24/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Graças a Deus por Maduro

Publicado em 04/08/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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No meio dos roteiristas, existe uma máxima: um herói só é tão formidável quanto seu vilão. Se Rocky Balboa começar o filme enfrentando um amador magricela e sem talento, não há porque torcer por ele. O vilão tem que ser ameaçador, para que a plateia seja sensibilizada pela a jornada de superação do herói. E, todos sabemos, a vida imita a arte.

Maduro é um desses ridículos tiranos que o Caetano (ou seria o Gil?) profetizava em Podres Poderes. Uma dessas sinas da América Católica. Volta e meia nos vemos nas mãos desses tipos de aparência folclórica e currículo de filme de terror. Mas lhe garanto que o venezuelano tem seus fãs no Brasil. Tenho a impressão que há uma parcela da população que acende velas no altar de Ayn Rand pedindo que sua santa padroeira preserve, dê forças e sede de sangue ao malacabado sucessor de Chavez.  E muitos desses devotos circulam pelos corredores do poder em Brasília.

Gente como nossas Sheherazades, nossos Maias, nossos Caiados. Uma galerinha do barulho do lado de lá do pato da Fiesp provavelmente estão entre os maiores apoiadores inconfessos de Maduro. E são inconfessos não por hipocrisia. Em alguns casos é um favoritismo até inconsciente.

Enquanto Maduro estiver massacrando seu povo, as reformas do Temer são desagradáveis, mas temos o pavor de que sempre pode ser pior. E esse é o papel do vilão na política.

Não há mais União Soviética, Fidel já está mais pra lá do que pra cá. As figuras nefastas que dominam o noticiário tem todas um pé no capitalismo de resultados, de Trump a Temer. É um alívio  para os cidadãos de bem poder contar com sua figura fanfarrona desfilando agressões anti-democráticas. Maduro é o vilão que a direita brasileira pediu a Deus. Próximo o suficiente para parecer ameaçador, mas distante o bastante para que tenhamos pouco contato com as nuances dos processos que o levaram ao poder. Claro, Maduro é herdeiro do Chavismo que só aconteceu por um contexto histórico que a elite venezuelana deixou de presente para o seu povo. Mas isso não vem ao caso. O importante é que Maduro está lá, pisoteando a democracia. Mais importante ainda, ele é de esquerda.

Graças a ele, os paneleiros podem apontar para a Venezuela como modelo de projeto da esquerda e dizer: se não acabarmos com Lula e Dilma e Cia, o Brasil será uma nova Venezuela.

Nossa esquerda radical sabe disso, mas ainda assim, dá cambalhotas para justificar as atitudes antidemocráticas do Sadam venezuelano, corroborando as teorias conspiratórias do adversário. Um caso claro de "é bandido, mas é parente", uma atitude tão passional quanto tola. E os liberais brasileiros salivam a cada defesa cheia de clichês. A luta continua.

Numa era em que o melhor que a direita consegue produzir são Dórias e Bolsonaros, Maduro caiu do céu. É o espantalho perfeito para assustar a classe média e demonizar qualquer forma de social democracia. E esse é o modus operandi da propaganda de direita: Conforme-se com a situação e tenha pavor das alternativas.

Enquanto Maduro estiver massacrando seu povo, as reformas do Temer são desagradáveis, mas temos o pavor de que sempre pode ser pior. E esse é o papel do vilão na política.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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