19/07/2024 - Edição 550

True Colors

Juventude cruel

Publicado em 30/05/2014 12:00 - Guilherme Cavalcante

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Uma noite de quinta e tudo o que eu queria era sair do meu casulo e ver como anda o mundo. Tentei articular com minha “turma” uma saída com o único objetivo de conversar amenidades, mas o fim do mês se torna cada vez mais perceptível quando deixamos de contar com aquela ajuda parental que desaparece com o passar dos anos. Uma alma bondosa resolveu me acompanhar. Era fato: naquele dia, eu iria sair!

Eu me preparei bastante. Primeiro, tirei um cochilo das 18h às 22h para aguentar o tranco de uma balada que, segundo me informaram, começava à meia noite. E depois de escolher uma roupa confortável para o frio que está fazendo em Campo Grande, tranquei a porta do apartamento e entrei no meu carro. Cinco minutos depois estava na casa do meu amigo e tive que acordá-lo, mas não sem antes pensar que ele havia “infartado”, só por não atender o telefone, a porta ou responder minhas mensagens. Juntos, fomos a um clube que atualmente ocupa o prédio de um antigo inferninho da cidade. A promessa é que escutaríamos um rock maneiro com gente bacana que resolve sair de casa e enfrentar o frio no meio da semana. Eu precisava ver se esta boa vontade ainda existia.

Ao chegarmos, adorei terem pedido meu RG. Foi mais legal ainda ver que a juventude de hoje em dia, e nesse caso me refiro a meninos de 19 a 23 anos, é muito mais gentil que há 10 anos, quando eu costumava frequentar esses lugares. Bem diferente do que eu encontrava em 2004 – um ano libertador, no qual eu e meus melhores amigos nos sentíamos no topo do mundo. E aparentemente eu saí de casa tentando buscar aquela mesma sensação de que o tempo não importava.

Apesar de assustado com as gentilezas, gente que esbarra em você e que se vira para pedir desculpas, alguma coisa cheirava mal – e não era o banheiro. Um copo de catuaba (<3) foi o suficiente para me fazer querer sentar um pouco. Por mais que as campanhas e o cerco contra o tabagismo sejam muito, mas muito mais coercitivas que na minha época, o “curral” de fumantes (uma área cercada na calçada do clube) estava lotada e havia fila para entrar e sair. E eu não conhecia as músicas que tocaram boa parte da noite.

Agora sou moço, o que significa que a minha presença, meus risquinhos no rosto e a minha barba cerrada já impõem algum respeito e são o suficiente para me diferenciar da maioria das pessoas que se apertavam naquele recinto.

O maior choque, no entanto, foi nesta área externa. Enquanto eu ficava constrangido por acender um cigarro que custa a minha saúde e minha vida social, os meninos que fumavam viam em cada tragada um sopro de liberdade, uma espécie de James Dean meets Marilyn Monroe na sacada do Chelsea Hotel em NY, algo que nunca aconteceu e que jamais acontecerá. E sem querer julgá-los, eu os julguei, como se uma versão mais velha minha censurasse meus hábitos do passado (e que persistem até hoje).

Um rapaz se virou pra mim e disse. “MOÇO, me arranja um cigarro”? Pausa dramática. Entreguei o cigarro e o isqueiro enquanto digeria a informação. É, eu virei um moço. Deixei de ser um “amigo”, um “gato”, um “baby” ou até mesmo o maravilhoso “darling”. Mas, não… Agora sou moço, o que significa que a minha presença, meus risquinhos no rosto e a minha barba cerrada já impõem algum respeito e são o suficiente para me diferenciar da maioria das pessoas que se apertavam naquele recinto. “Moço”, eu sei bem, é a palavra que eles usam para se referir a alguém que não é dos mais velhos, mas que indiscutivelmente é bem mais velho que eles. O próximo passo, claro, será ser o “tio”.

Fiquei tão desorientado com esse choque de realidade que senti vontade de ir embora. Mas em respeito ao meu amigo que tirei da cama para me acompanhar, resolvi ficar mais um pouco. E, desta vez, tomar uma água. Na pista, o DJ tocou a música que eu pedi (Boys and Girls – Blur), que é da década de 1990. E na sequência, vários sucessos dos anos 80 começaram a surgir, como Like a Virgin, Girls Just Wanna Have Fun e Dancing With Myself. E como mágica aquela sensação de juventude tomou meu corpo, mesmo que só eu e meus amigos estivéssemos dançando na pista enquanto os outros seguiam de braços cruzados, balançando o pé e ostentando um copo de vodka na mão. Mesmo que sozinho, viajei no tempo e já não me sentia um peixe fora d’água. Por alguns instantes, eu me libertei daquela sensação de não-pertencimento.

Naquela noite, numa despretensiosa baladinha indie e hétero friendly, pela primeira vez tive alguma dimensão de que passei uma década em casa.

Durou pouco. Um dos meninos olhava em minha direção, até porque àquela altura eu já estava soltando a franga e sensualizava com o corpo de um amigo no mínimo constrangido com a minha, ãhn, digamos, indiscrição. E de repente mais olhares me atingiam, com uma mensagem muito clara: “moço, você não vai descolar nada aqui dançando desse jeito”. Pausa dramática. Risos. Decidi responder solenemente com um “daaarling, olha pra mim! Eu lá tenho cara de quem acha que vai encontrar o homem da minha vida numa buatchy?”. Ali era eu, rebelde como em juventude transviada, “dancing with myself” e “like nobody’s watching”. Não é isso ser jovem? Não, ali era só um desses “moços” fazendo o que “moços” fazem nas baladas a qual não pertencem.

Lição aprendida. Naquela noite, numa despretensiosa baladinha indie e hétero friendly, pela primeira vez tive alguma dimensão de que passei uma década em casa. Estou bem com isso (acho), mas a sensação de que acordei de um coma enquanto o mundo seguiu foi grande. A gente envelhece, todo mundo vai morrer um dia. Por que eu sai de casa achando que seria do mesmo jeito? Não acho que desperdicei meus anos de ouro, mas sinto algo estranho, definitivamente, por me perceber fora daquele universo e por aquilo simplesmente não ser mais tão interessante.

Este pequeno conflito com o qual me deparei me fez pensar que a juventude é, sim, severa com os que, aos poucos, a abandonam. Conheço gente de 50 e tantos anos que é absolutamente jovem, mas que é julgada por seu corpo não corresponder à mente. É estranho, porque a gente não tem como controlar esse envelhecimento. Até mesmo pra mim, que ainda tenho dois anos antes de me tornar balzaco, consigo perceber um pouco de crueldade nisso.

Eu não sei aonde eu quero chegar com este texto, mas com isso tudo, só uma coisa me vem a cabeça: em 2004 – o ano mágico ao qual já me referi -, disse para meu melhor amigo que nosso futuro é uma versão sexagenária de nós mesmo em algum asilo por aí – ele checando se minha glicose está alta e eu acordando na noite para saber se aquele silêncio em nosso quarto foi porque ele deixou de respirar ou se simplesmente mudou de posição e parou de roncar. Já os jovens, eles continuarão a dançar nas boates, a pedirem cigarros e a olharem torto para os “moços” que do nada decidem dançar músicas desconhecidas no meio da pista de dança.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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