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Ágora Digital

Gestos importam e imagens moldam imaginários

Cruzes em chamas não iluminam a democracia, braços estendidos não carregam juramentos — apenas sombras

Publicado em 29/04/2025 2:19 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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É pelas imagens que os regimes se anunciam. Muito antes de se consolidarem por meio das leis, das armas ou das instituições, os autoritarismos se manifestam no plano simbólico: nos gestos, nos rituais, nas insígnias, nos enquadramentos dramáticos que transbordam significados. É por isso que não se deve relativizar uma cruz em chamas, muito menos um braço estendido diante dela. A democracia não é compatível com ambiguidade diante da violência simbólica — ainda mais quando essa violência vem de agentes do Estado.

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No dia 15 de abril, o 9º Batalhão de Ações Especiais da Polícia Militar de São Paulo (9º Baep) publicou em suas redes sociais um vídeo que, mesmo retirado do ar rapidamente, cumpriu seu papel: inscreveu-se no imaginário nacional como mais um episódio da estetização da violência institucional. Cruz em chamas, viaturas, música fúnebre, iluminação de tochas e velas e ao fundo dois policiais em gesto que remete, sem rodeios, à saudação nazista. A sequência não é casual. Ela é coreografada — pensada para impactar, para marcar, para perturbar. E conseguiu.

A justificativa do comandante do batalhão, tenente-coronel José Thomaz Costa Júnior, é reveladora não apenas por sua fragilidade, mas por sua tentativa de esconder o gesto atrás de um suposto ritual cristão, como se a fé pudesse servir de álibi para o grotesco. “Todos são 100% cristãos”, disse ele. Como se o cristianismo fosse, por definição, imune à violência simbólica — ignorando a história do uso da religião como justificativa para cruzadas, fogueiras e linchamentos. A cruz em chamas, por sua vez, remete diretamente aos atos da Ku Klux Klan, grupo supremacista branco fundado nos Estados Unidos no século XIX. Seus rituais noturnos com cruzes incendiadas eram encenações de terror, voltadas a subjugar negros, judeus, imigrantes e dissidentes.

A essa estética violenta, soma-se o gesto do braço estendido, tão característico dos regimes fascistas do século XX. É impossível ignorar o simbolismo, por mais que se tente esvaziá-lo com explicações frágeis. Hannah Arendt alertou para o perigo da “banalização do mal” — o processo pelo qual ações eticamente inaceitáveis se tornam aceitáveis, rotineiras, institucionalizadas. E o que testemunhamos no caso do 9º Baep é justamente esse processo em curso: um Estado que naturaliza posturas, gestos e discursos violentos, embalados numa estética de guerra.

Esse tipo de performance institucional não é um desvio isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de militarização da vida pública, que se fortaleceu no Brasil com a ascensão da extrema direita nos últimos anos. O governo Bolsonaro foi pródigo em usar símbolos ambíguos, gestos e encenações públicas que flertavam com o fascismo, o racismo e o autoritarismo — quase sempre sob o pretexto da tradição, da moral, da segurança ou da família.

Basta lembrar o caso de Roberto Alvim, então secretário especial da Cultura, que em 2020 gravou um vídeo com estética abertamente inspirada na propaganda nazista. Alvim reproduziu, com poucas alterações, um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, ao som de Richard Wagner — compositor símbolo do nacionalismo germânico. A mensagem era clara: a arte deveria ser nacionalista, heroica, moralista, ou “não seria nada”. O episódio causou enorme repercussão internacional, mas dentro do campo bolsonarista foi tratado como “exagero da imprensa”.

O mesmo padrão se repete com o gesto de “arma com as mãos”, tornado símbolo de campanha por Jair Bolsonaro, e com a marcha de tochas promovida por apoiadores do ex-presidente em Brasília, em 2020 — encenação visual inspirada diretamente nos supremacistas brancos de Charlottesville, nos EUA. A tática é conhecida: usar símbolos ambíguos, facilmente negáveis, mas com grande ressonância para grupos radicais. Trata-se de uma estratégia de comunicação política altamente sofisticada, que o filósofo Jason Stanley, autor de How Fascism Works, define como “autoritarismo performativo”.

É nesse contexto que se insere o caso emblemático de Filipe Martins, então assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, que em março de 2021, durante uma sessão no Senado Federal, fez discretamente com as mãos o gesto de “OK” — sinal que, desde meados da década de 2010, foi apropriado por grupos supremacistas brancos como símbolo codificado de “white power”. Martins estava estrategicamente posicionado atrás do presidente do Senado, visível para as câmeras. Questionado, alegou estar “ajustando o paletó”. A defesa soa familiar: negar o significado, deslocar a interpretação, desqualificar o debate. O caso gerou investigação do Ministério Público Federal e forte repercussão internacional. Mais uma vez, o gesto cumpriu sua função simbólica: acenar à base extremista e desestabilizar o espaço institucional com um sinal de radicalização silenciosa.

Essa é a lógica da ambiguidade calculada, um dispositivo comunicacional sofisticado, operado com especial maestria por figuras como Steve Bannon, estrategista de campanha de Donald Trump e ideólogo da nova extrema direita global. Bannon entende como poucos o poder das imagens, dos códigos visuais e das palavras ambíguas. Recorre constantemente a gestos, slogans e símbolos que evocam a “guerra cultural”, o “ocidente cristão” e a “defesa da civilização”. Em diversas ocasiões foi fotografado utilizando o mesmo gesto do “OK” ou a saudação nazista, entre outros acenos simbólicos que dialogam com a iconografia supremacista. Ainda que nunca assuma publicamente qualquer alinhamento com o neonazismo, Bannon opera na zona cinzenta — exatamente onde a linguagem é ambígua o suficiente para mobilizar os radicais e proteger os líderes de cobranças formais.

Esses acenos simbólicos funcionam como sinais de pertencimento e ativação da base ideológica. E ao contrário do que se poderia imaginar, são mais perigosos justamente porque não são explícitos. Como adverte Timothy Snyder, historiador e autor de Sobre a Tirania, “os regimes autoritários não precisam convencer a maioria — basta que desencorajem a resistência”.

A repetição dessas encenações simbólicas por instituições do Estado contribui para um processo de dessensibilização coletiva. Aos poucos, o intolerável passa a ser visto como “normal”, o autoritarismo como “eficiência”, a violência como “moralidade”. E o que está em jogo é mais do que a imagem de uma instituição: é o imaginário coletivo de uma nação.

Por isso, não há mais espaço para ingenuidade. A defesa da democracia exige nomear com clareza os signos do autoritarismo, por mais disfarçados que estejam. A simbologia fascista não pode ser tratada como “erro de comunicação” ou “excesso de zelo”. Gestos importam. Imagens moldam imaginários. E o silêncio diante delas é sempre um gesto político.

O Brasil já conheceu os efeitos da militarização da política e da estética do inimigo interno. A ditadura de 1964 ensinou, ao custo de prisões, torturas e desaparecimentos, que não há segurança sem cidadania, e não há cidadania sem pluralidade, liberdade e imprensa livre. Repetir símbolos de regimes fascistas é cuspir na memória das vítimas e zombar da Constituição.

Que fique claro: cruzes em chamas não iluminam a democracia. E braços estendidos não carregam juramentos — apenas sombras.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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