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Agromundo
Como o avanço do algodão contamina terras indígenas no coração do Brasil
Publicado em 26/05/2025 12:10 - Sérgio Pedra
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A cada ano, o campo brasileiro se torna palco de uma guerra silenciosa. Não são balas, mas venenos que atingem corpos e terras. Segundo o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais de 17 mil famílias foram intoxicadas por agrotóxicos em 2023. Por trás dos números, uma realidade marcada por conflitos fundiários, desigualdade social e um modelo de produção agrícola intensivo que tem na pulverização aérea e no descontrole regulatório seus principais aliados.
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O uso de agrotóxicos como arma em disputas territoriais é uma denúncia recorrente entre organizações populares. Para Alan Tygel, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, trata-se de uma estratégia de intimidação e expulsão: “Parte da nossa luta é manter essa mobilização e fazer essas denúncias chegarem, fazer essa pressão”, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato, durante a 5ª Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada em São Paulo.
A denúncia, no entanto, ainda é um privilégio. A burocracia, a falta de informação e a omissão do poder público criam um ciclo de invisibilidade e impunidade. A ficha de notificação de intoxicação exógena — que pode ser preenchida em qualquer unidade do Sistema Único de Saúde (SUS) — muitas vezes nem chega ao conhecimento das vítimas. Mesmo quando há suspeita, o registro é um direito. Esses dados devem alimentar o Sistema Nacional de Agravos de Notificação Compulsória (Sinan), que tem como função investigar os casos. Na prática, contudo, o sistema sofre com a subnotificação crônica e a ausência de investigações aprofundadas.
No âmbito judicial, o caminho também é árduo. As denúncias podem ser feitas ao Ministério Público, à polícia ambiental ou às delegacias civis, mas exigem provas como vídeos, fotografias, registros médicos e testemunhos. A Campanha Contra os Agrotóxicos oferece em seu site um guia detalhado para orientar vítimas e apoiadores no processo de denúncia.
O caso da comunidade Araçá, no município de Buriti (MA), escancara a urgência da mobilização. Em 2021, uma plantação vizinha lançou veneno sobre o território tradicional, e uma criança foi gravemente ferida — sua pele chegou a “derreter”, segundo testemunhas. “Ali vimos o que os agrotóxicos podem fazer com um corpo humano”, relata Linalva Cunha, da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama). O episódio transformou a atuação da rede: além de promover agroecologia, ela passou a formar moradores para denunciar, realizar estudos ambientais e lutar por mudanças legislativas. “Sabíamos que era preciso combater outras temáticas que agridem a perpetuação dos povos, uma delas é o agrotóxico”, afirmou Cunha.
Essa resistência local reflete uma movimentação global. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A cada ano, toneladas de substâncias proibidas na União Europeia continuam sendo pulverizadas em território brasileiro, muitas vezes próximas a escolas, rios e comunidades indígenas ou quilombolas. Em 2022, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) alertou para a contaminação de 1 em cada 4 brasileiros por agrotóxicos presentes na água potável — um dado que revela a extensão do problema para além das zonas rurais.
Para a professora Larissa Bombardi, geógrafa da USP e autora do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” (2017), essa realidade é expressão de um projeto político e econômico. “O Brasil é um caso emblemático do uso massivo de agrotóxicos, autorizado por um Estado que privilegia o agronegócio em detrimento da saúde pública”, afirma Bombardi. A pesquisadora teve que deixar o país temporariamente após ameaças sofridas por suas publicações acadêmicas.
Enquanto isso, comunidades afetadas continuam organizando formas próprias de resistência. A articulação entre redes de agroecologia, movimentos sociais e pesquisadores tem sido fundamental para romper o silêncio imposto pelos interesses do agronegócio e do Estado. “Queremos que o Brasil compreenda que a luta contra os agrotóxicos é um problema do mundo”, resume Linalva Cunha. “A crise climática e todas essas questões que temos enfrentado mexem com a nossa capacidade de produzir e se reproduzir no chão que pisamos.”
Veneno sob o algodão
Se os dados nacionais já apontam uma tragédia silenciosa espalhada pelos campos do Brasil, é no coração do cerrado mato-grossense que essa crise atinge uma de suas expressões mais brutais. Lá, onde o algodão floresce como uma das principais commodities do país, o que também germina — muitas vezes invisivelmente — é a contaminação de corpos, águas e territórios indígenas. Os relatos que emergem de regiões como Sapezal escancaram como o uso intensivo de agrotóxicos, em nome da produtividade e da exportação, perpetua um ciclo de violência ambiental e social que afeta diretamente modos de vida tradicionais e revela as contradições da chamada agricultura “moderna”.
Na Bacia do Juruena, norte do Mato Grosso, o que já foi terra de águas limpas e biodiversidade farta se tornou território sob ataque químico. Aldeias indígenas do município de Sapezal relatam aumento de abortos espontâneos, sumiço de abelhas, peixes mortos e águas impróprias para o consumo humano. As denúncias se intensificaram nos últimos anos com o avanço das lavouras de algodão ao redor da Terra Indígena Tirecatinga, onde vivem nove povos originários.
