19/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

O Silvo dos Catioros

Publicado em 28/10/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Na política gringa, o termo "dog whistle" se refere a um tipo de estratégia de comunicação que consiste em mandar mensagens cifradas para seu público alvo sem causar alarde na população geral. Literalmente significa "apito de cachorro", numa referência ao instrumento utilizado por treinadores de cães que emite sons numa frequência inaudível para os humanos mas praticamente irresistível para os catioros.

É uma versão mais sofisticada de uma outra expressão em inglês: "You know what I mean" ou "você sabe do que eu estou falando".

Como o discurso democrático tem evoluído tornando-se mais inclusivo, gente com agendas de menor – digamos – tolerância, dá uma garibada nas terminologias de ódio para que sua mensagem não alerte ouvidos mais politicamente corretos.

Um exemplo: o Klu Klux Klan, organização que promovia o racismo vestidinhos de fantasma e espancava negros no sul dos EUA. Hoje em dia, o discurso da superioridade ariana, não pega bem. Então eles usam um "dog whistle". O grupo (que, acredite se quiser, está em atividade e ganhando adeptos)  não fala mais em raça.

Ainda preferimos demonizar o adversário a dar um banho de loja nas nossas demandas polêmicas.

Agora eles pregam o nacionalismo americano, defendendo o Tio Sam dos imigrantes terroristas. Esses imigrantes terroristas tendem a ser mais escurinhos? Pura coincidência, alegam.

Outro exemplo: o casamento gay. Mesmo nos confins do Texas, o americano reaça já sabe que não pega bem ser homofóbico. Então eles criaram alguns "dog whistle" para justificar seus comportamentos injustificáveis. Alguns restaurantes se recusam a servir casais homoafetivos e alegam o "princípio da liberdade religiosa". Como se a última edição da bíblia trouxesse uma resolução de que servir cafezinho para casal gay é pecado, agora.

Outros, falam que a decisão sobre a legalidade desse tipo de relação deve ser realizada no "âmbito estadual", transformando uma discussão de direitos civis num debate sobre lei e constitucionalidade em Estados Federados.

O Brasil ainda está engatinhando na prática. Ainda preferimos demonizar o adversário a dar um banho de loja nas nossas demandas polêmicas. Mas a muamba já está no Sedex vindo de Orlando, enviada com carinho pela turma do Tio Trump. E a cachorrada brazuca já começou a salivar.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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