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Agromundo
Crise sanitária revela vulnerabilidades do modelo exportador intensivo
Publicado em 16/05/2025 3:36 - Sérgio Pedra
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O Brasil, autoproclamado celeiro do mundo, mergulha em uma crise sanitária, comercial e política que transcende os limites da gripe aviária. A detecção do primeiro foco do vírus H5N1 em uma granja comercial no Rio Grande do Sul — epicentro de 15% da produção nacional de aves — desencadeou, de imediato, a suspensão das compras de frango brasileiro pela China e pela União Europeia, dois dos principais destinos do produto. Contudo, mais do que uma consequência direta de um surto localizado, o episódio revela a face oculta e estrutural de um modelo agroindustrial que, sob o verniz da eficiência exportadora, esconde práticas predatórias, vulnerabilidades sanitárias históricas, riscos ambientais profundos e uma perigosa submissão às lógicas de dependência econômica e política impostas pelo mercado global.
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A crise atual, ainda que narrada como episódica, tem raízes em décadas de escolhas políticas e econômicas que priorizaram o agronegócio intensivo e monocultural em detrimento da soberania alimentar, da segurança sanitária e do desenvolvimento sustentável. Como bem lembrou o filósofo brasileiro José de Souza Martins, “o Brasil é uma economia de penetração colonial em pleno século XXI, que, ao invés de criar cidadania e segurança alimentar, cria commodities e insegurança social”.
A face colonial do agro-exportador brasileiro
O modelo de avicultura intensiva no Brasil é herdeiro direto do projeto de modernização conservadora implantado durante a ditadura civil-militar, nos anos 1970, sob forte influência da chamada Revolução Verde. Adotou-se uma lógica de concentração fundiária, verticalização da cadeia produtiva e padronização industrial, exportando o ethos da indústria automobilística para o campo. Isso criou um sistema dependente de insumos industriais, altamente mecanizado e voltado quase exclusivamente para o mercado externo, com pouco ou nenhum compromisso com as dinâmicas territoriais, ambientais e sociais locais.
Como destacou o relatório do próprio Ministério da Agricultura, obtido pela Folha de S.Paulo, o sistema brasileiro de produção de aves é vulnerável a crises sanitárias justamente porque é construído sobre pilares de superexploração animal, densidade populacional extrema, privação de comportamento natural das aves e uso abusivo de antibióticos — elementos que, segundo a OMS, compõem o ambiente ideal para a proliferação de pandemias zoonóticas.
Esse modelo não é apenas uma falha técnica: é um projeto político que reproduz as relações coloniais, nas quais o Brasil assume a função subalterna de fornecedor de matéria-prima animal, sem agregar valor, sem desenvolver cadeias produtivas complexas e, pior, sem estabelecer mecanismos regulatórios internos eficazes. A ausência, até hoje, de uma legislação nacional de bem-estar animal na criação de aves é mais do que uma lacuna legal: é uma escolha estratégica de manter o setor avícola brasileiro em uma zona de desregulamentação funcional aos interesses das corporações exportadoras.
A banalização da morte como política de produção
A gripe aviária que atinge o Brasil é parte de uma cadeia global de doenças zoonóticas que desafiam as fronteiras entre saúde humana, animal e ambiental. Como alerta o conceito de One Health, defendido pela FAO e pela OMS, essas dimensões são indissociáveis. Porém, o modelo de produção intensiva brasileiro, ao dissociá-las, transforma o próprio ambiente rural em campo de extermínio em massa: mais de 170 milhões de aves já foram sacrificadas apenas nos Estados Unidos desde 2022.
O que se reproduz é o que Hannah Arendt denominou como “banalidade do mal” — não mais como fenômeno ligado exclusivamente aos regimes totalitários, mas como lógica ordinária da racionalidade econômica moderna, que transforma animais, trabalhadores, territórios e populações inteiras em cifras descartáveis no altar da produtividade e do lucro.
Não por acaso, o próprio relatório do Ministério da Agricultura reconhece que a superlotação das granjas, aliada ao estresse crônico dos animais, reduz sua imunidade, tornando-os vulneráveis a surtos cíclicos que colocam em xeque não apenas a cadeia produtiva, mas também a segurança alimentar e sanitária nacional.
A armadilha da dependência
A resposta do governo Lula, ainda tímida, reflete a encruzilhada histórica do país: de um lado, o peso do setor agroexportador na balança comercial brasileira, de outro, a urgência de reformas estruturais no modelo produtivo. Como admitiu o ministro Carlos Fávaro, o Brasil terá dificuldades em evitar embargos mais amplos, dado o gigantismo de sua produção — cerca de 5 bilhões de frangos abatidos por ano, responsáveis por 38% das exportações globais de carne de frango.
A ironia cruel é que, quanto maior a dependência do país de seus mercados externos, maior sua vulnerabilidade às imposições sanitárias e comerciais impostas por eles. A política sanitária brasileira, ao ser reativa e não preventiva, expõe o país a ciclos de instabilidade que geram efeitos devastadores sobre trabalhadores, pequenos produtores e comunidades inteiras que dependem da avicultura.
Como advertia Celso Furtado, o subdesenvolvimento não é uma etapa, mas uma condição estruturalmente reproduzida pelas elites nacionais em aliança com o capital externo (Formação Econômica do Brasil, 1959). No caso da agroindústria avícola, a insistência no modelo intensivo sem regulação fortalece essa condição, transformando o Brasil em exportador de risco e não de segurança alimentar.
Uma governança sanitária democrática e soberana é possível?
O desafio brasileiro, portanto, vai muito além do controle imediato da gripe aviária. Ele exige uma ruptura com a lógica colonial-exportadora e a construção de um novo paradigma agroalimentar baseado na soberania sanitária, alimentar, ambiental e econômica. Isso pressupõe a consolidação de uma governança pública forte, reguladora, com base em princípios democráticos, transparentes e participativos — algo que ainda está longe de ser realidade.
O próprio Ministério da Agricultura elaborou uma minuta de decreto sobre bem-estar animal, mas ela permanece engavetada, pressionada por lobbies poderosos que atuam no Congresso e nas agências reguladoras. Como aponta o relatório, sem uma norma obrigatória e universal, o setor continuará reproduzindo práticas insustentáveis, exacerbando o risco de novas pandemias, agravando a crise da resistência antimicrobiana e aprofundando a degradação ambiental.
Como ensinou Boaventura de Sousa Santos, “não há justiça social sem justiça ambiental e não há soberania sem autonomia sanitária” (Epistemologias do Sul, 2010). O Brasil, ao não enfrentar com coragem seus gargalos estruturais, seguirá condenado a viver sob o fantasma de crises cíclicas que corroem sua democracia, sua economia e sua soberania alimentar.
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SÉRGIO PEDRA
É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.
Autorização de limpeza de pasto mascara e ‘legaliza’ desmatamento ilegal
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