“A gente deixou de tomar água do rio e passou a comprar da cidade, por medo de beber água envenenada”, conta Cleide Terena, presidente da associação de mulheres da TI Tirecatinga. Ela vive há 42 anos na aldeia Serra Azul e testemunha diariamente os aviões pulverizando agrotóxicos sobre os campos que substituíram as florestas. “Antes, quando a gente passava, tinha árvores. Hoje está tudo derrubado, e só tem plantio.”
O algodão é hoje a segunda cultura que mais consome agrotóxicos por hectare no Brasil, atrás apenas do tabaco. O uso intensivo se justifica, em parte, pela suscetibilidade da planta a pragas como o bicudo-do-algodoeiro, que vive um surto em 2024 — o pior em 12 anos no Mato Grosso. Em média, cada hectare de algodão consome 28 litros de agrotóxicos por ano, contra 17 litros na soja e 7 no milho.
Esses dados revelam um modelo de produção agressivo, voltado à exportação: o Brasil foi, em 2023, o maior exportador de algodão do mundo e o terceiro maior produtor global. Cerca de 70% da produção nacional segue para mercados como China, Vietnã, Bangladesh, Turquia e Paquistão, onde o algodão brasileiro vira tecido para o fast fashion e a alta costura.
Mas o preço pago no Brasil permanece invisível nas etiquetas. De acordo com a professora Marcia Montanari, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), “os agrotóxicos usados no algodão são potencialmente mais tóxicos à saúde e ao ambiente. E como são usados em grande volume e por pulverização aérea, os riscos à saúde das comunidades próximas aumentam consideravelmente”.
Um estudo conduzido pela UFMT e pela organização Operação Amazônia Nativa (Opan) revelou que o consumo per capita de agrotóxicos em Sapezal chega a 364 litros por habitante ao ano — e ultrapassa 600 litros em municípios vizinhos. A média nacional é de 7 litros por habitante.
A pesquisa encontrou resíduos de 11 agrotóxicos em plantas medicinais e frutas colhidas na TI Tirecatinga. Ainda mais alarmante foi a presença de 28 agrotóxicos em produtos de algodão, como fraldas, gazes, absorventes íntimos e coadores de café. Entre as substâncias, 17 são proibidas na União Europeia, e duas no Brasil: o carbofurano e o carbendazim, ambos associados a riscos de câncer, distúrbios neurológicos e má-formação fetal.
O impacto vai além da saúde. “A soberania alimentar e o modelo de sociedade do povo indígena são também afetados”, afirma a indigenista Adriana Werneck Regina, que há mais de três décadas acompanha os efeitos do agronegócio nas comunidades do Juruena. O desaparecimento de espécies, a contaminação de alimentos tradicionais e a interrupção de ciclos naturais, como a piracema, desestruturam práticas ancestrais e modos de vida inteiros.
Entre 2019 e 2024, o Ministério da Saúde registrou quase 1.500 intoxicações por agrotóxicos no estado de Mato Grosso, sendo 45% ligadas ao uso agrícola, e 3% à cultura do algodão. Especialistas, no entanto, alertam para a subnotificação. Segundo o procurador Gabriel Martins, do Ministério Público Federal (MPF-MT), a fiscalização é quase inexistente: “Vemos uma preocupação quase nula dos produtores e muito baixa da União, do governo estadual e dos municípios, que querem mais produção”.
Um mercado opaco
Na ponta do consumo, pouco se sabe sobre a origem do algodão usado em produtos têxteis. Para a estilista Yamê Reis, coordenadora de Design de Moda do Instituto Europeu de Design no Rio de Janeiro, a solução passa pela mudança de paradigma: “O algodão sustentável é aquele plantado sem uso de veneno e junto com alimentos, o que garante a segurança alimentar de quem planta algodão”.
Ela integra a campanha Moda Sem Veneno, que defende o fortalecimento da agroecologia e políticas públicas que incentivem pequenos produtores. O modelo agroecológico preconiza o uso de fertilizantes orgânicos, o fim dos pesticidas e a diversificação de culturas. “Existe uma ideia de que a agricultura familiar é pequena e não pode ser feita em larga escala, mas isso não é verdade”, complementa Larissa Roviezzo, consultora em sustentabilidade.
No plano internacional, 82% do algodão brasileiro é certificado pela Better Cotton Initiative (BCI), que utiliza como base o selo Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa). A metodologia, no entanto, enfrenta críticas. Segundo a Earthsight, organização internacional de investigação, algodão certificado pela BCI foi vinculado a abusos ambientais e fundiários na Bahia, em 2023.
A BCI reconhece que a certificação não implica sustentabilidade plena, e permite, desde 2023, que produtores solicitem autorização para uso de pesticidas altamente tóxicos por até três anos, na ausência de alternativas viáveis — desde que apresentem plano para descontinuação. A organização afirma que atua com base em autodeclarações e dados fornecidos pelos próprios produtores.
A Abrapa, por sua vez, garante que fazendas certificadas passam por auditorias independentes e iniciou projeto-piloto para rastrear a cadeia produtiva com QR Code. A transparência, no entanto, ainda está longe de alcançar as prateleiras.
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SÉRGIO PEDRA
É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.
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