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Ágora Digital
Proposta de Armínio Fraga mostra o abismo entre os donos do poder e o homem comum
Publicado em 16/04/2025 12:19 - Victor Barone
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Armínio Fraga, aquele senhor do mercado que sempre aparece quando é hora de sugerir sacrifícios que ele próprio jamais fará, resolveu dar uma passadinha na Brazil Conference (também conhecida como “Fórum das Soluções Imaginárias pro Brasil que a elite acha que deveria existir”) e presentear a plateia com uma proposta mágica: congelar o aumento real do salário mínimo por seis anos. Isso mesmo. Seis. Anos. Como se estivéssemos num jogo de The Sims e os pobres fossem apenas avatares com menos pontos de carisma.
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Segundo Fraga, é tudo por um “ajuste fiscal virtuoso”, que, como todo bom milagre neoliberal, exige que os pobres jejuem enquanto os ricos fazem churrasco. A justificativa? Brasil estaria na UTI econômica. Spoiler: não está. Mas a elite adora essa analogia dramática porque, convenhamos, ela nunca pisou num hospital público de verdade.
A ideia de que congelar o mínimo seria uma saída técnica é fofa, no sentido mais cruel possível. O salário mínimo, para quem vive na cobertura do Leblon, talvez pareça uma abstração. Mas para os milhões de brasileiros que dependem disso para não literalmente morrer de fome, é tipo… importante. Radicais, eu sei.
E, claro, ninguém mencionou congelar os lucros dos bancos. Por algum motivo místico — talvez alinhamento dos astros, talvez o lobby no Congresso — essas fortunas escapam ilesas de qualquer plano de austeridade. Porque cortar auxílio a pobre é técnica. Cortar isenção a milionário é “ruptura do pacto federativo”. Ah, sim.
A proposta, no fundo, é simbólica. Ela grita, com todas as letras douradas de uma consultoria fiscal de luxo: os pobres atrapalham nosso modelo de país. São como pedregulhos no sapatênis do progresso.
Mas calma, o argumento fica ainda mais insano: segundo o discurso, não se trata de maldade, apenas de eficiência técnica. Porque nada é mais técnico do que deixar um idoso vivendo com R$ 1.412 por mês enquanto o arroz sobe 30% e o aluguel exige um segundo emprego.
A parte mais cômica — se não fosse distópica — é que ninguém eleito jamais teria coragem de colocar no plano de governo: “Vote em mim e eu congelarei o salário mínimo por seis anos! Agora com 20% menos dignidade!” E aí está o truque: vender como técnica o que é, na real, só ideologia gourmetizada com gráficos.
Não estamos diante de uma proposta econômica. Estamos diante de um bug moral. Um erro de caráter travestido de PowerPoint. Fraga, e quem o aplaude de pé enquanto toma café de cápsula em auditório climatizado, não está propondo uma solução. Está só reafirmando um velho dogma: os pobres devem se acostumar com menos, porque o conforto é um privilégio herdado, e não um direito conquistado.
Democracia, veja bem, exige algo inconveniente: participação popular. Debate. Empatia. E, aparentemente, isso atrapalha o modelo de governança tipo planilha, onde seres humanos são apenas linhas que geram despesa.
O salário mínimo, nesse cenário, é o vilão. Nunca o rentismo, nunca os R$ 600 bilhões em isenções fiscais distribuídas como brindes em festa corporativa. Nunca a elite que só se mobiliza quando o jatinho atrasa.
Se o Brasil ainda sonha com justiça social, precisa acordar desse pesadelo tecnocrático. Precisa lembrar que ajuste fiscal não se faz arrancando o resto de carne do osso dos que mal sobrevivem. Faz-se cortando onde há gordura. E, Armínio: a gordura não está no feijão com arroz da dona Maria. Porque progresso de verdade não é esse conto distorcido onde banqueiros viram profetas e pobres são culpados por atrapalharem o gráfico. Progresso, mesmo, é garantir que todo mundo tenha o direito de viver — não só de sobreviver.
No fim das contas, propostas como a de Armínio Fraga não são apenas diagnósticos errados — são sintomas de uma doença mais profunda: o autoritarismo disfarçado de racionalidade econômica. A ideia de “ajuste” que mira sempre no andar de baixo revela uma elite que, no fundo, não quer um país melhor, mas sim um país mais fácil de controlar. Um país em que a desigualdade seja naturalizada como um dado técnico e não como uma tragédia social.
Como já dizia Bertolt Brecht, com a lucidez que falta em tantos quadros da Faria Lima: “Quando os de cima falam em paz, o povo sabe que é porque querem manter tudo como está.” E manter tudo como está, no Brasil, significa seguir congelando o futuro dos que nunca puderam sequer esquentar o presente.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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