13/04/2024 - Edição 540

Camaleoa

O muro de Berlim da Júlio de Castilhos

Publicado em 23/05/2014 12:00 - Cristina Livramento

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“Muro de Berlim”, é assim que moradores e comerciantes da Júlio de Castilhos se referiram à avenida, na matéria publicada no Midiamax News, após a revitalização feita pela Prefeitura. Eles reclamam da falta de retorno na via, acesso aos bairros da região, da proibição de estacionamento no decorrer da avenida e queda nas vendas.

Campo Grande tem hoje, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 805.397, considerado o 21º município mais populoso do Brasil. A cidade cresceu, a população aumentou, e os problemas que acompanham o progresso também vieram junto, o que não deveria ser novidade para ninguém.

O problema da avenida Júlio de Castilhos, pelo o que apontam os moradores e comerciantes da região, começou já no projeto feito ainda na administração do ex-prefeito, Nelson Trad (PMDB), que previa o fim das conversões à esquerda, com utilização de laços de quadra para acesso aos bairros e retornos.

Essa falsa necessidade absoluta de se ter um carro é o principal problema da maior parte das cidades.

Na verdade, essa falsa necessidade absoluta de se ter um carro é o principal problema da maior parte das cidades. A gente se acostuma a ir para a padaria do bairro de carro. Vamos com os filhos, desde pequenos, para a escola do bairro, também de carro. E esquecemos que ser cidade é estar presente e se fazer presente nos quesitos mais básicos, itens imprescindíveis para que haja o mínimo de dignidade para moradores e comerciantes.

Nossas calçadas são vergonhosas, o asfalto e recapeamento que prefeito após prefeito autoriza a fazer é medonho, o nosso transporte público é deprimente, a iluminação pública da nossa cidade é uma piada, e por aí podemos seguir.

Dirigimos pela cidade e culpamos o pedestre, o motorista de ônibus, o prefeito. Caminhamos pela cidade e culpamos os motoristas, motociclistas, o prefeito. Pedalamos pela cidade e culpamos os motoristas, motociclistas e o prefeito.

Adoro dirigir, mas odeio o engarrafamento e o stress que o trânsito apresenta hoje. Caminho, pego ônibus, ando de mototaxi e taxi e sinto a cidade pulsar em cada esquina. Faço novas amizades e contatos para futuras pautas, vejo o verde das árvores e sinto o cheiro da cidade muito melhor do que se estivesse dentro de um carro.

Precisamos nos voltar para os problemas mais básicos da nossa cidade e deixar de pensar individualmente para pensar no coletivo.

O corpo oxigena melhor, a circulação do cérebro melhora, e você exorciza e resolve muitos problemas. Também acho ótimo sair de dentro de casa, de salto, maquiada, linda, fresca, entrar no carro, ligar o ar condicionado e estacionar bem na frente do lugar onde vou. Seria o ideal, mas não condiz com a realidade de uma cidade grande.

Precisamos nos voltar para os problemas mais básicos da nossa cidade e deixar de pensar individualmente para pensar no coletivo. Somos legião e como legião devemos exigir e fazer valer as promessas de nossos políticos durante campanha e mandato, quando eleitos.

Me parece que chamar a revitalização da Júlio de Castilhos de muro de Berlim ultrapassa o nível do bom senso. Não somos a Europa e estamos muito, mas muito longe de sermos a Alemanha ou de ter ideia do que a construção desse muro, concreto, bem vigiado e intransponível, significou para gerações e gerações daquele país.

Somos Brasil, Mato Grosso do Sul, Campo Grande. Nossos problemas são ínfimos se comparados ao que esse maldito muro fez com tanta gente.

Que tenhamos sobriedade para fazer valer mudanças dignas para todos nós. Uma cidade, não se esqueça, é reflexo de seus moradores. Nós somos a cidade, seja ela o caos ou a poesia.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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