19/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Os indispensáveis tanques descartáveis

Publicado em 21/10/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Lima é uma cidade pequena encravada no estado de Ohio, no coração da América do Norte, com menos de quarenta mil habitantes. Uma cidade como outras tantas que chegam até nós representadas nos filmes e séries de Hollywood. O que difere Lima das demais cidadezinhas da região é a sua produção industrial. Lima é a primeira e única produtora de tanques de guerra dos EUA.

Anualmente, o governo do Tio Sam gasta 120 milhões de dólares em veículos de armamento pesado produzidos pela General Dynamics Land Systems, a única fábrica da região, responsável pela maior parte dos empregos dos moradores de Lima. O único problema: o que fazer com tanto tanque. O Exército já tem milhares de tanques apodrecendo a céu aberto sem nunca terem sido utilizados.

Os tempos mudaram. E, com eles, as técnicas bélicas. Agora, as guerras são travadas com caças e drones. O Exército tenta há vários anos acabar com essa gastança, em vão. Todo ano, os militares propõem uma redução orçamental para eliminar a maioria destas compras e, todo ano, a proposta é rejeitada pelo Congresso.

Políticos como o deputado republicano Jim Jordan, representante da região, insistem em defender a necessidade de manter o contrato de produção desses antiquados veículos de guerra. Se não por uma questão de segurança nacional, por uma questão social: cancelar o contrato significaria o fechamento da fábrica e, consequentemente, decretar a extinção de milhares de empregos em Lima. Provavelmente, da cidade como um todo.

Pense sobre isso por um instante. Seria mais econômico e sustentável – e sensato – para o governo simplesmente pagar os salários dos trabalhadores diretamente e mandá-los para casa. Pelo menos os custos da matéria-prima, transporte e armazenamento dos tanques seria cortado da planilha. Seria mais barato aposentar a cidade toda com salários integrais do que continuar subsidiando esse desperdício de tempo, recursos e capital humano.

O partido republicano, a direita nos EUA, tradicionalmente alinhado com o compromisso de reduzir os gastos e garantir um governo enxuto, com mínima interferência na economia, está segurando a taxa de desemprego local pagando para que uma empresa privada produza armas para ninguém.

Os economistas têm um termo que explica este fenômeno: benefícios concentrados contra custos difusos. Em muitas medidas políticas, especialmente naquelas relacionadas com impostos e gastos públicos, os benefícios podem ser altamente concentrados se os custos puderem ser amplamente distribuídos. Nesses casos, um grupo pequeno pode receber um enorme benefício do governo, já que o mesmo será pago pelos contribuintes como um todo, de forma tão diluída que muitos não se sentirão motivados para combater tal medida. Muitos sequer perceberão o patinho que estão pagando.

Como cada cidadão americano paga menos de um centavo anual pela gastança dos tanques, a General Dynamics Land Systems vai continuar fabricando seus tanques supérfluos e o deputado Jim Jordan vai continuar se reelegendo sem dificuldades de angariar fundos para a próxima campanha. Vida que segue.

Em terras brazucas, "benefícios concentrados contra custos difusos" é tão de praxe na nossa política que deveria substituir "Ordem e Progresso" na bandeira. Através dele, entubamos a CPMF, por exemplo. E, em tempos de PEC e investimentos congelados em saúde e educação, algumas categorias correram e garantiram aumentos e privilégios previdenciários nos bastidores, diluindo os custos dos seus benefícios entre o resto de nós, mortais contribuintes. Vida que segue.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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