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Ágora Digital

Cale a boca, você não é o presidente, você precisar ir embora…

A infantilização do poder e o risco da democracia como brinquedo de gente rica

Publicado em 14/02/2025 12:08 - Victor Barone

Divulgação Foto: Jim WATSON / AFP

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A cena poderia ser uma anedota despretensiosa, um desses momentos de descontração que ocasionalmente escapam ao ambiente formal da política. No entanto, a imagem de Elon Musk, sem cargo oficial, anunciando uma política governamental crucial enquanto seu filho brincava ao redor e Donald Trump assistia passivamente, está longe de ser irrelevante. Pelo contrário, é um sintoma alarmante do que se tornou a política sob o domínio de populistas e bilionários que tratam o Estado como um playground pessoal.

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E se o governo se tornou um parquinho, o que dizer do momento em que o próprio filho de Musk disparou, diante de Trump: “Cale a boca, você não é o presidente, você precisa ir embora”? Crianças reproduzem o que ouvem em casa. O que esse episódio nos revela sobre as verdadeiras relações de poder na Casa Branca? Musk não apenas governa nos bastidores — ele parece confortável o suficiente para que até mesmo seu filho verbalize aquilo que seria impensável em qualquer governo tradicional. A cena não foi apenas inusitada; foi simbólica. Ela evidenciou, em poucos segundos, uma verdade que a administração Trump tenta disfarçar: o bilionário sul-africano não é um mero conselheiro, mas um dos verdadeiros operadores do governo. O ex-presidente, por sua vez, cada vez mais se comporta como um espectador da própria gestão.

O governo Trump não disfarça sua intenção de desmontar as estruturas institucionais dos Estados Unidos. A proposta de cortes massivos no funcionalismo público, conduzida por Musk, não é apenas uma questão de eficiência burocrática, mas um ataque direto ao serviço público profissional, um pilar essencial do funcionamento democrático. O fato de um empresário bilionário — e não um representante eleito ou um secretário oficial — estar à frente desse processo já é um escândalo por si só.

Mais do que isso, o tom infantil e improvisado do evento no Salão Oval escancara uma característica central dos movimentos políticos de extrema-direita contemporâneos: o desprezo pelas instituições. A democracia, como alertava Hannah Arendt, não é destruída apenas por golpes militares ou tanques na rua, mas pelo desmantelamento gradual de seus alicerces administrativos e normativos. “O maior inimigo da autoridade”, escreveu Arendt em Entre o Passado e o Futuro, “é o desprezo, e a maneira mais segura de miná-la é ridicularizá-la.” Foi exatamente isso que aconteceu nesse episódio.

A política de demissões em massa está diretamente ligada ao chamado “Projeto 2025”, elaborado pela Heritage Foundation, um dos think tanks ultraconservadores mais influentes dos EUA. A agenda prevê um desmonte sistemático das garantias democráticas, incluindo o fortalecimento do poder presidencial sobre o Judiciário e o Congresso, a substituição do funcionalismo público por leais ideológicos e a reestruturação de políticas sociais e migratórias em moldes autoritários.

A ideia de substituir profissionais técnicos e independentes por aliados políticos não é nova. Viktor Orbán, na Hungria, usou exatamente essa estratégia para consolidar seu poder, aparelhando o Estado de maneira que qualquer tentativa de oposição política se tornasse quase inviável. O mesmo modelo foi aplicado por Jair Bolsonaro no Brasil, com tentativas de interferência direta em órgãos de controle, como a Polícia Federal e a Receita Federal, e ataques sistemáticos às universidades e à imprensa.

Nos Estados Unidos, a aceleração desse projeto sob Trump e Musk leva a um cenário onde as decisões do governo passam a ser controladas por uma elite econômica que não deve satisfações a ninguém. A privatização da administração pública, travestida de “eficiência”, nada mais é do que um golpe contra a democracia representativa. A pergunta que se impõe é: a quem esses bilionários servem, senão a si mesmos?

O caso da USAID é emblemático. O fechamento abrupto da agência sem consulta ao Congresso representa uma ruptura séria na relação entre Executivo e Legislativo. Não é apenas uma decisão política controversa — é um sintoma de algo maior. Governar por decretos e comitês paralelos liderados por empresários sem cargo oficial significa minar o próprio princípio da accountability, o mecanismo essencial da democracia liberal que impede abusos de poder.

O controle de Musk sobre informações sigilosas do Tesouro levanta ainda mais preocupações. Se um único indivíduo, sem qualquer mandato popular, pode acessar dados financeiros e fiscais da população, o que impede que esses dados sejam utilizados para fins políticos ou comerciais? E mais: qual é a garantia de que essa concentração de poder não será usada para perseguir opositores?

A privatização do governo, tão defendida pela direita neoliberal, não se trata apenas de cortar gastos e tornar a administração mais “eficiente”. Na prática, significa colocar o Estado a serviço de uma elite econômica que não responde à sociedade e que governa com um desprezo absoluto pelas regras do jogo democrático.

A Infantilização do Poder e a Construção do Caos

A imagem de Musk e seu filho transformando o Salão Oval em um parquinho não deve ser lida como uma mera excentricidade, mas como um retrato do que está acontecendo com a política no século XXI. O populismo de extrema-direita não precisa de tanques nas ruas ou de golpes clássicos. Ele avança pelo caos, pelo desprezo às normas, pela desmoralização das instituições e pela substituição da racionalidade política por um espetáculo grotesco.

O desprezo pela liturgia do cargo, pela seriedade das decisões políticas e pela estabilidade institucional cria uma sensação de desordem permanente. Isso serve a um propósito claro: normalizar o abuso de poder. Se o governo é uma brincadeira e os bilionários fazem o que querem, então por que se importar com regras, leis e processos? Essa erosão da seriedade do governo mina qualquer tentativa de resistência institucional.

A filósofa Nancy Fraser argumenta que o neoliberalismo e o populismo autoritário caminham juntos porque ambos compartilham o mesmo inimigo: o Estado democrático regulador. O neoliberalismo quer desmontá-lo para liberar os mercados, enquanto o populismo autoritário quer capturá-lo para consolidar o poder. O resultado? Um governo que pertence a uma elite econômica, mas que se apresenta como defensor do “povo” — um paradoxo que só é possível porque as regras são constantemente distorcidas.

O grande perigo do trumpismo, em sua nova versão, não é apenas seu autoritarismo, mas sua capacidade de se reinventar como um espetáculo caótico, no qual bilionários e oportunistas fazem o que querem enquanto a democracia se dissolve no entretenimento de redes sociais. A infantilização do poder, a ridicularização da política e a desmoralização das instituições não são acidentes de percurso — são estratégias deliberadas.

A questão, agora, é até onde esse processo pode avançar antes que as consequências sejam irreversíveis. A história nos ensina que democracias não morrem de um dia para o outro. Elas são corroídas lentamente, muitas vezes sob aplausos daqueles que acreditam que estão apenas “modernizando” o sistema.

Se o episódio de Musk na Casa Branca nos ensina algo, é que estamos em um momento decisivo. A democracia não pode ser um brinquedo nas mãos de bilionários e populistas. Se os Estados Unidos — e o mundo — não reagirem a tempo, pode ser tarde demais para impedir que esse playground de poder se transforme em uma distopia irreversível.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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