18/05/2024 - Edição 540

True Colors

Morno, artificial e sem sal

Publicado em 04/07/2014 12:00 - Guilherme Cavalcante

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O sabor deixou a desejar. Esta foi a conclusão dos entusiastas do segundo beijo gay da TV Globo em telenovelas, protagonizado pelas atrizes Tainá Muller e Giovanna Antonelli, na noite da última segunda-feira, durante a exibição da telenovela “Em Família”. De fato, para quem esperava um tempero no mínimo verossímil, o beijo – um selinho – causou frustração, muito mais que o (satisfatório) beijo entre Felix e Niko, da trama anterior, “Amor à Vida”.

E como era de se esperar, mesmo sendo um beijinho completamente desarticulado com a realidade que as novelas se propõem a reproduzir, o tal beijo causou polêmica e dividiu opiniões. Que bom! Toda unanimidade é burra e neste caso a “celeuma” por trás do beijo lésbico é um excelente indicador de que nossa sociedade moribunda ainda tem muito a avançar até que uma cena assim seja apenas mais uma entre as dezenas que compõem um capítulo de telenovela.

para quem esperava um tempero no mínimo verossímil, o beijo – um selinho – causou frustração, muito mais que o (satisfatório) beijo entre Felix e Niko, da trama anterior, Amor à Vida.

Explico: ninguém precisa gostar, aplaudir ou achar certo, basta respeitar e reconhecer que além de um modo de vida heterossexual, há um mundo jogado para baixo do tapete onde homens e mulheres se relacionam com os mesmo gêneros, sem falar das pessoas que recusam (legitimamente) ter suas identidades de gênero associada à genitália com a qual nascem.

Na verdade, a própria natureza da caracterização do beijo exibido já indica a forma que a emissora enxerga a importância de representar a comunidade LGBT em suas produções. Tem sido observado desde sempre que a caracterização destes personagens, mesmo antes de terem rompido o tabu do beijo (será?), é necessariamente cumprindo um expediente heteronormativo, ou seja, onde até mesmo homossexuais – para serem ao mínimo tolerados na sociedade – precisam apresentar uma conduta heterossexual, do tipo “casar, ter filhos, montar uma família”, isso para citar exemplos mais frugais.

Sobre este assunto, penso que, por parte da comunidade, é absolutamente legítimo quererem encontrar a felicidade a partir destes símbolos matrimoniais que tanto nos são negados. É absolutamente aceitável que um casal de gays ou lésbicas compartilhem e ostentem alianças e que anunciem sua fidelidade aos quatro quantos, mesmo que num modelo “emprestado”. Mas a questão é que existem, sim, outros padrões e que reforçá-los na teledramaturgia funciona como um excelente elemento afirmativo, tanto no contexto político como no cultural. Faz parte do processo educativo mais que urgente para a agenda LGBT.

Voltando aos beijos, tanto o que foi apresentado em “Amor à Vida” como o de “Em Família” são simplificados, rasos e, de certa forma, diáfanos. São tão incongruentes com os beijos e cenas de sexo de personagens heterossexuais que chegam a ser constrangedores e desrespeitosos. A ausência da língua é no beijo lésbico da Globo é para onde aponta a bússola: a língua, vale lembrar, foi excessivamente percebida nos tórridos beijos de Vera Vischer em Reynaldo Gianechinni em “Laços de Família” (mesmo autor de “Em Família), mostram bem essa diferenciação. Ou melhor, discriminação. É este tratamento diferenciado que promove equivocadamente a ideia de uma vida gay a dois (ou mais, por que não?) casta, assexuada, onde os personagens LGBT na maior parte das vezes integram núcleos cômicos ou trágicos.

Quem sai no saldo AINDA é o SBT, que exibiu há alguns anos o primeiro beijo lésbico explícito (veja o vídeo abaixo), com direito à língua imprescindível em beijos apaixonados.

PS: A Globo caçou todos os links do Youtube que traziam a cena do beijo, por isso, ele não segue em destaque. Para conferir, você pode acessar o site oficial ou simplesmente clicar AQUI.

 

The Proud Whopper

Sem querer fazer propaganda para a qual não fui pago, mas é preciso reconhecer que boas estratégias de marketing fazem a diferença. É o caso do Burger King, que durante a parada Gay de São Francisco (uma das mais sérias e importantes do mundo e também onde ocorreu a primeira parada da história) produziu uma série especial de Whoppers, o sanduíche mais tradicional da casa.

Os clientes que entravam nas lojas e que pediam o Whopper mais conhecido recebiam uma sugestão: tentar o The Proud Whopper (Whopper do Orgulho, em livre tradução). Quando os clientes perguntavam a diferença, os funcionários diziam: “não sabemos, acho que você teria que descobrir”.

É aí que entra a beleza da história: quem aceitou experimentar o novo sanduíche na expectativa de identificar as diferenças entre os hambúrgueres, percebeu que a única distinção era o papel que os envolvia. Porém, no caso do The Proud Whopper, havia uma mensagem: “nós somos todos iguais por dentro”.

Mensagem dada e, cá entre nós, o Burger King conseguiu fidelizar mais um cliente. Quem estiver com o inglês afiado e quiser conferir as reações, basta soltar o play no vídeo acima. Bom apetite!

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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