12/04/2024 - Edição 540

True Colors

Aos fãs que não entendem a banda que curtem

Publicado em 25/09/2015 12:00 - Guilherme Cavalcante

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O Facebook é uma forma interessantíssima de observar como funciona a mente humana. Esses dias estava eu navegando pelo site quando vi um comentário negativo sobre o show do Queen no Rock in Rio, tudo porque o vocalista convidado, Adam Lambert, não estava a altura do original, Freddie Mercury.

Pensei que era apenas "opinião de fã", porque até faz sentido para quem, sei lá, já foi a um maravilhoso show do Queen e mal sabe quem é o novato que cantava trajando de plumas e paetês. Mas seguindo pela linha do tempo, vi uma postagem de um amigo, em seus 40 e poucos anos, heterossexual, contestando a apresentação num outro tom: "esse rapaz é muito gay, acabou com a banda".

Risos, né?

O absurdo na frase do meu amigo é tanto que fui pensar sobre o assunto. Pensar, mesmo. De forma sistemática. Procurar vídeos, notícias, assistir a performances e tudo mais que envolvesse Queen, Freddie Mercury e Adam Lambert. E que surpresa desagradável constatar que metade das críticas à "nova formação" reclama da pinta que Lambert solta no palco e que isso distanciava o novo Queen de sua versão antiga, por mais que as músicas, acordes, arranjos e tudo mais se mantivesse como no original.

Pra mim, após meia hora no Google, ficou claro que o Queen jamais foi uma banda de machão. Até eu que não sou exatamente um fã da banda sei que Freddie Mercury era uma bichona e que "o" Queen estava mais para "a" Queen. Então, criticar Lambert é nada menos que sintomático.

Por incrível que pareça, está sendo um absurdo um gay assumidéeeeerrimo, estar ocupando o espaço de Freddie, outra bicha meio enrustida que usava colant e soltava pinta pelos cotovelos. Detalhe: li que antes de Lambert, chegaram a cogitar George Michel para conduzir a banda. Quer dizer…

Foi então que entendi que as pessoas sempre recorrem ao caminho mais fácil – no caso, à homofobia – para expressar a própria frustração. Mercury morreu nos anos 90, e isso não tem jeito, amores… Quem queria manter a lembrança do último show no Brasil não devia ter saído de casa para assistir ao Queen no Rock in Rio. E ponto.

Até porque o show a que assisti na TV foi fenomenal, com vocais conduzidos com MUITO respeito por Adam Lambert, que interagia de forma muito gentil com o público, sempre deixando claro que era um privilégio pisar naquele palco com aqueles músicos.

Lambert, a propósito, foi um nome excelente. O cantor segue na tendência do fazer musical da atualidade. É antenado, ativista queer, exímio cantor, tem um dos rostos mais belos do showbiz e, acima de tudo, sabe se comunicar com a audiência. Lambert fala a língua dos jovens e tem o que é preciso para levar ao público de 15 a 20 anos o nome de uma banda possivelmente desconhecida para este segmento.

Mas tudo bem, estamos acostumados com esse argumento de que tudo que foge à norma ser ruim. Dizer que o Queen "enviadou" por causa de um cantor que usufrui de uma liberdade que Freddie Mercury jamais experimentou é super lugar-comum, clichê, coisa dita da boca pra fora. Mas fica aqui uma dica: seria legal que, antes de vomitar preconceito infundado e crítica superficial, fizéssemos aqueles exercícios de imaginação, também popularmente conhecidos como "pensar".

Afinal, quem não gostaria de saber como seria a banda Queen se os integrantes estivessem sessentões, firmes, fortes, vivos e juntos, fazendo banquinho e violão mundo à fora. Seria a mesma coisa? O que mudaria?

E se a banda surgisse hoje, com os mesmos participantes (claro, todos jovens), teriam eles a mesma estética? Fariam o mesmo sucesso? Haveria armário que comportasse a pinta de Freddie? Quem seriam os fãs de carteirinha (daqueles que acampam na fila do estádio três dias antes do show)?

E agora a parte mais difícil (ou mais fácil, sei lá): como seria a cena musical da atualidade se o Queen jamais tivesse existido?

Colher de chá: Lady Gaga seria apenas Stefanny Germanotta, já que seu codinome vem de "Radio Gaga". O próprio Lambert, que no American Idol (programa que o revelou) já anunciou o Queen como uma de suas referências, talvez fosse um pouquinho mais contido. E talvez nas ruas, talvez estivéssemos uns dez anos atrás na luta pelos direitos gays. Não que a banda tenha sido o bastião do movimento LGBT, mas certamente foi uma das referência nos anos 80/90.

Aliás, o Queen pode não ter sido uma banda assumidamente queer, ou até mesmo propositalmente queer. Mas foi um dos empurrões que permitiu que as bees de hoje em dia possam sair fabulosa por aí, batendo cabelo e cantando bem alto "I want do break free".

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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