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Ágora Digital

O Brasil que a elite quer que vejamos

Números da economia mostram como a elite política e econômica manipula nossa realidade

Publicado em 03/07/2025 3:10 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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Vivemos uma crise silenciosa e traiçoeira no Brasil. Não exatamente econômica, política ou social, mas cognitiva: a crise da percepção coletiva, ou melhor, da dissonância entre o real e o percebido, entre fatos e crenças. O atual cenário brasileiro expõe como nunca essa perigosa armadilha psicológica, explorada pelas elites, pela grande imprensa e por grupos políticos que lucram com o ressentimento e o medo.

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O termo “dissonância cognitiva”, cunhado pelo psicólogo norte-americano Leon Festinger em 1957, descreve precisamente a angústia e desconforto psíquicos sentidos por indivíduos quando confrontados com evidências que contradizem suas crenças pré-existentes. Em geral, para evitar esse desconforto, prefere-se rejeitar os fatos objetivos em favor da coerência interna da própria crença. É exatamente o que parece ocorrer no Brasil contemporâneo, principalmente em relação ao governo Lula. Foi o que mostrou recente artigo de Pedro Cafardo, no Valor Econômico.

Um dos grandes fantasmas brasileiros sempre foi a inflação, fenômeno econômico que corrói salários, prejudica os mais pobres e fragiliza governos. Atualmente, setores importantes da mídia e do mercado financeiro descrevem uma suposta situação inflacionária descontrolada no país, reforçando a percepção negativa sobre o governo Lula. No entanto, quando analisamos objetivamente os números, o cenário é oposto:

– A inflação média anual dos últimos dois anos ficou em 4,73%, enquanto nos quatro anos anteriores (sob Bolsonaro) ela era significativamente maior, atingindo 6,17%.

– Além disso, comparativamente, a média histórica brasileira, desde o lançamento do Real (1994), gira em torno de 6,5%. A inflação atual, portanto, está claramente abaixo dessa média histórica.

Esses números contradizem diretamente a narrativa que sugere uma crise inflacionária. Porém, a distorção persiste, alimentada por manchetes seletivas e análises enviesadas, criando artificialmente um clima de incerteza econômica e ansiedade social.

O preço dos alimentos costuma ser o principal vilão da inflação para os mais pobres. Mas, atualmente, ocorre justamente o contrário:

– No último ano, os alimentos tiveram aumento de 8%, ao passo que a renda geral das famílias cresceu 10% e a renda das famílias mais pobres disparou impressionantes 19%.

– Nos quatro anos anteriores, os alimentos subiram, em média, 8,24% ao ano, enquanto nos dois anos recentes do atual governo a média foi de 4,36%.

Esses dados não são pequenos detalhes econômicos; são expressivos indicadores sociais de recuperação da capacidade aquisitiva da população mais vulnerável, um dos pilares essenciais da democracia social.

A narrativa hegemônica insiste em desenhar um cenário sombrio para a classe trabalhadora, mas a realidade insiste em contrariá-la:

– A taxa de desemprego atual (6,6%) é uma das mais baixas da série histórica brasileira. Projeta-se queda para 5,9% até dezembro, um número raro na história recente do país.

– O trabalho informal também diminuiu significativamente, situando-se atualmente em 37,9%, entre as menores taxas desde o início da série histórica, em 2015.

Esses números apontam uma retomada consistente e estável do mercado de trabalho formal. Ainda assim, muitos brasileiros seguem negando a realidade dos fatos em prol da coerência com narrativas pré-estabelecidas.

O Brasil, historicamente conhecido como campeão mundial da desigualdade, apresentou no ano passado os índices mais baixos de sua história recente. A renda per capita domiciliar atingiu seu maior patamar desde 2012, segundo o Índice de Gini.

Mais impressionante ainda é a redução dramática da fome:

– Em apenas um ano, o número de pessoas famintas caiu de 17,2 milhões para 2,5 milhões, o que significa que cerca de 14,7 milhões de brasileiros deixaram a fome, conforme aponta o Relatório das Nações Unidas sobre Insegurança Alimentar.

Esses avanços, porém, mal aparecem na narrativa cotidiana da grande mídia, muito menos nos discursos das elites econômicas brasileiras, cuja indiferença para com os avanços sociais beira o cinismo.

Enquanto o Brasil mergulha numa crise perceptiva, o PIB real cresce, desmentindo as expectativas pessimistas ano após ano:

– No primeiro trimestre deste ano, o PIB cresceu 1,4%, superando com folga o crescimento médio pífio de 0,1% dos países do G7 e da OCDE.

– Desde 2020, a economia brasileira surpreende positivamente: em 2020 previa-se queda de 6,5%, foi de 3,3%; em 2021 previa-se crescimento de 3,4%, foi de 4,8%; em 2022, 0,3%, mas foi de 3%; em 2023 projetava-se 1,4%, mas foi de 2,9%; e em 2024 projetava-se 1,6%, mas o crescimento alcançou 3,4%.

Enquanto isso, os lucros empresariais batem recordes históricos: no primeiro trimestre, o lucro das empresas não financeiras aumentou 30,3%, enquanto bancos apresentaram um aumento médio de 7,3%, com destaque para instituições que cresceram até 39% em um ano.

A indústria, fundamental ao desenvolvimento econômico e à geração de empregos de qualidade, voltou a apresentar crescimento sólido:

– No último ano, o setor industrial cresceu 3,1%.

– Apenas em março deste ano, a indústria cresceu 1,2% em relação ao mês anterior e 3,1% comparado ao mesmo mês do ano passado.

Mas, novamente, o discurso pessimista permanece, sustentado por interesses que preferem o pessimismo rentista de ocasião ao otimismo produtivo.

Diante desses fatos objetivos, uma pesquisa Datafolha aponta que 56% dos brasileiros sentem mais vergonha do que orgulho do presidente Lula. Paradoxalmente, 61% dizem sentir orgulho do povo brasileiro. Isso revela que a vergonha é direcionada, seletiva e, em última análise, manipulada por narrativas construídas para enfraquecer um governo identificado com causas progressistas.

Como explica o sociólogo brasileiro Jessé Souza em “A Elite do Atraso” (2017) “A elite brasileira controla os meios de produção simbólica, a mídia, e cria narrativas para naturalizar injustiças e desigualdades como se fossem obra da natureza, não de decisões políticas e econômicas concretas.”

É essa elite que clama por liberalismo quando se trata dos direitos dos pobres, mas não hesita em apelar ao Estado por subsídios e benesses quando seus próprios interesses estão em jogo.

Este artigo não se propõe à defesa intransigente do governo Lula ou do PT, mas busca mostrar a perigosa dissonância cognitiva em que o Brasil mergulhou, cuidadosamente manipulada por elites econômicas e midiáticas, e por uma classe política profundamente corrompida.

Que o Brasil aprenda com a história e com os alertas de Festinger, Jessé Souza e tantos outros que estudaram a manipulação social. É urgente rompermos o muro da dissonância cognitiva, enfrentando com coragem a vergonha real: a manipulação que aceitamos como verdade. É hora de o brasileiro olhar-se honestamente no espelho da história e recuperar a capacidade de enxergar claramente o mundo ao seu redor.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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A dissonância cognitiva dos bilionários

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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