13/04/2024 - Edição 540

Camaleoa

Nossos loucos que andam por aí

Publicado em 05/09/2014 12:00 - Cristina Livramento

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, 28, popularmente conhecido como Cadu, foi destaque dos jornais nesta semana. Ensanguentado e com olhar direto para a câmera, o assassino confesso do cartunista Glauco Vilas Boas e o filho dele Raoni, em 2010, foi mais uma vez detido, na última segunda-feira (1º) pela polícia. A imagem de desolação de Cadu, diagnosticado com esquizofrenia e tido como inimputável pela Justiça, é o retrato do descaso da nossa socidade com o paciente psiquiátrico no Brasil.

A imagem, provavelmente feita pela polícia de Goiânia, mostra o quanto nossos doentes estão expostos à violência – das mais variadas e de todos os lados possíveis. Assim como São Paulo, Mato Grosso do Sul, também tem sua pedra no sapato chamada Dionathan Celestrino, 22, mais conhecido como Maníaco da Cruz. Após matar três pessoas, em 2008, Dionathan ganhou espaço na mídia e passou a ser "jogado" de um lado para o outro, sem ninguém querer se responsabilizar pelo jovem. Não pode ficar em um presídio comum porque possui distúrbios de conduta e não pode ficar internado em uma instituição psiquiátrica comum porque é violento.

Em matéria publicada pelo jornal O Estado, Campo Grande tem um deficit de 190 leitos de psiquiatria. O setor público de atendimento em psiquiatria está na mira do Ministério Público de Mato Grosso do Sul que cobra da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública) um posicionamento sobre a falta de leitos para pacientes psiquiátricos. O ideal, segundo o Ministério da Saúde é a proporção de 0,45 leitos para cada 1 mil habitantes, isso quer dizer que, para uma população de 800 mil habitantes, Campo Grande precisaria ter ao menos 360 vagas.

Atualmente, a Sesau oferece 170 vagas tanto para a Capital quanto para o interior do Estado.

Ainda segundo o jornal O Estado, de acordo com o CRM (Conselho Regional de Medicina) de Mato Grosso do Sul, a exigência que o Ministério da Saúde faz é insuficiente para atender corretamente a população. "Nós queremos que o número de leitos chegue a 1 para cada 1 mil habitantes", número que prevê a Organização Mundial da Saúde. A Sesau, a partir da matéria, divulgou que está desenvolvendo um plano específico para o setor que será apresentado em 30 dias, contados a partir do dia 21 de agosto.

A discussão sobre internações ganhou bastante repercussão depois que o livro "O canto dos Malditos" do escritor Austregésilo Carrano Bueno virar filme – Bicho de Sete Cabeças – sob a direção de Lays Bodanzky. Carrano foi internado pelo pai, em 1974, aos 17 anos, ao encontrar um cigarro de maconha no bolso de um de seus casacos. Na época, ele foi levado à força pelo próprio pai para um dos maiores hospitais psiquiátricos de Curitiba, no Paraná. O livro foi escrito a partir dos três anos de internação, em períodos distintos, em duas instituições psiquiátricas, no qual Carrano denuncia as torturas, maus-tratos e violências sofridas por pessoas internadas nos manicômios.

Do cigarro de maconha, desde 1970, até os assassinatos de Cadu e Dionathan, em 2000, a situação continua sem respostas e sem nenhuma medida realmente efetiva. Imagino o que deve ser para os familiares destes pacientes e das vítimas destes crimes ter que lidar com a inércia do poder público e o descaso de maneira geral da sociedade. Não sabemos como lidar com o problema e, assim como tantas outras situações mais fáceis de se resolver, optamos por fazer de conta que não vemos. Afinal, nenhum de nossos parentes é vítima dos crimes ou lidamos com algum paciente psiquiátrico. E assim levamos o caos com a barriga até o momento em que novos maníacos surgirem e atingirem nossa própria pele.

Mais sobre

Cadu, diagnosticado com esquizofrenia

Segundo matéria publicada pela Folha de S. Paulo, Cadu é suspeito de um latrocínio (roubo seguido de morte) e outra tentativa ocorridos em Goiânia nos dias 28 e 31 do mês passado. Cadu estava internado no Caps Vida, onde ele fazia tratamento para esquizofrenia há um ano. Segundo o coordenador da saúde mental do município, o psiquiatra Sérgio Nunes, Cadu teve "uma recaída muito rápida". Ele foi detido ao lado de um comparsa que dirigia outro veículo roubado.

Ainda de acordo com a Folha, após confessar a morte de Glauco e do filho dele, ele ficou internado até agosto de 2013 quando foi autorizado a se tratar em liberdade. Segundo Nunes, desde esse período, o rapaz fez 34 sessões de terapia cognitivo comportamental com uma psicóloga, tinha consulta com psiquiatra a cada dois meses, ao lado do pai.

Dionathan, diagnosticado com transtorno de personalidade

De acordo com o G1, Dionathan matou três pessoas, em 2008, na cidade de Rio Brilhante. Os corpos das vítimas eram deixados em uma posição que lembra a de uma crucificação, por isso o apelido de Maníaco da Cruz. Em abril de 2013, ele fugiu da unidade de internação onde estava, em Ponta Porã, mas foi recapturado no Paraguai e trazido de volta para o Brasil. Na época, um novo laudo pedido pela Justiça havia dito que Dionathan não sofria mais de qualquer doença psiquiátrica e não oferecia mais um risco para a sociedade.

Carrano, internado em um manicômio por causa de um cigarro de maconha

A publicação do livro "O canto dos Malditos" resultou em processos contra Carrano, movidos pelos médicos (e familiares) responsáveis pelas 21 sessões de eletroconvulsoterapia as quais foi submetido. Em 1998, ele deu entrada com uma ação indenizatória por erro, tortura e crime psiquiátrico. De vítima, Carrano passou a réu e foi condenado a pagar uma indenização de 60 mil reais aos médicos e familiares denunciados no livro.

"O canto dos malditos" foi proibido de ser vendido, em 2002, sendo um dos poucos livros censurados e recolhidos após o fim da ditadura militar. Dois anos e meio depois, o livro foi liberado e reeditado com novas denúncias. Em 2009, um grupo de amigos de Carrano criou o "Prêmio Carrano de Luta Antimanicomial e Direitos Humanos" que tem como objetivo dar continuidade a luta do escritor por uma mudança nas condições de tratamento de pessoas com transtorno mental.

Carrano morreu aos 51 anos, em 2008, de câncer no fígado.

Links relacionados

Bicho de Sete Cabeças, filme de Lais Bodanzky

Leia outros artigos da coluna: Camaleoa

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *