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Teatro do Mundo

Originalidade ou Complexidade?

A arte não precisa nascer do inédito para ser impactante

Publicado em 16/01/2026 10:08 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Semana On - IA

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Na criação artística contemporânea, ainda paira como um fantasma a ideia de originalidade, esse mito romântico que carrega o peso da genialidade solitária, do nunca antes visto, do autor como demiurgo. Contudo, em tempos de sobreposição de linguagens, referências e discursos, talvez seja hora de enterrar de vez esse fetiche. A originalidade, por si só, não importa. O que de fato importa — e o que resiste — é a complexidade.

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A arte não precisa nascer do inédito para ser impactante. Aliás, há muito sabemos que tudo já foi dito, mostrado, contado. A força de uma obra não está no fato de ela ser a primeira a tocar um tema, mas na maneira como ela estrutura, compõe, tensiona e desdobra aquilo que se propõe a abordar. É nesse emaranhado de camadas — formais, estéticas, simbólicas, afetivas — que reside a complexidade, e é ela que nos desafia, nos desloca, nos transforma.

A busca pela originalidade tornou-se um atalho superficial, uma obsessão pelo novo como embalagem, como estética de ruptura vazia. Muitas vezes, a novidade é apenas um verniz sobre estruturas narrativas frágeis ou ideias rasas. Em contrapartida, uma obra complexa pode partir de um gesto simples, de um tema comum, de um dispositivo conhecido — e, ainda assim, ser profundamente transformadora, justamente pela maneira como articula suas contradições internas, seus paradoxos, suas camadas de sentido.

A complexidade exige elaboração, exige tempo. E isso se choca com a lógica veloz das redes, dos algoritmos, da produção em série. Criar obras complexas hoje é quase um ato de resistência. Exige enfrentar o simplismo da performance imediata, da viralização, do consumo rápido. E mais: a complexidade não busca agradar, ela incomoda. Não entrega respostas prontas, mas provoca perguntas. Não reconforta, mas tensiona.

No teatro, na literatura, no cinema, na música — em todas as linguagens — o que marca a diferença entre o trivial e o potente é o modo como a obra escapa da unidimensionalidade. Uma peça pode reencenar um clássico — Shakespeare, por exemplo — e ainda assim ser absolutamente urgente, se for capaz de propor uma leitura que atravesse o tempo, que dialogue com o agora, que desmonte e reconstrua as estruturas narrativas com inteligência. O mesmo vale para uma canção, um poema, uma performance.

A originalidade como ponto de partida pode ser um engano. A complexidade como horizonte é uma necessidade. Porque a arte que se limita ao inédito é frágil; a arte que se entrega à densidade é inesgotável.

Criar, hoje, é menos descobrir algo novo do que aprofundar algo conhecido. É rearticular, recompor, recombinar. E nisso não há perda — há potência. Porque a complexidade não é um ornamento, é o que resta quando a originalidade deixa de ser suficiente.

FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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