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Ágora Digital
Nikolas Ferreira aposta no negacionismo climático pelo voto dos terraplanistas
Publicado em 04/11/2025 2:11 - Victor Barone
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Quando o deputado Nikolas Ferreira propõe que o currículo escolar brasileiro traga “multiplicidade de pontos de vista” sobre as mudanças climáticas, ele não está defendendo o pluralismo. Está promovendo, com verniz pseudoponderado, um projeto de desinformação que mina o pacto civilizatório sobre o qual repousam a democracia, a ciência e a educação pública.
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A retórica do parlamentar — que pretende “evitar doutrinação” ao distinguir “ciência de ativismo” — é herdeira direta da lógica anticientífica que se espalha globalmente desde que figuras como Donald Trump assumiram o palco político. Trump, vale lembrar, classificou as mudanças climáticas como “a maior farsa” da história na tribuna da ONU em setembro de 2023. Não por acaso, Nikolas ecoa seu discurso: ambos operam na mesma engrenagem de populismo reacionário, que relativiza o real em nome de ganhos eleitorais de curto prazo.
Mas não há pluralismo onde não há fato. E não há debate honesto onde o que se busca é obscurecer verdades científicas com argumentos ideológicos de conveniência. As mudanças climáticas são um fato estabelecido. O consenso científico é esmagador: mais de 97% dos climatologistas concordam que o aquecimento global é causado pela atividade humana, segundo levantamento da NASA e da American Association for the Advancement of Science.
Ainda assim, o deputado insiste que o tema foi “sequestrado” por uma narrativa única, como se ensinar ciência com base em evidências fosse uma forma de autoritarismo. É uma estratégia astuta — e perigosa. Porque transforma a ignorância em valor político e a dúvida fabricada em moeda eleitoral.
A tática é conhecida. A indústria do tabaco nos anos 1960 a empregou com maestria: gerar dúvida sobre os efeitos do cigarro, mesmo com estudos claros sobre sua letalidade. Décadas depois, o mesmo método foi utilizado por think tanks ligados aos combustíveis fósseis para questionar as bases do aquecimento global. Como alertou a historiadora da ciência Naomi Oreskes, em seu livro “Merchants of Doubt”, a criação deliberada de incerteza científica é uma forma sofisticada de manipulação ideológica.
A “multiplicidade de pontos de vista” defendida por Nikolas não passa de eufemismo para inserir teorias sem respaldo empírico no ambiente escolar. Imagine se aplicássemos esse mesmo princípio à matemática, ensinando que 2+2 pode ser 5, dependendo da “perspectiva”. Ou à medicina, propondo que vacinas devem ser debatidas ao lado de argumentos antivacina, em nome da “neutralidade”. Ops, isso já está ocorrendo…
O problema vai além da ignorância: reside na instrumentalização da ignorância como projeto político.
O negacionismo climático, quando institucionalizado, não é apenas desinformação: é sabotagem social. Em um país como o Brasil, que sofre os impactos diretos das mudanças climáticas — do alagamento de cidades inteiras no Sul à desertificação do Nordeste —, negar a emergência climática é um ato de violência contra as populações mais vulneráveis, que são as primeiras a sentir o colapso ambiental e as últimas a receber proteção.
Ao minar o ensino científico, o discurso de Nikolas também mina a própria democracia. Porque a democracia só é possível quando cidadãos têm acesso a informação de qualidade, pensamento crítico e capacidade de discernimento. Como afirmou o filósofo Edgar Morin, “a democracia não pode ser reduzida a um ritual eleitoral: ela exige cidadania esclarecida”.
Nikolas defende que os alunos sejam “formados para decidir com base em evidências”. A ironia é que sua proposta justamente destrói o acesso a essas evidências, ao colocar lado a lado ciência e negacionismo como se fossem equivalentes. Isso não é liberdade de pensamento — é o colapso do pensamento racional.
Karl Popper, referência no pensamento liberal e defensor da liberdade, alertava para o chamado “paradoxo da tolerância”: se uma sociedade é ilimitadamente tolerante, sem estar preparada para defender-se dos intolerantes, acabará destruída por eles. Tolerar o negacionismo climático em nome do pluralismo é, portanto, uma forma de suicídio coletivo.
A liberdade de expressão é um valor sagrado — mas ela exige responsabilidade, sobretudo quando falamos de políticas públicas e formação de gerações futuras.
Não estamos diante de um debate técnico. Estamos numa disputa civilizatória. De um lado, a ciência, o conhecimento, a racionalidade, o compromisso com o planeta e com as futuras gerações. Do outro, o obscurantismo, o oportunismo político e a construção de uma realidade paralela onde dados são “opiniões” e o colapso ambiental é tratado como boato.
A tentativa de inserir o negacionismo climático no currículo escolar, sob o pretexto de “equilíbrio ideológico”, é o equivalente moderno de ensinar que a Terra é plana ou que a escravidão teve “lados positivos”. É preciso nomear o que isso representa: um ataque à educação, à ciência, à democracia e à própria vida no planeta.
O enfrentamento da crise climática não é apenas um dever ambiental — é um imperativo ético. Exige lideranças comprometidas com o bem comum, e não com o aplauso fácil das redes sociais ou os interesses imediatistas de setores predatórios. Exige coragem política para dizer a verdade, mesmo quando ela desagrada.
Quando o clima vira pauta de campanha, cada voto se torna uma escolha entre lucidez e delírio. Entre responsabilidade e omissão. Entre o planeta e o colapso.
A hora é agora. Porque negar o clima é negar o futuro — e nenhum pluralismo justifica esse crime.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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