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Ágora Digital

Liberdade para quem?

De Moraes a estudantes pró-Palestina, trumpismo ataca desafetos e opositores

Publicado em 29/05/2025 2:10 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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A ofensiva da extrema direita norte-americana contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, marca um novo patamar na guerra cultural promovida por forças antidemocráticas internacionais. O fato de lideranças trumpistas e setores ligados às big techs estarem atuando para intimidar uma autoridade de outro país — cujo “crime” é combater a desinformação e os ataques ao sistema democrático brasileiro — revela o caráter transnacional de uma nova política repressiva. Não se trata mais de disputas internas. Estamos diante de um projeto autoritário globalizado, que elegeu a liberdade de expressão como inimiga e o Estado de Direito como obstáculo.

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O caso Moraes é emblemático não apenas pela gravidade do que representa em termos de soberania nacional, mas pelo que denuncia sobre a nova morfologia do poder autoritário no século XXI. Tal como na primeira metade do século passado, quando as polícias políticas da Alemanha nazista (Gestapo), da Itália fascista (OVRA) e da União Soviética estalinista (NKVD) perseguiam opositores sob o pretexto de proteger a ordem, hoje vemos emergir novas formas de repressão ideológica, desta vez operando sob as vestes da legalidade formal e sob a retórica da liberdade individual.

Nos Estados Unidos, o governo Trump transformou o aparato estatal em instrumento de perseguição, desmantelou instituições públicas de mídia, atacou universidades, ameaçou estudantes estrangeiros e utilizou agências federais para intimidar opositores. A perseguição burocrática a jornalistas, acadêmicos e ativistas não é erro de percurso, mas método de governo. A estratégia é clara: sufocar toda forma de dissenso sob a aparência da ordem legal. Como advertiu o historiador Henry Giroux, “em regimes autoritários emergentes, o autoritarismo não chega apenas com tanques nas ruas, mas com leis perversas, políticas públicas manipuladas e ataques sistemáticos à educação crítica e à imprensa livre” (GIRIOUX, The Violence of Organized Forgetting, 2014).

Essa cartilha foi aplicada de forma implacável no trumpismo. Um exemplo eloquente é o corte de verbas para a NPR e a PBS, duas emissoras públicas com reputação internacional de jornalismo equilibrado e compromisso com o interesse público. O corte, longe de ser apenas uma medida fiscal, foi uma retaliação política. O governo usou o orçamento federal como punição ideológica, minando deliberadamente a diversidade de vozes no espaço público. Como apontou a pesquisadora Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism da Universidade Columbia, “governos autoritários não precisam fechar jornais para controlar a imprensa — basta matá-los de inanição”.

Paralelamente, Trump e seus aliados passaram a instrumentalizar o sistema migratório para perseguir estudantes estrangeiros engajados politicamente. Em especial, jovens que participavam de manifestações em defesa da causa palestina ou contra a violência policial foram alvos de ameaças de deportação. Tal como na Alemanha dos anos 1930, quando o regime nazista começou a expulsar professores judeus das universidades, os EUA sob Trump passaram a usar a presença estrangeira como critério ideológico. A lógica é perversa: quem discorda, não pertence. Quem questiona, deve ser expulso.

A universidade, espaço por excelência do pensamento crítico e da liberdade intelectual, tornou-se alvo prioritário. Harvard, entre outras, foi ameaçada de perder financiamento federal caso não se “alinhasse” ao espírito do governo. Ora, qualquer semelhança com regimes que tentaram transformar a academia em extensão do Estado não é coincidência. Estamos diante de uma tentativa deliberada de sufocar a autonomia do saber, uma marca de todo projeto autoritário — do macarthismo à Revolução Cultural de Mao.

Essas ações foram acompanhadas de ataques sistemáticos à imprensa. A retórica de Trump chamando jornalistas de “inimigos do povo” não é apenas discurso inflamatório — é estratégia política. Como mostrou a historiadora Ruth Ben-Ghiat, especialista em regimes autoritários, “os autocratas modernos aprendem com o passado: sabem que o controle da narrativa é essencial para consolidar o poder” (BEN-GHIAT, Strongmen: Mussolini to the Present, 2020). Ao minar a credibilidade da mídia independente, cria-se uma realidade paralela onde só a palavra do líder tem valor.

No campo internacional, o desmonte da Voice of America revela o desprezo do trumpismo pelos valores democráticos que os EUA historicamente, ao menos em discurso, buscavam defender. Ao enfraquecer essa emissora, que desde a Guerra Fria atuava como ponte de diálogo com sociedades fechadas, Trump abriu espaço para que a desinformação promovida por regimes como os da Rússia, da China ou da Hungria preencha o vácuo. O resultado é um mundo mais opaco, mais polarizado e menos democrático.

Ao usar o Departamento de Justiça (DOJ), o ICE e outras agências como braços de sua política pessoal, Trump corroeu os limites institucionais que separam governo de Estado. A perseguição a ex-funcionários, como James Comey, ex-diretor do FBI, mostra como a lógica do “quem não está comigo, está contra mim” foi aplicada com frieza. O Estado deixou de ser uma estrutura impessoal para tornar-se extensão do ego presidencial.

Essa transformação do aparato estatal em arma política é um dos sinais mais preocupantes do que o cientista político Steven Levitsky, de Harvard, chama de “autocratização furtiva”: quando a erosão democrática acontece gradualmente, sem golpes de Estado explícitos, mas por meio da captura das instituições (LEVITSKY & ZIBLATT, How Democracies Die, 2018). O trumpismo representa exatamente isso — uma tentativa de subverter a democracia de dentro, utilizando os próprios instrumentos da legalidade.

E essa lógica não conhece fronteiras. O caso de Alexandre de Moraes é só um sintoma de um fenômeno mais amplo: a articulação de redes autoritárias transnacionais, que usam a tecnologia, o poder financeiro e as alianças políticas para minar a resistência democrática em diferentes países. Assim como na década de 1930, quando o fascismo se espalhou pela Europa como resposta à crise do liberalismo, hoje vemos o autoritarismo digital ganhar força como resposta à crise do neoliberalismo global.

Há, no entanto, uma diferença essencial entre os anos 1930 e o presente: hoje, temos o benefício da memória histórica. Sabemos onde o silêncio diante da censura leva. Sabemos o custo de normalizar o discurso de ódio, o negacionismo, a violência simbólica e a perseguição política. Por isso, a defesa da liberdade de expressão, da imprensa crítica, da universidade autônoma e do espaço público plural não é tarefa da esquerda, da direita ou do centro. É tarefa da civilização democrática.

Como lembrou Umberto Eco, em seu célebre ensaio O Fascismo Eterno (1995), o fascismo não retorna com fardas e desfiles, mas com linguagens banais, com apelos morais distorcidos e com promessas de segurança. “Nosso dever é denunciá-lo quando ainda é apenas uma sombra”, advertiu. A sombra já está entre nós — nas universidades ameaçadas, nas redações intimidadas, nos estudantes silenciados, nos ministros investigados por defender a Constituição.

Resistir a essa sombra é mais do que um imperativo político. É um compromisso ético com as gerações futuras. É dizer, com todas as letras, que a democracia não será desmontada em silêncio.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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