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Ágora Digital

O gatilho que matou Yaron e Sarah foi puxado pelo sionismo

A negação da existência dos palestinos é alimento para o antissemitismo

Publicado em 22/05/2025 1:01 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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A tragédia que vitimou dois jovens israelenses em Washington, executados friamente às portas do Museu Judaico da capital norte-americana, é uma cena que deveria revoltar qualquer defensor da vida, da democracia e da dignidade humana. Yaron Lischinsky e Sarah Milgrim, funcionários da embaixada de Israel, estavam à beira de um novo capítulo de vida — um pedido de casamento que jamais se concretizará. O ódio que os matou atravessou fronteiras. E como todo ódio, não respeitou inocentes.

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O grito do atirador — “Palestina livre” — não redime o crime, não lhe dá causa nobre nem significado político. Nenhuma libertação nasce do sangue de civis assassinados. A violência dirigida contra judeus por serem judeus é antissemita. E deve ser condenada de forma intransigente, ainda mais por aqueles que se colocam à esquerda do espectro político, onde os princípios da igualdade, da justiça e da não violência não são apenas retórica, mas fundamento moral.

Contudo, é preciso também coragem para enfrentar uma verdade desconfortável: o crescimento do antissemitismo no mundo atual está intimamente relacionado à radicalização do sionismo promovida pela extrema-direita de Israel. O sionismo é um projeto colonialista e racista que nega a existência do povo palestino e o seu direito à terra, à história e à vida.

Entre os dias 15 e 21 de maio, 716 palestinos foram mortos em Gaza. Sete jornalistas perderam a vida no mesmo período. Mais de 53 mil palestinos — a maioria mulheres e crianças — já morreram desde outubro de 2023. Esses números não são estatísticas. São biografias interrompidas. E não é possível ignorar que essas mortes acontecem sob o manto de um discurso oficial que desumaniza os palestinos e se justifica sob o pretexto da autodefesa.

Não se pode esquecer que o próprio Hamas, cuja ação brutal em outubro de 2023 ceifou a vida de cerca de 1.200 israelenses, só ganhou força depois de décadas de sabotagem da Autoridade Palestina por parte da extrema-direita israelense, que preferiu fomentar o extremismo do que reconhecer a legitimidade da moderação. Foi essa mesma política que expandiu assentamentos ilegais, ignorou resoluções internacionais e bloqueou sistematicamente qualquer solução diplomática justa para a convivência entre os povos.

O pensador judeu-polaco Zygmunt Bauman, sobrevivente do Holocausto, escreveu: “A segurança de um povo não pode ser construída à custa da insegurança de outro” (in Modernidade e Holocausto, 1989). Ignorar essa máxima é perpetuar o ciclo de violência.

O antissemitismo é uma aberração. Mas a critica ao sionismo não é antissemitismo. Pelo contrário: é, em muitos casos, um dever moral de judeus e não judeus comprometidos com os direitos humanos. Como afirma Noam Chomsky, intelectual judeu e crítico histórico das políticas israelenses: “Criticar Israel não é antissemitismo, da mesma forma que criticar os Estados Unidos não é ser antiamericano”.

O mundo precisa, com urgência, recuperar a capacidade de distinguir o que é uma crítica legítima a políticas de Estado do que é preconceito contra um povo. Não há justiça possível em um mundo onde a denúncia do apartheid israelense é silenciada sob a acusação de antissemitismo, nem há esperança em um mundo onde jovens judeus são assassinados porque seus governos cometem crimes.

É possível, e necessário, caminhar por essa estreita linha de coerência: lamentar profundamente os assassinatos em Washington e, ao mesmo tempo, denunciar a barbárie em Gaza. Condenar o antissemitismo sem fechar os olhos para a opressão dos palestinos promovida pelo sionismo. Defender a vida de todos os povos — inclusive os judeus e os palestinos — sem alinhar-se cegamente a governos, ideologias ou projetos nacionalistas excludentes.

O mundo está doente. E parte dessa doença vem da recusa em reconhecer a humanidade no outro. Quando o sionismo nega aos palestinos o direito de existir, alimenta o mesmo tipo de ódio que ontem matou Yaron e Sarah. O verdadeiro antídoto contra o antissemitismo não é o sionismo. É a justiça.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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