22/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Caro futuro torturador

Publicado em 18/03/2016 12:00 - Redação Semana On

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Nós ainda não nos conhecemos. Imagino que o senhor ainda estava na escola quando eu comecei a falar de política na internet. Só que nenhum de nós chamaria o que eu faço de "falar de política". Eu acreditava que estava dando minha humilde opinião sobre o Brasil e o mundo. O senhor acha que eu sou apenas um subversivo de esquerda.

Na verdade, eu me considero um liberal. Sempre quis uma máquina estatal mais enxuta. Podiam ter privatizado a Petrobrás antes, muito antes. Para mim, governo tinha que cuidar de estrutura e de garantias individuais previstas na constituição. Mas não é o que está escrito na minha ficha na sua ordem de serviço, não é? Entendo.

Fico imaginando quanta gente foi… "interrogada" até meu nome aparecer na sua lista. Quanta gente sumiu do mapa. Tudo bandido, claro. Porque, se defende ladrão é bandido. Se questiona quem prende, é bandido. Se pensa diferente, é bandido. Eu juro que nunca pensei que um dia seria eu no pau de arara. Não deve ter sobrado muita gente.

Eu confesso que estava errado em apostar numa sociedade que aprende com seus erros e convive com suas diferenças. Estava errado em acreditar que o futuro não repetiria o passado e que os traumas não seriam esquecidos jamais.

De qualquer forma, eu quero dizer que te entendo. Sei que o senhor também não esperava estar aqui. Só queria servir seu país. Imagino que, no começo da sua carreira, era só controle de multidão em protesto. Depois do primeiro confronto, do primeiro ovo na cara, depois que o primeiro coquetel explodiu bem do seu lado, o senhor partiu pra cima. Algumas balas de borracha e sprays de pimenta depois, o senhor foi promovido com bravura. Assim que reabriram esse departamento, seu nome foi um dos primeiros indicados. Parabéns. Seu pai deve estar muito orgulhoso. Não é todo dia que um filho é promovido por bravura.

Acredito que o senhor queira que eu confesse e dê os nomes. Eu confesso que estava errado em apostar numa sociedade que aprende com seus erros e convive com suas diferenças. Estava errado em acreditar que o futuro não repetiria o passado e que os traumas não seriam esquecidos jamais. No entanto, cá estamos.

Eu confesso. Eu sempre fui um crítico da radicalização. Também fui muito ingênuo, porque achava que era possível combatê-la com diálogo. Custaram-me alguns dentes e algumas costelas, mas o senhor provavelmente foi o professor mais eficaz que eu já tive. Desconstruiu em duas horas a visão de mundo construída em 30 anos. Deve ser por isso que seus superiores demonizam Paulo Freire. Pinochet rende muito mais.

Confissão assinada, chegamos à parte da delação, muito menos premiada, nesses dias soturnos. E talvez aqui tenhamos um impasse. Não tenho muita gente para sua lista, porque nunca fui muito sociável. Sempre gostei de ficar em casa com meus bichos e meus filmes. Meus subversivos favoritos já se foram. Não poderão mais ser "interrogados" pelo senhor e seu pau de arara.  

Eu sugiro que o senhor faça uma lista de pessoas que, um dia, usaram o poder para humilhá-lo e perseguí-lo. Como todo bom brasileiro, não devem faltar exemplos de gente que pisoteou sua cidadania. Já que vai haver uma lista, que ela seja verdadeiramente subversiva.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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