22/04/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Igualdade interesseira

Publicado em 20/11/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Nesta última sexta foi dia da Consciência Negra, feriado no Rio de Janeiro. As praias lotaram, imagino, de forma mais ou menos democrática, com brancos e ricos tomando sol e negros pobres vendendo mate e biscoito Globo. Mas não estou aqui para apontar as hipocrisias. Me aposentei da função no dia em que inventaram a timeline do Facebook. Portanto, também não esperem meu texto sobre o cristianismo e o consumismo desenfreado nas festas natalinas. 

Mas eu quero falar de uma nova tendência na discussão sobre igualdades e preconceitos. Aparentemente, eu fui desconvidado para a luta por direitos iguais para todos. Muitas Ongs e grupos de movimentos sociais passaram a trabalhar com uma leitura obsessiva do conceito de protagonismo. Para estes grupos, homem branco (como eu) não tem que lutar contra preconceito. Essa é uma agenda que só é legítima para as vítimas de discriminação. Só mulher pode lutar contra machismo. Só negro pode lutar contra racismo. Eu, que nasci "do outro lado", não tenho que ter voz nessa briga. Por eles, tem uma coisa que o homem branco tem mais que o negro: tem mais que calar a boca. 

O raciocínio que sustenta essa posição é tortuoso e parte de diversas premissas ironicamente generalistas, mas pode ser resumido assim: agora que a luta por direitos iguais é "mainstream", quem tem que subir no palanque, quem tem que ter visibilidade é a vítima. Qualquer um que não seja vítima de preconceito e ouse se manifestar em seu lugar estaria tentando "roubar a luz" dos descriminados. É como se fosse uma tentativa de cantar de galo, de aparecer. Como se fosse mais uma violência disfarçada de empatia, de esmola ideológica. 

Quando eu exerço minha constitucional liberdade de expressão para lutar por uma sociedade mais justa e igualitária para todos, não estou interessado no seu holofote, caro ativista.

Dos (inúmeros) equívocos que nutrem esta leitura torta de protagonismo, o que mais me incomoda é a presunção de que meu interesse na luta contra o preconceito é uma espécie de caridade retórica. Que eu combato a discriminação contra minorias porque quero posar de bonzinho, quero ser reconhecido como "um cidadão de bem" pelos meus pares (se bem que, não é de hoje, cidadão de bem é eufemismo para fascista). Mas eu vou confessar meus motivos escusos. Não é caridade. É egocentrismo, mesmo. 

Cientificamente falando, uma sociedade sem discriminação e com justiça social é uma sociedade melhor, mais progressista, mais inovadora e harmônica. Pensando em números: num país hipotético onde mais de 50% da população é negra e o preconceito é coisa do passado, as possibilidades de inovação científica, econômica e tecnológica dobram. Hoje, quando só a minoria branca rica tem acesso à educação de qualidade, nosso desenvolvimento depende dos frutos dessa aristocracia branca, recessiva e perigosamente cosanguínea. 

Não é surpresa que o Brasil seja cada vez menos criativo e inovador. É uma consequência do nosso tradicional preconceito machista, medieval e covarde. Os últimos resquícios do Império lisboeta e dos anos de chumbo da caserna. 

Então, quando eu exerço minha constitucional liberdade de expressão para lutar por uma sociedade mais justa e igualitária para todos, não estou interessado no seu holofote, caro ativista, cara feminista. Não tenho qualquer interesse no protagonismo da sua história. Pelo contrário, quero que você seja protagonista de muitas outras. Não porque tenho pena de você. É porque é do meu interesse também.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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