Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Ágora Digital

Eleger um pateta pode ter graça momentânea, mas o resultado é a catástrofe

O populismo de selfie e o colapso da política pública: o caso de Abílio Brunini em Cuiabá

Publicado em 17/10/2025 1:41 - Victor Barone

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Há uma cena recorrente, quase banalizada, na política brasileira contemporânea: um político que rejeita o diálogo institucional, ataca inimigos imaginários, esbraveja contra o “sistema”, enquanto posa para vídeos e stories que garantem seu oxigênio eleitoral. Na superfície, parece vigor e autenticidade. No fundo, é desgoverno puro. O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), é uma representação exemplar — e trágica — desse fenômeno.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Brunini ascendeu politicamente não por suas propostas, mas por sua performance. Ex-deputado federal e expoente do bolsonarismo no Mato Grosso, notabilizou-se por vídeos agressivos nas redes sociais, gestos obscuros — como o suposto símbolo supremacista branco feito na CPMI do 8 de janeiro — e pela hostilidade a qualquer instância institucional associada a pautas progressistas. Hoje, 10 meses após assumir a prefeitura da capital mato-grossense, encontra-se encurralado por uma crise financeira devastadora, agravada por sua própria recusa em governar com responsabilidade e pragmatismo.

A retórica de Brunini é clara: “Cuiabá não precisa do dinheiro do governo Lula”. Mas a realidade se impôs com crueldade. Decretos de calamidade, rombo fiscal projetado de R$ 364 milhões apenas em 2025, acúmulo de lixo nas ruas após demissões em massa e cortes em áreas sensíveis como saúde e assistência social. O prefeito que prometia romper com a “velha política” acabou afundado na sua própria incompetência.

A lógica é velha, mas agora turbinada pelos algoritmos: o político performático cria um inimigo (a esquerda, o STF, os “comunistas”), recusa a cooperação interinstitucional, desmantela políticas públicas e, quando a máquina para de funcionar, terceiriza a culpa ou volta atrás com a mesma desenvoltura com que gravava seus vídeos inflamados. A diferença é que a realidade não viraliza tão fácil quanto a ilusão.

Essa modalidade de populismo digital não é invenção brasileira. Está na base da ascensão de figuras como Donald Trump, Javier Milei e Giorgia Meloni. Como aponta o cientista político Cas Mudde, “o populismo é uma ideologia de fachada que divide a sociedade entre o povo puro e a elite corrupta, ignorando a complexidade dos problemas e a pluralidade de interesses que compõem uma democracia”. (Mudde, The Far Right Today, Polity Press, 2019).

Abílio Brunini não governa: ele encena. Seu projeto é a radicalização do antipetismo como identidade política, ainda que isso custe a saúde fiscal de uma capital ou o atendimento mínimo à sua população. Os servidores da saúde — que agora protestam nas ruas e expressam arrependimento público por seu voto — são a metáfora viva de um governo que prometeu “moralizar” e entrega desmonte e descaso.

A política performática encontra terreno fértil em um contexto de desinformação, baixa confiança institucional e fragmentação social. Como já alertava Hannah Arendt, “a mentira organizada tem um papel importante nos regimes totalitários, pois mina a confiança nas instituições e na própria realidade” (As Origens do Totalitarismo, Companhia das Letras, 2022). Quando o governante nega a necessidade de diálogo com diferentes esferas políticas e ideológicas, rompe com o que define a própria democracia: a convivência com o dissenso.

No caso de Brunini, esse rompimento se deu não apenas no plano simbólico, mas prático. Ao recusar recursos federais por puro dogmatismo ideológico, comprometeu áreas essenciais como a saúde pública e a limpeza urbana. Ao cancelar programas como o Refis e abrir mão de empréstimos já aprovados, renunciou a instrumentos legítimos de recuperação fiscal. O resultado é previsível: colapso orçamentário, trabalhadores demitidos, lixo acumulado e a população à mercê do improviso.

Não se trata de um caso isolado, mas de um modelo de política antidemocrática disfarçada de “autenticidade”. Um modelo que despreza o diálogo plural, a complexidade da administração pública, a técnica e o compromisso com os direitos sociais. Que nega a política enquanto espaço de mediação e negociação e a substitui por um ringue de lacração e ressentimento.

O Brasil, no entanto, já pagou caro demais por essa fórmula. O desmonte de políticas públicas entre 2016 e 2022 deixou marcas profundas na educação, na ciência, na cultura e no meio ambiente. É preciso aprender com o erro: não se governa com vídeos, slogans e provocações. Governa-se com responsabilidade, diálogo federativo, planejamento fiscal e escuta às demandas da população — especialmente a mais vulnerável.

Como escreveu o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “a democracia é uma construção inacabada e exige vigilância permanente contra todas as formas de autoritarismo, mesmo as disfarçadas de espontaneidade popular” (Democratizar a democracia, Civilização Brasileira, 2002).

A crise em Cuiabá não é apenas uma crise fiscal. É o reflexo de um projeto de poder baseado na destruição do outro, na deslegitimação das instituições e na espetacularização da ignorância. Um projeto que não apenas fracassa tecnicamente, mas corrói os pilares da convivência democrática.

É hora de retomar a política como espaço de construção coletiva — e rejeitar com clareza aqueles que usam o celular como escudo para esconder sua incapacidade de governar.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

Email

Facebook

Linkedin

Espelho, espelho meu

Leia outros artigos da coluna: Ágora Digital

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *