, um dos pilares da economia do país, agora se vê em rota de colisão com a política protecionista de Donald Trump. O alerta veio da própria Associação Americana de Soja, que criticou a escalada tarifária do ex-presidente contra parceiros comerciais e alertou para um efeito colateral inevitável: o Brasil será o grande vencedor dessa guerra comercial.

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As recentes tarifas de 25% impostas pelo governo americano sobre produtos do México e do Canadá, seguidas de um aumento adicional de 10% sobre importações chinesas, provocaram uma retaliação imediata de Pequim. Entre as medidas adotadas pelo governo chinês está a elevação das tarifas sobre a soja americana, reduzindo a competitividade do produto nos mercados internacionais. Diante desse cenário, os produtores americanos enfrentam uma dura realidade: a China, maior importadora global de soja, já tem no Brasil uma alternativa robusta e confiável.

“Os agricultores estão frustrados”, desabafou Caleb Ragland, presidente da Associação Americana de Soja e produtor no Kentucky. “As tarifas não são algo para se divertir. Elas não apenas atingem nossas empresas familiares em cheio, mas também abalam um princípio fundamental sobre o qual nossas relações comerciais são construídas: a confiabilidade.”

Brasil, o maior beneficiado da guerra comercial

O impacto da disputa sino-americana no agronegócio brasileiro não pode ser subestimado. Em 2023, o Brasil exportou um recorde de US$ 60,24 bilhões em produtos agrícolas para a China, sendo a soja o carro-chefe dessa relação. A dependência chinesa do mercado brasileiro já era evidente antes da guerra comercial e deve se aprofundar ainda mais. Só no último ano, a China importou 69 milhões de toneladas de soja do Brasil, pagando cerca de US$ 30 bilhões.

Os números são ainda mais impressionantes quando se considera a capacidade de resposta do Brasil a uma demanda ampliada. Estudos do setor projetam um aumento de até 8,9 milhões de toneladas anuais na exportação de soja e milho caso os embargos aos EUA sejam mantidos. Com isso, o Brasil reforçaria seu papel como principal fornecedor da commodity para a China, consolidando uma posição que os EUA dificilmente conseguiriam recuperar no curto prazo.

A questão vai além da soja. Durante a visita de Xi Jinping ao Brasil em novembro passado, seis dos 37 acordos assinados estavam diretamente ligados ao agronegócio, abrindo caminho para uma ampliação significativa da exportação de carnes, laticínios e outros produtos agrícolas brasileiros para o mercado chinês. O impacto potencial desses acordos é estimado em US$ 500 milhões por ano, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária.

Setor agrícola americano em crise: déjà vu de 2018

A resistência dos produtores americanos à política tarifária de Trump não é novidade. Durante seu primeiro mandato, a guerra comercial entre EUA e China custou ao setor agrícola perdas de US$ 27 bilhões, sendo que 71% dessas perdas foram associadas diretamente à soja. O impacto foi devastador, forçando o governo a conceder subsídios bilionários para minimizar os prejuízos aos agricultores.

Agora, em 2025, o cenário é ainda mais desafiador. Com os preços das commodities agrícolas 50% menores do que há três anos, custos elevados de produção e um mercado externo cada vez mais competitivo, os agricultores americanos se veem em uma posição vulnerável. “Os produtores de soja continuam lutando contra os impactos de longo prazo sobre a reputação, pois os mercados que eles trabalharam durante anos para construir – mais de 40 anos para a China – são baseados na capacidade de fornecer uma safra confiável e de qualidade”, destacou a entidade dos produtores.

Além da China, os EUA também enfrentam resistência dentro do próprio continente. O México e o Canadá, alvos diretos das tarifas americanas, já anunciaram retaliações. O Canadá impôs tarifas de 25% sobre quase US$ 100 bilhões em importações americanas, enquanto o México sinalizou medidas similares. Essa retaliação ameaça diretamente setores estratégicos, como o de fertilizantes, uma vez que 87% do potássio utilizado pelos agricultores americanos vêm do Canadá.

A ironia política: Trump e o voto rural

A insatisfação do setor agrícola americano coloca em xeque uma base eleitoral historicamente favorável a Trump. Nas eleições de 2020, o republicano obteve 77% dos votos nos 444 condados mais dependentes da economia rural, vencendo em praticamente todos. No entanto, a atual política tarifária ameaça esse apoio.

O discurso de Trump aos agricultores, sugerindo que vendam seus produtos no mercado interno para compensar as perdas externas, foi amplamente ridicularizado pelo setor. “A receita de Trump simplesmente não funciona”, afirmaram líderes agrícolas, reforçando que a demanda interna não tem capacidade para absorver a produção destinada à exportação.

Diante da possibilidade de um segundo mandato de Trump, a China já vem adotando medidas preventivas. Além de investir pesadamente na modernização de sua produção agrícola doméstica, Pequim ampliou seus laços comerciais com o Brasil, garantindo um fornecimento alternativo estável para os próximos anos.

O Brasil se fortalece no comércio global

O conflito comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo abre uma oportunidade sem precedentes para o Brasil consolidar sua presença no mercado global. O agronegócio brasileiro já é um dos mais competitivos do mundo e, agora, tem a chance de fortalecer sua relação com a China e outros mercados asiáticos.

Se a política protecionista de Trump persistir, os EUA podem enfrentar um declínio estrutural na exportação de soja e outros produtos agrícolas. Enquanto isso, o Brasil se posiciona como um fornecedor confiável e competitivo, pronto para assumir o espaço deixado pelos americanos.

Dessa vez, o protecionismo pode sair caro para Trump – e transformar o Brasil no novo epicentro do agronegócio global.

SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

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Sergio Pedra


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