21/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

As razões da freguesia

Publicado em 05/06/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Um dos problemas das religiões organizadas é o produto. Não dá pra mostrar foto da colônia de férias do além-morte. Então, como atrair a freguesia? Historicamente, alguns cleros costumam apelar para sentimentos primitivos: medo, culpa, cobiça. Se você assinar na linha pontilhada, terá proteção, será perdoado e fartas riquezas na outra vida.

Mas o mercado evolui com os tempos. Riqueza na outra vida – para a vida sem folder com fotos – é uma venda difícil. Surge o conceito da prosperidade imediata. Quem assinar na linha pontilhada estará protegido, perdoado  e próspero aqui mesmo. Pode acreditar.

E como o freguês percebe que já está recebendo seu produto? É preciso comparar a vida de salvos e pecadores e sentir arrepio só de pensar em pular a cerca. Por isso algumas religiões demonizam os adeptos de outros estilos de vida. Tem que parecer muito pior estar do lado de lá.

Na cabeça desse freguês, a vida do homossexual, por exemplo, é uma vida de vícios, doenças, promiscuidade e marginalidade social. Gays têm mortes trágicas e solitárias, seguidas por uma eternidade de torturas num submundo ainda pior do que o atual. Gays são vítimas de uma doença contagiosa que passa só de olhar. E se o seu filho ver dois gays, achar bonito e virar gay? E pior: se ele achar que não tem problema ser gay só porque viu gente sendo gay na TV ou na rua? Que mãe quer ver seu filho vítima de chacota, apanhando na rua, queimando no inferno? Num círculo vicioso dantesco, os fregueses de algumas igrejas discriminam gays porque têm medo de o homossexualismo faça de seus filhos vítimas de discriminação.

De dentro de sua comunidade insular, o freguês vê toda forma alternativa de felicidade como uma afronta pessoal. Mesmo uma singela troca de perfumes num abraço enamorado.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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