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Conexão Brasília
Pablo Marçal nos ensina que os evangélicos são muitos e heterogêneos, o que sustenta a extrema-direita é uma forma de cosmogonia que transcende a crença religiosa
Publicado em 09/10/2024 10:55 - Rafael Paredes
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O bolsonarismo tem votos em diversas religiões, das mais cristãs as mais esotéricas, independentemente de quem é a divindade de culto. Muitos evangélicos votam no centro e na esquerda por identificarem suas demandas sociais melhor respondidas nas lembranças dos primeiros governos Lula. Então, qual a característica que une aqueles que sustentam o fascismo à brasileira?
Primeiro é importante identificar os mais diferentes evangélicos que existem no Brasil. O ex-coach messiânico Pablo Marçal (PRTB) quase passou para o segundo turno com mais de 1,7 milhão de votos conquistados em São Paulo, a cidade mais rica da América Latina. Você sabe qual a igreja de Pablo Marçal? Nenhuma. Ele é o exemplo de uma tipologia de evangélico, o sem igreja que utiliza a gramática evangélica para se forjar como líder digital rentável que migra para a política.
Na cidade natal do Pablo Marçal, os eleitores de Goiânia (GO) elegeram uma liderança evangélica como a mulher mais bem votada da história da capital goiana, Aava Santiago. A tucana da Assembleia de Deus e filha de pastores ficou nacionalmente conhecida por se opor ao bolsonarismo e se tornar conselheira de Lula para o meio evangélico. Diferente do coach, ela é orgânica de uma denominação religiosa, mas se identifica mais com pautas da esquerda.
O que perpassa como pré-requisito para se identificar com as pautas da extrema-direita não é a crença em Jesus Cristo (por mais óbvio que isso possa parecer), mas sim uma forma de ler e interpretar os fenômenos sociais e naturais. É a negação da ciência, um misticismo exacerbado e uma crença individualista que une evangélicos, católicos, exotéricos, adeptos da Ayahuasca em torno das pautas controversas da extrema direita.
Essa cosmogonia questiona a eficácia da vacina, é facilmente convencida por teorias da conspiração como a dos infiltrados no 8 de janeiro e acreditam que fenômenos naturais são apenas vontades divinas, de modo a duvidar da emergência climática, das queimadas e dos ambientalistas.
Essas pessoas, independente da religião, creditam sua prosperidade individual apenas a seus próprios méritos, criticam a existência do Estado mesmo sendo atendidos pelo SUS, estudado em escolas púbicas, a família tendo sua segurança alimentar preservada pelo programa Bolsa Família, terem se formado por meio do programa Prouni ou universidades públicas.
É possível traçar o perfil dos eleitores da extrema direita sem citar uma denominação religiosa. É o fascismo à brasileira, é o liberal à brasileira. Místico no comportamento, individualista na economia. “Se eu prosperei, mérito meu. Se eu fracassei, o estado me atrapalho. Se meu vizinho fracassou, é que ele não se esforçou e não teve fé o suficiente”.
Os evangélicos, os com igreja, os sem igreja, os teleconvertidos, os pentecostais, não definem a extrema-direita. O que a alicerça é uma forma diabólica de compreender o mundo.
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RAFAEL PAREDES
É jornalista e atua em Brasília (DF).
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