19/05/2024 - Edição 540

Camaleoa

Não funciona

Publicado em 22/08/2014 12:00 - Cristina Livramento

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As discussões sobre os mais variados problemas relacionados ao funcionamento de uma cidade, a partir de opiniões pessoais, sempre são temperadas por comentários do tipo "mas isso aqui, no Brasil, não funciona". É como se nossas reclamações a partir de uma realidade – ruim, precária e empacada – tivessem que obrigatoriamente serem concluídas com essa máxima. Afinal de contas, por que então reclamamos?

Imagina se vivêssemos em uma cidade em que os seus moradores, cientes das falhas de uma administração pública, partissem do princípio de que o necessário – não estamos falando de um mundo perfeito – fosse utopia? De que maneira poderíamos construir um novo dia, uma cidade melhor? Vamos pensar em duas coisas que correm de boca a boca pelas ruas – a violência e o caos no trânsito.

O morador indignado grita por mais policiais nas ruas, mais armamento, mais presídio, pena de morte, porque ele acredita que só dessa forma ele e sua família estarão protegidos contra os bandidos. Então alguém comenta que o problema é mais amplo e complexo, que a medida não resolve a questão principal. Você prende dez hoje, amanhã tem 50 na rua. Mesmo que – vamos brincar de cinema – todos os psicopatas, estupradores, assassinos fossem mortos todos de uma só vez. Amanhã, a parcela que segue excluída daquilo que proporciona dignidade e perspectiva de futuro para o ser humano, está lá ocupando o lugar dos que foram mortos e com muito mais ódio e espírito de vingança.

Amanhã, a parcela que segue excluída daquilo que proporciona dignidade e perspectiva de futuro para o ser humano, está lá ocupando o lugar dos que foram mortos e com muito mais ódio e espírito de vingança.

Para resolver engarrafamento no trânsito, a falta de vagas no Centro, – vamos ainda dentro do exercício da imaginação, pensar que a prefeitura amanhã decida acabar com o canteiro da Afonso Pena, estreitar calçadas, abrir inúmeros estacionamentos verticais pela cidade e tudo será resolvido. Há uns 30 anos eu podia andar de bicicleta com tranquilidade pelo bairro, hoje não. Há seis anos, Campo Grande não tinha tanto condomínio fechado com mais de 400 casas como existe hoje espalhados pelos quatro cantos da cidade. Vamos pensar que, em breve, pelo menos, cada dois moradores de cada casa desses residenciais adquiram um veículo. Não é preciso esperar mais 30 anos para um novo salto de crescimento, me parece. Todo esse processo inflacionário tem acontecido rápido demais e é bem visível aos olhos.

Na verdade, enquanto o cidadão não aprender a olhar o problema sem a lente de aumento, não será possível visualizar o contexto em que ele se encontra e é claro que seremos sempre esse país do Carnaval, da macumba para turista, da terra do zé povinho. Enquanto a gente reclama e conclui – sem nenhuma dúvida – de que esse país não tem jeito e a solução é nos contentarmos em pagar cada vez mais por uma boa escola particular, um bom plano de saúde, uma moradia razoável, estaremos colaborando cada vez mais com o caos que tem invadido nossos lares. Mas tudo bem, "o Brasil não tem jeito mesmo e o pior, ah o pior, a gente não pensa porque senão não dorme e entrega para Deus porque Deus protege".

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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