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Ágora Digital
Não, Tarcísio não representa uma direita civilizada
Publicado em 17/03/2025 3:37 - Victor Barone
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Nos últimos anos, o Brasil tem vivido um embate decisivo entre as forças da democracia e as tendências autoritárias que se infiltram na política sob disfarces variados. Se Jair Bolsonaro personificou de forma escancarada uma direita extremista, de feições golpistas e desprezo pelas instituições democráticas, seu sucessor político mais viável, Tarcísio de Freitas, se apresenta como um ator mais calculista, mas não menos perigoso.
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Diferente de Bolsonaro, que governou na base do caos e da radicalização explícita, Tarcísio opera na lógica do autoritarismo sofisticado, aquele que não se impõe por bravatas grosseiras (pelo menos não diariamente), mas por movimentos sutis, discursos ambíguos e uma agenda que busca corroer a democracia por dentro. Seu desempenho na manifestação de Copacabana, no domingo (16), foi um exemplo claro de sua estratégia: posou como “moderado”, enquanto alimentava as mesmas teses golpistas do bolsonarismo.
Desde sua ascensão política, Tarcísio tem se vendido como uma alternativa à direita radical, alguém que, em tese, defenderia os valores conservadores sem comprometer o funcionamento das instituições democráticas. Esse verniz moderado, no entanto, se desfaz diante de suas atitudes concretas. Ao se colocar como um defensor da anistia para os golpistas do 8 de janeiro Tarcísio endossa a impunidade de um dos mais graves ataques ao Estado democrático desde a ditadura militar.
A anistia que ele defende, na prática, subverte a lógica do estado de direito, pois ignora provas concretas, relativiza crimes contra a democracia e transforma terroristas em vítimas. O historiador e cientista político Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias Morrem, alerta para esse tipo de estratégia: “A maneira mais comum de destruir uma democracia não é com um golpe de Estado, mas corroendo-a aos poucos, de dentro para fora, usando as instituições para desmontar a própria democracia.”
O discurso de Tarcísio se encaixa perfeitamente nessa lógica. Ao invés de desafiar diretamente o Estado de direito, como fez Bolsonaro, ele se aproveita das engrenagens institucionais para enfraquecê-lo. Sua postura reforça a ideia de que a democracia brasileira pode ser manipulada sempre que for conveniente para seus interesses políticos.
Outro ponto central de sua performance no ato bolsonarista foi sua retórica agressiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele insinuou que os ministros do tribunal são coniventes com criminosos comuns, mas rígidos demais com golpistas de extrema direita. Esse discurso, além de falacioso — visto que o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo —, é um sinal inequívoco de que Tarcísio está disposto a repetir a cartilha autoritária de Bolsonaro se isso lhe trouxer benefícios políticos.
O filósofo Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), explica que a grande ameaça às democracias modernas não são apenas os ditadores declarados, mas os políticos que, em nome da “justiça” ou da “liberdade”, solapam a autoridade das instituições que garantem a democracia. O ataque de Tarcísio ao STF é um exemplo clássico desse fenômeno: ele não pede explicitamente o fechamento do tribunal, mas o desmoraliza, relativiza suas decisões e insinua que um governo sob seu comando poderia simplesmente ignorá-las.
Esse tipo de retórica pavimenta o caminho para a ruptura institucional, pois reforça na população a ideia de que o Judiciário é ilegítimo e, portanto, pode ser desrespeitado. Se há um primeiro passo para a implantação de regimes autoritários, ele passa pelo enfraquecimento do Judiciário e da imprensa livre, como aconteceu na Hungria de Viktor Orbán, na Rússia de Vladimir Putin e, neste instante, nos EUA de Trump.
Além dos ataques às instituições democráticas, Tarcísio ainda sinalizou para o mercado financeiro e para o setor empresarial que está disposto a aprofundar a agenda neoliberal sem restrições. Suas falas sobre a necessidade de “discutir o financiamento do SUS” e “reformar a Previdência” são eufemismos para cortes em políticas sociais e privatizações radicais, exatamente como fez Bolsonaro ao tentar desmontar o Estado brasileiro, e o que está fazendo Milei na Argentina – onde, em nome de melhorias nos números frios da economia, milhares de famílias foram reduzidas à pobreza.
O economista Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, alerta para os riscos desse tipo de modelo: “A desigualdade extrema não é apenas uma ameaça social, mas um risco à própria democracia. Quando o poder econômico se concentra nas mãos de poucos, ele inevitavelmente se transforma em poder político, corroendo as bases do Estado democrático.”
Se eleito presidente, Tarcísio tende a aprofundar a agenda neoliberal de forma ainda mais agressiva do que Bolsonaro, pois tem credibilidade técnica junto ao mercado. Mas o problema dessa abordagem é que não há democracia sustentável quando o Estado abdica de suas responsabilidades sociais e transfere o poder econômico para pequenos grupos de privilegiados. A combinação de autoritarismo político e desmonte do Estado social é o caminho para a barbárie, como demonstrado pelas experiências chilena e argentina sob ditaduras militares.
A manifestação de domingo deixou claro que Bolsonaro está se tornando irrelevante, e Tarcísio já se movimenta para ocupar seu lugar. Ele representa um perigo real para a democracia brasileira, pois alia a agenda antidemocrática do bolsonarismo a uma postura mais polida e articulada. Sua ascensão mostra que a extrema direita no Brasil não está desaparecendo, mas se adaptando — trocando a gritaria de Bolsonaro pelo pragmatismo de um gestor técnico, mas igualmente autoritário.
O Brasil precisa estar atento. Democracias não morrem apenas por golpes militares ou invasões violentas ao poder. Elas morrem também quando um líder assume o poder com promessas de normalidade, mas, aos poucos, corrói as instituições até que a democracia se torne uma casca vazia. A história já nos mostrou esse roteiro. E Tarcísio parece disposto a segui-lo, se isso o levar ao poder.
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Victor Barone
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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