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Se o mundo não reagir agora, corremos o risco de uma era marcada pelo autoritarismo, pela intolerância e pela destruição ambiental irreversível
Publicado em 07/02/2025 2:03 - Victor Barone
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Quando Donald Trump venceu as eleições de 2016, muitos enxergaram aquele momento como uma anomalia, um desvio temporário no curso democrático de uma nação conhecida por sua estabilidade institucional. No entanto, nove anos depois, o trumpismo revelou-se muito mais do que uma conjuntura política: trata-se de um movimento global de extrema direita que ameaça a democracia liberal e os valores de convivência que sustentam a ordem internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não seria apenas de uma crise interna americana, mas um terremoto global.
O desmonte das políticas climáticas promovido por Trump não pode ser visto de forma isolada. Quando os Estados Unidos, sob sua liderança, retiraram-se do Acordo de Paris em 2017, o mundo não apenas perdeu a participação de um dos maiores emissores de CO₂, mas testemunhou o enfraquecimento de uma coalizão multilateral construída após décadas de negociações. Segundo dados da ONU, os EUA, responsáveis por cerca de 15% das emissões globais, comprometeram programas cruciais em países vulneráveis, como os projetos de reflorestamento na Amazônia e iniciativas de energia limpa na África.
O retorno desse cenário é alarmante, especialmente quando observamos o colapso ecológico iminente. O climatologista Michael Mann, uma das vozes mais respeitadas na ciência climática, já advertiu que “se o próximo governo dos Estados Unidos falhar em adotar medidas drásticas contra as mudanças climáticas, não teremos tempo para corrigir o curso antes de cruzarmos pontos de não retorno”. Não se trata apenas de responsabilidade ambiental, mas de evitar catástrofes humanitárias de proporções inéditas.
O trumpismo é um símbolo do que o filósofo francês Pierre Rosanvallon chama de “desdemocratização”, ou seja, o processo em que mecanismos institucionais são corroídos de dentro. A rejeição ao multilateralismo e a busca por políticas unilaterais refletem o desprezo pela cooperação global, substituindo-a pelo nacionalismo excludente e xenófobo. Esse movimento encontra eco em outros líderes autoritários pelo mundo, como Jair Bolsonaro no Brasil e Viktor Orbán na Hungria.
O desmantelamento das instituições internacionais é uma tática deliberada. Trump, Bolsonaro, Orbán, Putin, Milei – entre outros extremistas – compartilham a visão de que organismos como a ONU ou o Tribunal Penal Internacional representam obstáculos à soberania nacional, quando, na verdade, eles servem como garantias contra os abusos de poder. Destruir essas instituições significa eliminar as travas que impedem a escalada autoritária.
O resultado? Um mundo mais fragmentado e incapaz de lidar com problemas globais como mudanças climáticas, migração forçada e crises econômicas. Na análise do cientista político Ian Bremmer, “o enfraquecimento das instituições internacionais não leva ao fortalecimento das nações, mas à desordem internacional, onde ninguém é forte o suficiente para mediar conflitos”.
Esse descaso para com o outro, para com o restante do mundo, leva a ações como a que o governo Trump apresentou recentemente: uma proposta alarmante que visa a remoção forçada de aproximadamente 2 milhões de palestinos da Faixa de Gaza, com o intuito de transformar a região em uma “Riviera do Oriente Médio”. Segundo o plano, os Estados Unidos assumiriam o controle de Gaza após a evacuação de seus habitantes, promovendo um projeto de reconstrução que inclui hotéis e resorts de luxo. Os palestinos seriam reassentados em países vizinhos, como Egito e Jordânia, que já manifestaram rejeição à ideia. A ideia foi amplamente condenada pela comunidade internacional, sendo classificada como uma forma de limpeza étnica que viola flagrantemente o direito internacional e os princípios fundamentais dos direitos humanos. Além disso, a proposta levanta suspeitas sobre interesses econômicos ocultos, uma vez que a Faixa de Gaza possui reservas de gás e petróleo ainda não exploradas, o que poderia beneficiar economicamente tanto os Estados Unidos quanto Israel.
O ataque ao “estranho”, o “outsider”, no caso palestino, aos muçulmanos, se encaixa na retórica do trumpismo, onde a religião desempenha um papel estratégico: mobiliza emoções profundas e constrói uma narrativa de proteção contra supostos inimigos externos e internos. A criação do “Escritório da Fé” no governo Trump é um exemplo claro dessa prática, transformando crenças religiosas em instrumentos de poder político.
A filósofa Martha Nussbaum, em Liberdade de Consciência, já alertava sobre os riscos da mistura entre religião e política: “Quando uma religião busca impor seus valores por meio do Estado, não é a fé que prospera, mas a intolerância.” No caso de Trump, a estratégia vai além do apelo à base conservadora; ela visa o controle social por meio do medo, da exclusão de minorias religiosas e da supressão de vozes dissonantes.
Essa prática tem efeitos diretos sobre a sociedade: nos Estados Unidos, o aumento de crimes de ódio contra muçulmanos, judeus e comunidades LGBTQIA+ não é uma coincidência, mas um sintoma de uma política que legitima a violência simbólica e, em muitos casos, a física.
Talvez uma das faces mais perigosas do trumpismo seja sua capacidade de reescrever a história recente para justificar medidas autoritárias. A decisão de remover grupos supremacistas brancos da lista de ameaças internas, sob o argumento de proteger “liberdades individuais”, é um exemplo gritante. Estudos do Southern Poverty Law Center mostram que esses grupos têm crescido exponencialmente nos últimos anos, alimentados pela retórica de “reconquista” racial e pela minimização de seus crimes.
Ao mesmo tempo, Trump e seus aliados promovem a ideia de que manifestantes anti-aborto que intimidam mulheres nas portas de clínicas estão sendo “perseguidos”, enquanto as vítimas de assédio são invisibilizadas. É uma estratégia de inversão moral, na qual os opressores são transformados em vítimas e a violência sistêmica é normalizada.
O Brasil não passa incólume a esta revolução mundial às avessas. A experiência brasileira sob o governo de Jair Bolsonaro ofereceu lições valiosas. Apesar das tentativas de desmantelar instituições democráticas, a sociedade civil resistiu por meio de movimentos sociais, organizações de direitos humanos e a mobilização de eleitores. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 não foi apenas um retorno ao poder de um partido progressista, mas um símbolo de resistência democrática.
Ainda assim, o bolsonarismo não desapareceu. Ele permanece como uma força latente, aguardando oportunidades para ressurgir. A lição é clara: resistir ao trumpismo e seus derivados exige vigilância constante e uma resposta coordenada.
A ameaça que o trumpismo representa não pode ser enfrentada isoladamente. É preciso uma coalizão global comprometida com a defesa dos valores democráticos, a promoção dos direitos humanos e a preservação do Estado laico. Como afirmou o sociólogo alemão Jürgen Habermas, “a democracia não é um dado adquirido; é um projeto em constante construção, que requer engajamento contínuo.”
Estamos diante de um momento crítico. Se o mundo não reagir agora, corremos o risco de viver em uma era marcada pelo autoritarismo, pela intolerância e pela destruição ambiental irreversível. A resistência ao trumpismo, ao bolsonarismo e aos seus aliados globais não é apenas uma questão política, mas uma luta pela preservação da própria civilização. O tempo está correndo. É hora de agir.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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